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quarta-feira, 10 de junho de 2015

Mãe e filhos


Rádio: Então, meus amigos, nós não devemos temer a morte pois todos vamos deixar essa existência um dia para acordarmos na vida real. Os medos que criamos aqui são desnecessários. Porém, como não sabemos quanto tempo temos, devemos nos preparar e cuidar dessa existência encarnada como quem cuida de um jardim. Sejamos jardineiros tranquilos e afetuosos. Valorizemos essa oportunidade maravilhosa que é estarmos vivos! Temos nossos momentos de tristeza, dúvida, raiva. Sim, temos. Meus amigos, nesses momentos, devemos ler um parágrafo, dois parágrafos do Evangelho. Ou mesmo uma página se o tempo permitir...

- Se o tempo permitir?
Se tivermos tempo sobrando.
- Tempo sobrando?
Tantos afazeres nessa vida corrida.

O que há de errado comigo? Por que tenho tanto tempo de sobra? Por que ouço o mundo todo reclamar de falta de tempo e mesmo assim acordo meio-dia e como um pedaço de bolo com cobertura de chocolate e passo as próximas horas vendo pornografia ou facebookeando - não necessariamente nessa ordem? Por que a diferença? Não quero ser diferente.

Mensagem no whatsapp: Oi meu filho, seu pai te ligou? Se for possível, transfira 160 reais para minha conta no Bradesco. Estou com o dinheiro aqui, mas não tenho tempo de sair e preciso depositar antes das 16h.

- Oi?
- Transferir.
- Pede pro meu irmão. Ele já está na rua. Acabei de acordar.

* * *

- Eu não tenho mais tempo pra isso. Tenho 25 anos! Não dá pra continuar assim.
- Tira a camisa pra eu ver!
- Eu não posso continuar nessa vida. Pra mim já deu. Que merda é essa? Que merda sou eu?
- Anda logo, tira a camisa! 
- Ok.
- Puta merda, você tá muito magro mesmo. Tá tomando a parada certinho?
- Sabe como é, uma vez que você se acostuma, já era.
- Para de falar merda! Isso é coisa de viadinho adolescente. Você não quer mudar de vida? Não tava agora mesmo aí choramingando que tem 25 anos e não tem porra nenhuma? Abre a boca! Deixa eu ver como tá a situação aí.
- Hum... Ok.
- Puta que pariu! Você tá todo fodido! 
- Muito trabalho, né. 
- Tu voltou a chupar pau?
- Não, não. Só continuo o vício, sabe? Não tenho fome e quando tenho, como demais.
- Para com essa porra! Já te falei que é coisa de viado.
- Ok.
- Se tu precisar falar e tal... Se tiver se sentindo mal, me liga! De verdade aê. Só ligar!
- Ok.
- Sou teu amigo antes de tudo.
- Ok.
- Cê acha que vai dar pra quebrar essa?
- Dívida é dívida, né?
- Ô, sou teu amigo porra! Tô aqui como um amigo pedindo prum amigo quebrar um galho. Tem essa de dívida não.
- Ok. Acho que dá sim.
- Bota essa língua pra fora! 
- São quantas cápsulas?
- 20.
- Caralho! 
- É.
- Caralho! Que merda.
- Ah, não não! Não! Nada de chorar na minha frente! Sabe que sou coração mole. Se tu não puder eu vou entender.
- Não é nada disso não. Eu só tenho pensado muito na vida. No que eu fiz até aqui. Porra, eu não tenho nada, ninguém. Sou nada. Eu me olho no espelho e me vejo sumindo. 
- Vai ser difícil te deixar de boa com os caras lá. Eles queriam você embarcando amanhã. Eu posso até tentar. Mas vai ser difícil. Sabe como a parada com eles é só números, lucros e tal. 
- Acho até enraçado isso que me aconteceu. Foi até tarde. Ou cedo. Sei lá. Se por um lado eu tenho 25 anos, por outro, eu já vivi coisas tão surreais. Meio que à mercê do acaso. Fiz muita merda! Não tem como não achar graça. Mas não tô feliz. 
- Você deixou um rombo muito grande. É difícil passar por cima de uma coisa dessas. Você é realmente maluco.
- Caralho, eu tô rindo, mas não tô feliz! Você tem noção do que é isso?
- Para de falar coisa sem sentido! Tô virado, com uma puta dor de cabeça e não tô nem um pouco no clima pra suas babaquices. 
- Eu vou fazer! Que horas amanhã? Eu vou fazer!
- Aí ó, são os filhas da puta me ligando!
- Pode falar para eles que eu vou fazer. Enfio pelo cu, é mais tranquilo.
- Esse é meu garoto! Seu putinho sacana!

* * *

Reprise no rádio: Meus amigos, nesses momentos, devemos ler um parágrafo, dois parágrafos do Evangelho. Ou mesmo uma página se o tempo permitir. Fazer o culto do Evangelho no lar é de extrema importância para manter um ambiente harmonioso. Lembremos que nossas casas devem ser local  de cultivo e exercício da paz e do amor. Todos os dias, meus amigos, é preciso olhar nosso familiar e amá-lo e perdoá-lo. Não é fácil a convivência em família, mas é preciso tentar, já que as famílias são o gérmen da sociedade. Se não cuidarmos de quem nos é mais próximo, não daremos conta de fazer da Terra um lugar melhor no futuro.

Ué, os meninos deixaram o rádio ligado? E alto ainda por cima! Eles não tem noção da hora. Olha aí, ninguém colocou o lixo também! Mais um dia acumulado. Já tá cheirando até. Se eu não lembro, eles simplesmente não fazem. Impressionante! Hum, não tem nada de bom nessa casa! Tenho que fazer mercado esse final de semana. Não posso esquecer, tenho que anotar. Vou tentar arrastar o Dani comigo. É mais que obrigação dele levar a mãe no mercado, não é? Não gosto de ser esse tipo de mãe que depende dos filhos, mas não é nada demais. Ele faz parte da família. Come e bebe aqui. E esse carro não é só dele. É da família! Sem contar que não faz nada o dia todo. Aliás, tô preocupada com esses dois. Um só vai a faculdade quando quer, outro, nem sei. Ah meu Deus, eu já falei com o Lipe para ele procurar outro trabalho. Essa coisa de motoboy não é segura. Tanta notícia que a gente vê por aí. E ele tem estudo, poxa. Acho que o Lipe tem um sério problema de autoestima. Isso me deixa tão triste. E acho que ele tá entrando em depressão de novo. Mas ele não admite, nunca vai admitir. E nem posso me atrever a abrir a boca. Parece até que minha presença faz mal. Isso me deixa tão triste... Ah meu Deus, por que comigo? Eu tento fazer tudo que posso por esses meninos. O Senhor sabe como foi esse menino na adolescência. Só o Senhor sabe como sofri. Aliás, não posso pensar desse jeito: todo mundo sofreu. Nem gosto de lembrar! Ah... Que fome! 

Rádio: Meus queridos companheiros, obrigado por acompanharem o programa e pelas mensagens tão lindas que nos enviam diariamente! Fiquem com a paz de Deus e se lembrem sempre que esse tempo que nos foi concedido é para ser celebrado e vivido de acordo com as Leis de Deus. Não sejamos pegos de surpresa pelo fim. Preparemo-nos! Amemos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos! Amor e paz, meus queridos! Até a próxima!

Ah... Eu só quero que eles sejam felizes. Meus meninos...

* * *

Lipe, com licença! Já tá dormindo? Ah, deve ter trabalhado muito hoje. Tadinho. Tão bonito, meu filho! Hum, tá um pouco quente. Será que tá com febre? Ai, está tão magrinho. Esse menino não tá comendo direito, só pode.  Essa correria do dia-a-dia. Fica aí por essas ruas, se arriscando. Pra quê, meu filho? Eu sei que você não gosta quando eu falo, mas... Eu me preocupo, ué? Fazer o quê. Olha Lipe, eu vou te contar um segredo. Quando você nasceu, eu não tinha ideia do que fazer. Você, prematuro, um trocinho magrelo toda vida. Não estranhe, eu te achava mais coisa que gente. É engraçado, né? Uma mãe não deve dizer uma coisa dessas, mas meu Deus, você era muito frágil! Vivia com febre. E ainda por cima eu tinha um pavor terrível de te derrubar no chão e você bater a cabeça. Ficava te vigiando sem parar. Você só dormia. Aquilo me deixava pê da vida, porque enquanto você só dormia, eu não conseguia pregar os olhos. E seu pai roncando do meu lado. Ai ai... Eu ficava te vendo respirar, igual agora. Com aquele medo gigante. Achava que você ia parar de repente. Era tão fraquinho, o peito mal mexia. Me perdia ali, te olhando dormir. Era hipnótico. De repente passava o cansaço, o medo. O tempo parava e eu ficava cheia de uma felicidade e uma vontade! Vontade de dar certo, de te dar todo amor que pudesse! Ah... Como era bom! Tô sentindo isso agora, meu filho. Obrigada! Te amo! Deixa eu ir lá falar com o seu irmão. Ele também te ama, viu?

* * *

- Dani, posso entrar? Dani?
- Oi mãe, que é?
- Abre aqui, quero te dar boa noite.
- Tá tá, só um instantinho.
- Aleluia! Que você tá fazendo aqui que precisa trancar a porta? Não precisa disso, meu filho!
- Ok. Que foi mãe?
- Que você tá vendo aí?
- Para mãe! Me deixa! Eu hein. Cadê a privacidade?
- Sem exagero, Dani. Você foi a faculdade hoje?
- Não.
- Ué, não teve aula?
- Não.
- De novo?
- Uhum.
- Está acontecendo alguma coisa lá? Não tô entendendo.
- Não sei.
- Como assim não sabe, meu filho? Você precisa saber! É o seu futuro que tá em jogo. Eu não tô... Eu e seu pai não estamos pagando a mensalidade à toa. Amanhã mesmo eu vou...
- Mãe, mãe, parou! Para de drama! Esse semestre eu só tenho duas disciplinas.
- Já tá acabando, né?
- Uhum.
- Ah, eu vou ficar tão boba na sua formatura. Não vejo a hora! Meu menino virando homem. Daqui a pouco tá advogando num escritório famoso, sei lá. É isso que você quer, certo? Eu nem sei mais. A gente quase não conversa.
- É quase isso, mãe. Eu acho. Não sei. 
- Como assim, meu filho? Você não sabe de nada. Quais são seus planos pra depois que se formar? Não pensou nisso ainda? Não tá acabando?
- Ai mãe, que saco! Não posso nem relaxar à noite?! Que merda!
- Não precisa xingar, Dani!
- Quando acabar eu vou saber o que fazer.
- Mas não tá acabando?
- Tá tá.
- Hum... Depois a gente conversa então. Você deve estar cansado.
- Uhum.
- Vê se acorda cedo amanhã, ok?
- Ok.
- Ah, tô querendo ir no mercado no sábado. Você pode ir comigo?
- Ih, não vai dar não.
- Poxa Dani. E no domingo?
- Se eu acordar cedo... Vou ver.
- Ok.
- Preciso terminar um negócio aqui, mãe.
- Tá. Boa noite, meu filho.
- Boa noite!
- Não ouvi!
- Boa noite, mãe!
- Ah, agora sim. Boa noite, meu filho! Dorme bem!
- Valeu.
- Dani!
- Oi?
- Te amo!
- Hum, ok.

* * *

Obrigada, Deus, por minha família! Que a sua luz esteja conosco, nessa casa, em nossos corações, nos mantendo protegidos e fortes! Que os espíritos de luz, nossos espíritos guardiões, possam orientar nossos caminhos para que possamos  fazer sempre as melhores escolhas. Abençoe o Felipe, Senhor! Que ele consiga arranjar um tempo para comer. Peço humildemente que, se for o caso, que ele encontre um lugar melhor para trabalhar. Mas, por enquanto, proteja suas corridas, por favor! Ah, se ele puder encontrar uma pessoa legal, seria tão tão bom, meu Deus! Sinto que ele precisa de alguém para amar e ser amado. Abençoe também mais novo, o Daniel! Faça com ele se interesse mais pelos estudos, Senhor! Já chegou tão longe, tem tanto potencial, mas parece não perceber. Que ele se forme e seja um excelente advogado. E ajude a sociedade a ser mais justa. Que ele seja um instrumento seu e um cidadão de bem! Obrigada por estar viva, por essa oportunidade maravilhosa que é esta vida! Que essa noite seja uma noite agradável, tenhamos bons sonhos e que amanhã seja um bom dia de sol! Que assim seja! Amém.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

O impossível das tardes de verão



Numa cabine na lateral do palácio, estávamos conversando quando uma nuvem encobriu o céu. Sabe essas tardes em que o sol vai e volta porque as nuvens estão inquietas? Eis o que acontecia. Minha mãe finalmente tinha conseguido programar essa viagem em família. Meu pai concordou e pediu folga da corporação (ele é policial) e minha irmã levou o namorado. Eu sou o filho do meio, sem regalias e namorada e esqueci meu ipad em casa – o que pro meu desespero se confirmou como a pior coisa dessas férias já que tinha de fato que conversar com meus pais sobre a escola, namoros e outras coisas chatas. O resort ficava em Recife e descobri que adoro o sotaque das recifenses. Tinha uma em especial que fiquei meio perseguindo depois que me falou “bom dia!”; chamei de Lola. Uma negra que brilha no sol, de olhos pretos e trancinhas até a cintura – Lola era dona de uma bunda espetacular, diga-se de passagem. Além de tudo isso, ela tinha uma maneira linda de usar as mãos e sorrir: conversava cada dia com alguém novo e tocava suas mãos e acarinhava seu rosto e sorria sorriso grande pras coisas que as pessoas falavam e abraçava quase todo mundo. Outro dia a vi num papo sério com uma camareira na frente do seu quarto (número 32). Percebi que era sério porque não sorria, mas mesmo assim acariciou o ombro da moça ao perceber que ela entendeu sua reclamação.

Quem me acompanhava nessa perseguição era meu irmãozinho Saulo, de sete anos. Ele é autista, não fala uma palavra e não sabe nadar. Mas me entende como ninguém e adora segurar na minha mão. Minha mãe disse pra cuidar dele durante essas férias porque ela queria curtir um tempo a sós com meu pai. Meu irmão dá muito trabalho pra ela; particularmente acho que ele a odeia. Nesse momento, Saulo tá na praia com minha irmã e o pangaré (apelido carinhoso que criei pro namorado dela). “Gui, vai lá ver seu irmão! Tô preocupada com ele. Sabe como aquela garota é... Mais distraída impossível! Com o Sérgio aqui então... Ai, vai lá Gui! Que que custa?” eu olhei pra minha mãe bem fundo e pensei em como ela era chata e depois olhei pra Lola, que tava bem em frente a nossa cabine, rindo com as amigas. “Ok mãe.”  Abri a porta de vidro e saí. Lola me olhou. Percebi. Mas foi bem rápido; ela logo voltou a atenção pra algo que viam no notebook. Esbarrei num camareiro e seu rádio caiu no chão, apitando e dizendo: “Mar revolto. Mudança de clima. Aconselhar banhistas a deixarem a praia.”

O resort tem uns cem camareiros e cinquenta seguranças. Chamam o prédio central de palácio por causa da sua arquitetura. Tem três andares e nas varandas existem cabines de vidro que levam a alguns quartos. Costumam servir peixe e cerveja no almoço; o que não combina muito com o termo “palácio”. Na frente há uma escadaria que leva a uma extensa área verde decorativa para as centenas de quilômetros de automóveis estacionados. Nosso carro está num segundo estacionamento suspenso e muito bem localizado porque fomos um dos primeiros a chegar, logo no dia três de janeiro.  Eu e o Saulo andamos por isso tudo: descemos e subimos as escadas diversas vezes. Às vezes ficávamos sentados vendo a multidão passar; tanta gente hospedada ali! Muita criança chorando e mulheres de canga molhada as puxando pelos bracinhos. Outras vezes, olhávamos pra dentro dos carros pra ver o que as pessoas tinham esquecido. E subíamos as escadas estreitas para o estacionamento suspenso só pra ficar dentro do carro por um tempo e meu irmão fingir estar dirigindo. Num dia desses vi Lola sair de um chevrolet meriva todo preto, com insufilm bem escuro inclusive; parecia nervosa e saiu rápida escadas abaixo.  Fiquei meia hora tentando ver o que tinha dentro do carro até meu irmão me apontar o vidro traseiro, onde a poeira permitiu se escrever: “12h30”. Parece que tentaram apagar mas não foram bem-sucedidos. Aquilo tirou meu sono por três noites – Lola tinha um caso de verão e não era eu. A decepção piorou meus dias sem ipad.

Peguei o rádio do camareiro e ele agradeceu e foi em direção à praia. Fui logo atrás. Essa nuvem que tapou o sol não era das que se vão rápido. Aqui costuma ventar muito, principalmente à tardinha, mas dessa vez logo vieram os pingos finos de chuva. Perdi o camareiro no meio da multidão tagarela. “Cadê a retardada da minha irmã?” Procurei perto do quiosque do peixonauta, que meu irmão adora, mas não estavam ali. As pessoas começaram a se movimentar lentamente; camareiras fechavam cadeiras – paft! – e guarda-sóis e levantavam a areia, mais que o vento, justo pros meus sensíveis olhos. Subi numa mesinha quando o primeiro trovão ressoou por toda minha espinha. As pessoas se assustaram, algumas gritaram. O ritmo se acelerou. Todas começaram a disputa de quem deixaria a praia mais rápido. Os pingos cresceram e, com o primeiro clarão e segundo trovão, a chuva caiu forte. Fui ficando desesperado e xinguei minha irmã em voz alta. As pessoas corriam e ainda riam, o que me deixou mais irritado. Corria por entre elas, na direção contrária. “Sauro!”, comecei a gritar. “Sauro!” – chamava ele de Sauro ao invés de Saulo porque uma vez imitei um tiranossauro rex e ele, sério, rosnou de volta; daí virou apelido. “SAURO!” De repente meu grito ganhou companhia. Era a voz da minha irmã: “Saulo, Saulo!” Parei pra procurar com os olhos; já estava mais que desesperado e a ansiedade me fazia suar frio. Estranho que mesmo com a chuva estava calor; olhei pro céu e desejei com todas as forças a volta do sol. Quando olhei pro mar, vi o pangaré puxando minha irmã da água e ela gritando o nome do meu irmão e esperneando. Corri até eles.

“O que houve, Luiza? Cadê o Saulo?” Ela me olhou chorando e retomou o fôlego. “Ele tava nadando... a gente ensinou ele a boiar. Ela tava tao feliz, Gui... Você tinha que ver. Aí eu não sei, começou a chover e as pessoas fizeram uma confusão... e as ondas aumentaram. Eu tava com a mãozinha dele na minha, Gui. Te juro...” ela voltou a chorar e gaguejar: “Ela escorregou... Eu não sei o que aconteceu.” Deu uma cotovelada no namorado: “Me larga, Sérgio!” e furou o mar num mergulho, meio que gritando pelo meu irmão. Foi aí que me assustei de verdade: vi as ondas, uma maior que a outra, e Sérgio mergulhando atrás da minha irmã com uma cara de tristeza que nunca pensei que ele fosse capaz de ter. Minha boca tava seca. O vento forte não deixava a chuva cair normalmente. E meu pés gelados, calçados em meias ensopadas: percebi que tava de tênis dentro d’agua.  “Como assim ela colocou o Sauro dentro d’agua? Ela tem bosta na cabeça?” Os raios cortavam o céu. Nenhuma voz falava mais ao meu redor. Percebi a praia vazia de repente. “Como assim ela largou a mão dele?!” Foi o tempo de eu gritar a todo pulmão: “MAS QUE MERDA LUIZA!” e tomar um caldo daqueles. Levantei na areia, cuspi água pelo nariz e voltei a mim. Arranquei os tênis e as meias e parti pra água. Sérgio tinha conseguido tirar minha irmã de lá e ela agora gritava meu nome. Era um caos aquele mar: a cada braçada, voltava três. Mergulhei. Só enxergava uma névoa submarina de areia e alga. Algumas pernas provocavam bolhas e empurravam pra sair dali. Uma pessoa acabou dando um chute na minha costela. “Sauro, me ouve! Cadê você?” Eu tava chorando debaixo d’água, meu nariz ardia e acabei abrindo a boca. “Por favor deus.” - meu último pensamento antes de ser puxado por uma mão. “Me larga, Sérgio!”, disse com raiva. “Eu preciso achar o meu irmão, seu retardado insensível”, eu acho que disse isso, mas tudo que podia ouvir eram grunhidos entre as cuspidelas de água. Ele falou alguma coisa que não entendi e continuou me puxando. Quando conseguiu me deixar na areia, nós dois exaustos, eu arfando, deitado de barriga pra cima. Escutei minha irmã chorando. Virei a cabeça e vi umas pessoas em volta de um corpinho meio sem cor. Uma delas fazia massagem no peito do meu irmão. “Um, dois, três...” Virei pro lado e fechei bem os olhos. “Gui, me ajuda a levar ele! Gui! GUI!”

Quando dei por mim estava correndo em direção a cabine dos meus pais com meu irmão tossindo no colo e uma comitiva formada por minha irmã, o namorado, camareiros e desconhecidos logo atrás. Minha irmã escancarou a porta de vidro. “Cadê eles?”, ela gritou. “Coloca ele na cama que eu vou seca-lo” Ele tava como uma pedra de gelo; olhos semicerrados, tremendo como o quê. “Calma, saurinho...” murmurei no seu ouvido quando o coloquei na cama. “Liga pra eles, Sérgio!”, minha irmã jogou o celular em cima do cara e voltou às ordens. “Saiam todos, por favor! Ele tá bem, obrigado pela ajuda.” E forçou um sorriso. Uma camareira tentou oferecer alguma coisa, mas minha irmã sequer ouviu. A moça gritou. Minha irmã fechou a porta na cara dela. “Gui, fecha as cortinas, por favor!” Só quando me virei percebi a multidão em volta da cabine. Entre eles, ela – Lola. Fui fechando devagar, hipnotizado por seu olhar finalmente no meu. Um olhar assustado demais pra uma estranha. Olhar de quem se envolve intimamente com as coisas. “Adeus Lola!”, fechei as cortinas. Meu irmãozinho na cama, já todo enrolado nas cobertas, me chamava pra perto com seu rosnar dengoso. Me deitei do seu lado (“olha essas roupas molhadas, seu imbecil!”, minha irmã), coloquei a mão na sua testa ainda gelada e dei um beijo leve. Fechei também os olhos e fui parar em outro lugar... bem distante. Lá, Lola e eu corríamos com nossos carros de corrida numa pista cheia de curvas; os dois no mesmo carro. Ela me olhava e sorria. Tinha a impressão que íamos bater. Mas era bom: era uma corrida eterna. E ela passava a marcha e sorria. No fim, não sei se ganhamos ou batemos, porque o sonho acabou e acordei com o chiado da tv sem sinal.

“Luiza, Luiza... Você não tá me ouvindo, Luiza...” A sala escura, meus pais sentados no pé da cama. Meu irmão roncava baixo. Minha irmã estava de pé, parecendo irritada. Sérgio numa cadeira no breu, duro como o que, de cabeça baixa. “Você não podia simplesmente enfiá-lo na água porque te deu vontade. Precisa entender que seu irmão podia ter morrido! Era sua responsabilidade! Sua única responsabilidade!” Minha irmã andava de um lado para o outro. Minha mãe pediu que parasse e que a olhasse, no que ela disse: “Mãe, o que vai adiantar você ficar falando toda essa bobagem? É lógico que eu sei disso! Você não viu como eu fiquei? Eu nunca me senti assim... Minha voz se foi, minha garganta tá seca, tô com uma dor de cabeça...” Minha mãe cortou dizendo que era dor na consciência. “... dor de cabeça fortíssima. Você ainda vem sem a menor compaixão e me pesa ainda mais. Porra, eu fiquei muito mal...” (começou a chorar; minha mãe mandou ela não xingar) “A senhora podia ser mais carinhosa... Me desculpa, tá.” Minha mãe começou um monólogo sobre como na verdade ela é a quem mais sofre e como é impossível estar controlada naquele momento; que ela nem está conseguindo pensar direito, que minha irmã é muito inconsequente, que meu irmão podia estar morto e que ela morreria se isso acontecesse. Luiza só chorava e chorava. E de fato sua voz estava tão baixa que começou a se perder junto com o chiado da tv. “Eu nunca te perdoaria se ele tivesse morrido... Ah, minha filha eu sinto muito, mas não conseguiria olhar na sua cara!” Minha irmã parou de chorar e olhou pra cara da minha mãe bem fundo, como quem tem vontade de socar e disse ainda rouca: “Alguém desliga a merda dessa tv!” As duas ficaram se encarando e emanando muita raiva. O pangaré desligou a tv e meu pai intercedeu entre as duas: “Bom, eu acho que o melhor que a gente pode fazer é ir embora agora.” Meu pai era um sujeito bobão, desses pra quem tá tudo sempre bem, mas era só tipo. Ele tinha um jeito pra resolver situações difíceis que nunca vi em ninguém. E fazia como quem não quer nada. “Já não tem mais graça, né?”, continuou: “Filha, querida” (pegou na mão da minha irmã) “fica um pouco na casa do Serginho nesse fim de férias, pode ser?” Minha irmã danou a chorar de novo nos braços do meu pai, que só dizia “tudo bem... tudo bem...” Minha mãe, só olhando com ciúmes, fazendo pouco caso.  Olhei pro lado e meu irmão tinha acordado e me olhava. Sorri e ele se assustou e começou a gritar. Minha mãe tentou acalmá-lo e foi aí que ele gritou mais alto, repelindo minha mãe. Luiza tentou também, mas nada – ele empurrava quem chegasse perto. Papai pediu pra Sérgio ligar a tv. A luz incidiu na cara de Saulo e ele parou na mesma hora e colocou a fronha da boca, mastigando. Eu ri. E ri de verdade, até chorar. Mamãe recebeu o seu esperado abraço do meu pai e ficou mais calma.

Acordei no dia seguinte e já estava tudo pronto. Os camareiros já tinham levado as malas pesadas pro carro e estava sozinho no quarto. Estavam todos tomando café na cabine, em silêncio. “Bom dia”, eu disse. Sem resposta. Peguei um mamão e uma colher, chamei “Sauro!” e ele veio comigo pra dentro do quarto. Liguei a tv: Discovery kids. “Oba, peixonauta!” falei rindo. Eu amo esse moleque; ainda bem que ele existe. “E se morresse?” “Se meu Sauro morresse... hum... acho que ficaria tudo ruim primeiro, pra ficar bem depois porque, sei lá, ele ia poder se livrar dessa carcaça que não serve e ser quem realmente é. Sei lá...” Dei dois soquinhos na cabeça dele. Nem me deu atenção, queria meu mamão.

“Vamos?” Meu pai colocou uma mochila nas costas. “Sua irmã já foi com Sérgio, mas esqueceu a bolsa. Toma!” Peguei a bolsa e coloquei no ombro. Minha mãe mal me olhava. Estava alheia a tudo. Pegou meu irmão no colo e partiu na frente. Saí e meu pai fechou a porta. De repente senti um frio na espinha. Lembrei da praia e tive uma visão de estar no fundo do mar, com o peito roçando na areia, olhando desesperadamente tudo ao meu redor. Lá na frente, numa serenidade incrível, meu irmão deitado, flutuando. Estava tão bem. E eu tão mal. Meu ouvido apitou. “Droga, tô com o ouvido entupido.” Meu pai não me ouviu, parecia apressado também. Estava achando tudo muito estranho. Não parecia uma pressa normal. Era como se estivéssemos fugindo.  Não conseguia acompanhá-lo. “Espera po!”, ele me olhou e depois olhou assustado pra trás de mim. Me virei e vi um segurança nos estranhando. Ele ligava o rádio e começava a falar alguma coisa. Meu pai me bateu pra voltar a andar. Mas a surpresa me pausou: atrás do segurança, Lola, com uma expressão tão confusa quanto a dele. Ela sorriu pra mim e acenou. Congelei. “O que fazer?” Meu pai me gritava, o segurança se aproximava e Lola o acompanhava. “Garoto, vocês já fizeram o check out?” Não entendi, só conseguia olhar pra Lola e seu rosto a centímetros do meu. “Ei garoto?!” Ele começou a estalar os dedos na minha cara. “Como? Sim sim...” Ele colocou a mão no meu ombro, mas Lola a tirou com um tapa. Ele a olhou franzindo as sobrancelhas. “Vem comigo!” Lola pegou na minha mão e saímos correndo. Eu estava tão feliz que nem me dei conta do que estava fazendo ou pra onde estávamos indo. Quando dei por mim, estávamos em frente às escadas pro estacionamento suspenso. Lola me disse: “Vai!” Não entendi. O que estava acontecendo? Meu celular vibrava no bolso. “Vai logo, Guilherme!” Como assim? “Você sabe o meu nome?” Ela sorriu e me deu um selinho. “Claro que sei, mas não conte a sua mãe, ok?” Ela só fazia sorrir pra mim. “Mas que porra é essa?” Lola se virou e foi embora. A bolsa da minha irmã não estava mais no meu ombro. Pessoas passavam por mim e me esbarravam. Lola foi sumindo na distância. “O que estava acontecendo com a minha cabeça?” Olhei pro chão e avistei a bolsa aberta com as coisas jogadas no chão. Tornei a olhar e vi Lola me olhando estranho. “Tá tudo bem?”, ela perguntou. E me ajudou a catar as coisas e fechar a bolsa. Estávamos sendo observados por uma segurança próxima. “Tá tudo bem com você? Saiu correndo do nada.” Ela acariciou meu ombro. “Aquele garotinho de ontem era seu irmão?” Daí, ela começou a falar um monte de coisas que não consegui assimilar de uma vez, mas que foram ecoando e doendo na minha alma. “Eu sinto muito. Meu nome é Lola, trabalho aqui. Gostaria de informá-los que faremos o possível para ressarci-los pelo que houve. Gostaria de dizer em nome de todos que foi lamentável e que sua dor não tem comparação. Sei que seus pais estão passando por um momento de confusão e resolvemos não prestar queixas sobre o acontecido. Já falamos com a camareira e ela concordou em não prestar queixas. Tem algo que podemos fazer por você e pela sua família. A empresa concordou em arcar com toda a despesa que tiveram aqui no resort e nossa equipe de psicólogos concordou em atendê-los caso desejem ficar até o fim da reserva. Mas realmente precisamos, se forem sair, que façam o check-out.”

"Deixem meu filho em paz!”, me pai estava do meu lado e me levantou. Lola lhe entregou a bolsa. “Desculpe, essa carteira é minha.” Nas minhas mão uma carteira roxa da dior. “Hã?” Ela repetiu a frase e lhe entreguei a carteira. Havia bastante gente ao nosso redor. “Vem, Guilherme, vamos embora!” Meu pai pegou na minha mão e me levou escada acima. Lola tentou falar com ele, repetindo as mesmas coisas que me falou, mas ele a repeliu com gestos e negativas. Me colocou no carro e bateu a porta. O som fez doer minha cabeça. Do meu lado ninguém. “Mãe, cadê meu irmão?” Ela não respondeu. Estava dormindo. Ou desmaiada. “Droga, meu irmão realmente tinha morrido.” Meu pai entrou no carro e ligou. Estava sério, me olhou pelo retrovisor e não sorriu. “Droga, Lola nunca me beijou.” Meus olhos encheram d’água. Afundei.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Boiando


Eu tô boiando e nem sei porquê. De alguma forma, esse é o único jeito de se boiar: quando você não sabe nada, não quer saber, ignora, passa o tempo, corresponde ao ócio natural das coisas e desvaloriza todos os possíveis movimentos a seguir. Se algo acontecer, é certo que virá de fora. Para piorar minha situação, eu tô boiando de bariga pra cima - tudo do fundo eu só sinto de leve sob minha pele, nas costas largas do corpo tolo. Ouço também, lá de longe, o que chega perto do ouvido, e o que chega perto nem sempre é real, já que, acima de mim, tem todo um caos gritando, moldando as reações da superfície das águas. E eu vou conforme esse ritmo. Sinto ser um mero escravo do acaso. Vai ver que acaso só existe mesmo quando deixamos. Deixamos acontecer ("a vida me levar"), deixo minha opinião abaixo da dos meus amigos, deixo meus sentimentos esquecidos, louco por gritar, deixo só um sussurro escapar, deixo-me levar ("vida leva eu"), vagando, sem dor, sem nada numa calma disfarçada de tudo. Não nado, jamais mergulho! Mas deixo guardada a confiança no mundo de fora, pois ele me conduz, ele me faz. Quem sou eu? Que me importa, se me dizem que sou, eu boio. Acredito, não nego, sou! É, eu tô boiando de verdade.


Mas se parar pra pensar, não tô todo resumido nessa ação (ou inação). Não sou tão simples assim. "Vazio?" Não, não sou vazio. Muito menos cheio. A vida é muito curta pra se achar a raiz de qualquer coisa, seja de mim ou da onda que bate. Se você sente os sintomas de si, é preferível tratá-los de uma vez, por mais que retornem o tempo todo. Não há tempo pra dúvidas! Nos céus (ou mares), os tempos são outros. Tenho certeza que no meio do caminho, a cada retorno do sintoma de si, você descobre um novo milímetro da raiz (mesmo sem saber que é algo essencial). Aí eu me ferro, porque é tanto tempo que não tenho tempo de perceber que descobri, e aí parece que tudo está infinitamente coberto. E está! E eu, boiando em cima de tudo, deslizando no véu d'água. Deixo assim, deixo que as circunstâncias banais da ocupação humana forjem importância. Esse tempo de trabalho até que existe mesmo, embora nem se possa sonhar saber sua profundidade (vai ver essa não é a medida certa...). E me enganam esse dias cansativos, dão uma sensação de completude (ou finitude), me fazendo desmaiar na cama e desperdiçar um bom sonho à toa. O cansaço nem sempre faz jus ao tempo, talvez ele apenas simbolize a falta de manejo com nossos reais potenciais, quem sabe? Eu sei lá!


E, ainda aqui, pra lá e pra cá sob as ondas, eu escuto o que o mar quer me dizer. Ele não é muito inteligente e não aprendeu a coerência humana. Mas ele me deixa entender, como se eu traduzisse suas palavras através de uma nova habilidade subitamente descoberta, que começa bem no centro de mim, aqui no peito; ah, lembrei: eu sinto o que ele diz com a alma. De vez em quando ela aparece... Boiando, ainda estou à mercê dele, mas o tempo mais uma vez me toma de cabeça pra baixo e trapaceia, me forçando a pensar no que estou sentindo. Apesar de todo o mundo de fora, o silêncio me afunda no falatório de dentro, e o que escutava como o mar, não era o mar. Eu só tô na superfície, e com os toques esporádicos que vêm do fundo e as vozes confusas na cabeça, me sinto em pleno acordo com o tempo e deixo de boiar. Ao invés decido alguma coisa. Acho melhor mergulhar até o fundo, mas o instante de sabedoria me diz que não tenho fôlego para tanto. Resolvo então boiar de barriga pra baixo e vislumbrar o que há por lá, mas aí a vista embaça e só vejo vultos. "Suas decisões querem ser grandes demais", o mar me diz. E então penso pequeno, de modo a me encaixar no espaço deixado para existir naquele instante, e resolvo caminhar pela água... "Calma, daqui pra Jesus são bilhões de aulas de mergulho a fazer". Caminhar na água foi a maneira mais sincera, apesar de não muito clara, de me expressar. Ando sem entender muito o mundo, mas como que entendendo pela primeira vez (são tantas as primeiras vezes que parecem repetidas de vez em quando), sinto tudo de uma vez: a água descendo pelo corpo a cada passada, a areia modificando sua textura, as vozes de fulano, fulaninho, fulanão, todas deiferentes entre si, são pessoas diferentes! Que incrível isso!, o Sol, como brilha e desbrilha, como compreende o mar e é delicado com minha pele. A água some, fico confuso e esbarro em alguém com força, na verdade força dele que corria, mas que droga, por que corria? Acordei. Opa, é meu pai. "Pai, por que estava correndo?", o senhor olha pra mim como quem não quer nada a não ser reconhecer alguém do outro lado dos olhos e diz: "Sabe que eu nem sei." Ele ri, eu não. "Mas foi bom, porque mais um pouco a gente ia embora sem te achar!"


Finalmente ali para ir embora, pensar que iam embora sem mim não me deixava tão mal quanto antes. Tenho certeza que saberia pegar o ônibus certo se pedisse uma informação. Seria satisfatoriamente esclarecido por uma senhorinha que ia me achar uma fofura e apertar minha bochecha com entusiasmo. E iria pro ponto e ninguém ia ligar por estar molhado. Esticaria bem o dedo, o motorista ia parar e me estranhar sozinho, se preocuparia e assumiria um compromisso com minha viagem até a casa, modificando sua rotina (o itinerário). E nem ficaria bravo com meus pais pra não me deixar nervoso e sorriria quando me visse abrindo o portão com a chave que guardei dentro dos shorts. Entraria em silêncio, na ponta dos pés, sem acender as luzes, com o mar ainda nos ouvidos. No quarto dos meus pais, os veria dormindo profundamente, e desejaria entrar, mas desistiria da ideia. Ao invés disso, iria pro meu quarto, encostaria a porta, e já seco, não faria outra coisa senão deitar na cama, olhar pro teto e sonhar. Não estaria cansado e, sabendo disso, o tempo fresco entraria pelo meu nariz com o cheiro salgado do fundo.