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terça-feira, 20 de novembro de 2012

Ssx


Ssx abriu a porta furiosamente. Entrou e mal me olhou. “Olá, babaca!” e me jogou o jornal na cara: “Aquele verme atacou de novo! Levanta essa buzanfa gorda daí, você tá me irritando!” Eu realmente estava acima do peso, mas só um pouquinho. Talvez mais que isso. Quando me conheceu, Ssx me disse que era o gordo mais safado que conhecera e que meus olhos eram infernais. Depois riu pra me deixar mais a vontade e me tascou um beijo, daqueles beijões de novela mesmo. Nunca ninguém tinha me beijado daquele jeito. Sabe quando você sente que a outra pessoa realmente quer te comer? Foi desse jeito que ela me beijou, pareceu eterno, gigante. Depois daquela noite e dos dias que se seguiram eu nunca mais fui o mesmo.

O negócio é o seguinte, eu terminei a faculdade há dois anos. Na verdade não terminei, larguei, mas minha mãe não sabe disso e também nunca se importou de ver um diploma desde que eu ponha comida na sua boca. E é isso que tenho feito, só que com as sobras do restaurante onde trabalho. Ela pensa que sou o nutricionista de lá e que tenho tipo uma posição de chefia. Ela já é velha coitada, foi mãe velha – 42 anos – e viúva cedo, mal conheci meu pai e nem me importo. Não é como se tivesse um trauma ou falta de figura masculina ou essas bobagens todas. Eu nunca liguei muito pra nada pra falar a verdade. Todo dia saio de casa bem cedo pra não ter que fazer café pra ninguém – além de minha mãe, meu tio também mora aqui. É um velho de setenta e poucos anos chato pra caralho. Acordava todo dia às sete e sentava na minha cama esperando eu acordar pra me mandar comprar pão e cigarro. Velho chato da porra. Passei a sair de casa às seis e ficar zanzando por aí. Criei o hábito do cigarro também. Fumo e bebo café toda manhã. Depois vou pro restaurante e começo o trabalho na cozinha. Lá é quente pra burro, nem vale a pena fingir que não. Aí teve esse dia que conheci Ssx.

Saí do restaurante duas da manhã, por aí, era sexta-feira e fui com uns parceiros pruma festinha privê, se é que me entende. Os caras queriam que pegasse uma gostosa, cismaram que eu era virgem. E nem era verdade, mas era quase isso mesmo. Pô, fiquei com uma garota pela primeira vez com dezessete anos e foi um custo danado, mas ela era tão esquisita na cama que te juro que nem sei a aparência da sua vagina, muito menos o cheiro. Meu pau era guiado pela mão da louca até a vagina e, mal entrava, ela tirava e só depois de um tempão botava de novo. Um absurdo, mal dava pra gozar direito. Depois dela não tive mais ninguém. Engordei e tal e ninguém quer um gordinho espinhento do lado. Sou todo oleoso e o trabalho na cozinha só faz piorar. Sacanagem da porra. Então na festinha dos amigos do restaurante tinha umas sete putas. Eu não curto essa parada não e nem é por moralismo ou arrogância, tenho medo é de pegar doença. Porra, essas loucas transam até com javali se pagar bem. A Ssx sobrou – meus amigos eram muito bestas mesmo; ela nem era feia. Tinha um par de pernas finas e seios lotados de silicone. Era alta em comparação com as outras gostosonas. Tinha cabelos longos, bem pretinhos e olhos verdes. Todas estavam mascaradas, bem cafonas, de lingeries e tudo, mas bem filme pornô sabe? Dizendo coisas do tipo: “Deixa eu ver esse cacetão gostoso!” ou “Nossa, como você é gostoso, minha xota já tá toda molhadinha.” Mas Ssx permaneceu quieta o tempo todo. Sorria vez ou outra sem abrir muito a boca ou mostrar os dentes. Parecia realmente infeliz. Sobramos os dois e uma mulher totalmente vulgar, dançando nua e loucamente como se tivesse plateia atenta. Ssx se aproximou e tirou a máscara, tinha um rostinho de dezessete anos. Fiquei com dó dela. Me pediu uma cerveja e nem me deu bola. Perguntei se era adolescente e ela me mandou me foder. Ri de verdade e ela também. Depois me olhou de cima a baixo e disse que tava acima do peso: “Você tá muito gordo, devia correr de vez em quando!” e me beijou. Simples assim.

Nunca pensei que fosse me sentir tão em casa dentro de uma vagina. Não sabia como fazer, enfiava o rosto todo lá dentro, ou pelo menos tentava. Ela ria e me ensinava: “Seu besta, usa essa língua, pode sugar, às vezes as garotas gostam de uma mordidinha de leve.” E ria: “É o que me dizem.” Ah, ela era lésbica e depois de me beijar disse que eu tinha uma alma feminina. Adoro sentir as carninhas se desdobrando na minha boca como se me amassem de volta. Tinha cheiro de dermacyd e gosto de bala. Acho que ela nem sentia prazer, apenas se divertia às minhas custas. E como ria! Gargalhava! Mas aí gemia e eu gozava só de ouvir seus gritos. Gritos não altos, sussurrados e educados. Não era nem um escândalo. Era como se me dissessem pra ficar à vontade. Meu coração se aquecia e sentia pura felicidade. E ela acariciava meus cabelos. Na nossa segunda vez, não sei o que me deu, mas quando ela gozou beijei sua virilha e me emocionei. Quando me viu, ficou séria de repente e seus olhos ficaram cheios d’água. Foi nossa primeira noite abraçados até de manhã. Ela me sussurrou antes de dormir: “Tenho dezenove anos.”

Depois de passar dois dias dormindo no meu quarto (dormia de oito da manhã até cinco da tarde e depois dizia que ia trabalhar, o que achei estranho porque não tinha cara de puta de rua) ela sumiu por três dias, sem deixar número de telefone ou um recado que fosse. E levou minhas chaves. No sábado, acordei tarde e minha mãe surpreendentemente tinha feito café: “Onde tá aquela sua namoradinha?” Me fiz de desentendido e perguntei por meu tio. “Ele saiu, foi jogar carteado, eu acho. Mas me conta, aquela guria é do seu trabalho ou da faculdade. Tem mais cara de ser da faculdade. Uma graça ela.” Concordei e acendi um cigarro. Ela chiou. Foi aí que Ssx entrou na cozinha do nada, dizendo bom dia. Derramei café na roupa e ri de nervoso. Minha mãe tentou dar uma ajeitada na aparência, dando uns tapinhas no cabelo. (Não adiantaram muito, mamãe tinha uma juba pelas manhãs).

“Encontrei um ótimo apê pra gente! Fica a dois quarteirões daqui. Bora ver?” Ela estava deslumbrante de vestido e sandálias. Cabelos soltos e olhos vivos. Nunca a tinha visto daquele jeito. Brilhava de verdade.

Era um apartamento pequeno, sala e cozinha no mesmo lugar e um banheiro todo quebrado, mas o quarto estava maravilhosamente decorado. Paredes amarelas num tom bem leve, uma cama king size com lençóis floridos cheirando a lavados e um quadro acima da cabeceira: um barco à vela perdido num oceano de águas turvas. Era assustador e bonito ao mesmo tempo. Ssx me olhou excitada e disse: “Você tem olhos realmente infernais, sabia? Do tipo que deixam a gente emocionalmente frágil.” E envolveu seus braços no meu corpo, suspirando no meu cangote. “Minha vagina fica molhada só de te ver, seu safado.” Trepamos então pela primeira vez na casa nova. No dia seguinte todas minhas coisas já estavam lá e me vi cozinhando pra ela enquanto cantávamos junto do rádio. De repente Nelson Gonçalves começou a cantar “Naquela Mesa” e ela parou de cortar legumes. Aumentou o volume e começou a dançar de olhos fechados. E cantava baixinho também. Abaixei o fogo da panela e fiquei com os olhos no seu corpo. Mesmo sensual, mesmo com as mãos marcando o corpo, seus passos pareciam inconsoláveis. Quando terminou a música ela se sentou no sofá e começou a chorar de soluçar. Tentei acalma-la, mas me rejeitou. Foi pro banheiro, tomou um banho de meia hora e voltou. Se sentou na mesa e comeu, dizendo: “Hum, isso aqui tá ótimo.” Sugiro que ouça a música, realmente dá vontade de chorar, mas choro comum. O dela me pareceu extremamente específico.

Depois de um mês juntos, ela começou a mudar. Foi falando mais e mais e reclamando de tudo e mordendo mais e mais meu pau sem motivo; por maldade mesmo. Eu chiava, pedia pra ela parar e ia pro banheiro me aliviar sozinho. Não sabia que porra tava acontecendo. Ela começou a acompanhar uma série de crimes contra prostitutas noticiados no jornal da tarde na tv. E passou a comprar o jornal e se esquecer do pão. À noite, gemia com dor e não prazer. De manhã, ao invés de sorrir e dizer que estava tendo os melhores dias da sua vida, como costumava fazer, dizia coisas do tipo “Esse mundo é realmente uma desgraça, olha eu aqui fingindo que minha vida tá perfeita com um babaca sem futuro.” E quando eu tentava beijar seu pescoço – o que antes a fazia rir – ela virava o rosto e me afastava. Perguntava por que ela não sorria mais e ela respondia: “Como quer que eu sorria quando mulheres da minha classe estão sendo covardemente assassinadas?” E me olhava com raiva: “Amanhã pode ser eu sabia?” E corria pro banheiro. Dava pra ouvir da cama seus soluços altos. Estava perdido, completamente perdido.

Segui minha vida, continuei indo pro trabalho e encontrando com ela só nos finais de semana até o entardecer e nos dias de semana pela manhã. Mas sua presença estava me matando, como se comesse todo dia um pouco mais da minha vida. Passei a evitar dormir no apartamento e ia pra casa da minha mãe depois do trabalho. Sábado, quando voltei pro apê, ela mal me olhou, parecia que nem notava, ou se importava mais com minha ausência. “Onde esteve, seu trouxa?”, dizia sem tirar os olhos dos jornais (uma pilha já havia se formado num canto da sala; ela não os jogava fora). “Olha aí o retrato falado do covarde!” E mostrou a foto o estuprador assassino. Depois esquentou o que tinha de resto de comida e jogou na mesa, apontando pra que eu comesse porque ela tinha que ir trabalhar. Ignorei a gororoba e me sentei no sofá. Não conseguia achar o que pensar, só queria me livrar daquela situação. Só queria me livrar dela. Era como se ela tivesse se apoderado de tudo que eu era e me feito acreditar piamente naquele outro ser novo e adorável que criou. E agora ela simplesmente resolveu se desfazer daquilo, como quem destrói um crochê puxando o fio. Tudo que aprendi sobre amor com ela, fui descobrindo que não era amor. Então era o quê? Parecia pesado agora. Só queria me livrar disso e tentar voltar a ser quem era antes. Peguei o jornal que me mostrara e fiquei parado ali olhando aquela foto do assassino. Fiquei vidrado. “Olhos infernais”, pensei.

Acordei assustado e suando no sofá. Tive um sonho terrível. Aquele sujeito estava perseguindo Ssx pela rua e chovia muito. As luzes dos carros passavam rápidas e o som das rodas na chuva deixava Ssx apreensiva. Depois notei que ela chorava. O cara tinha uma faca numa das mãos e se aproximava cada vez mais. De repente ela começava a correr e arrancava a roupa. E gritava: “Seu verme maldito, eu sabia que um dia ia acabar me matando!” E soluçava mais alto: “Eu confiei em você. Nunca tinha confiado num homem antes, sempre soube que não valia à pena. Mas você com esse jeito de bom moço, beijando meu corpo com carinho...” Ela falava diretamente pra mim e sua voz doía na minha cabeça. “Seu covarde!” E do nada, no sonho, eu estava dentro do apartamento, escondido atrás da geladeira e o cara do retrato falado chegava e me puxava pro sofá, onde me estuprava. Só podia sentir uma dor atroz na barriga, como se meu intestino se embolasse todo e estivesse prestes a me cagar. E Ssx estava sentada na cadeira de costas pra mim descascando batata. O sonho me deixou completamente aterrorizado. Acordei com um gosto estranho na boca. A garganta seca, os lábios grudentos. Sabe quando parece que você dormiu por um século e acorda todo amassado? Era bem isso. Deixei minhas chaves em cima da geladeira e fui embora dali pela última vez.

Ela não me ligou e dias se passaram. De certa maneira fui ficando mais atento às notícias e quando soube que o infeliz havia sido preso fiquei imensamente aliviado. O medo de dormir sozinho à noite finalmente passou. Daí pra frente, aos poucos a rotina foi inundando minhas lembranças de Ssx. Isso foi bem até um determinado dia. Estava dormindo, era domingo de manhã e minha mãe me acordou assustada: “É a sua namorada no telefone.” Os olhos de surpresa da minha mãe foram a última coisa que vi antes de ouvir aquela voz que me levou pra fora de toda realidade que já tinha conseguido construir até aquele dia da minha vida. “Alô?”, disse, ainda sonolento.

“Desculpa estar te ligando tão cedo num domingo. Sei que trabalha, mas essa talvez seja minha última chance de falar com você. Bem, estou indo embora do Brasil. É uma coisa que sempre tive vontade de fazer, mas sempre tive medo. Mas agora que vi que nesse país também tem o tipo estuprador covarde, não tem porque temer o que quer que seja. Vou ser puta na Europa. Olha, sei que você deve ter ficado confuso com tudo que rolou, mas é assim que sou. Desde do início te disse que não curtia homens e mesmo assim você insistiu. Você foi um amor, acho que foi o único homem que realmente achei que poderia amar. Mas não deu. Quando vi o que vocês são capazes de fazer com garotas como eu, tive nojo de você. Nojo de quando sua língua tocava minha buceta. Nojo de seus beijinhos no meu pescoço. Nojo do seu pau pegajoso. Só conseguia imaginar que você ia me enfiar uma faca e me abandonar pra morrer sozinha, sem nem avisar minha mãe do meu paradeiro. Nunca te falei da minha mãe, né?” ela riu. “Pois é, e nem importa muito, eles são do interior e não quero mais contato com uma mulher que se sujeita a um velho que não a respeita, que a olha como quem tivesse num degrau acima, olhando do céu. Sujeito porco aquele velho. E ainda foi embora. E ainda nos abandonou. E depois voltou igualzinho, sem mudar um fio de cabelo. E tudo ficou na mesma. Eu não. Você me conhece, sou puta na cidade grande. E uma puta bem ralé, que cobra cinquenta a hora. Gostaria que ele me visse agora, seria engraçado. Tremendamente engraçado.” Ela riu pela segunda vez; foi triste dessa vez. “Mas não quero ver minha mãe sofrer. Se ela soubesse ia sofrer e ia se culpar. Que mania é essa nossa, hein? Nossa vagina não nasceu pra acomodar toda culpa do mundo não! Você nem vai acreditar, mas depois que você começou a sumir e me sentia tão só que comecei a fumar também. Seu traste, ainda me passou seu vício. Mas como isso é normal na Europa, eu te perdoo. Você tá tão quieto...” Pausa. “Aliás, você sempre foi quieto né? Cara, se você fosse mulher, não ia me escapar. Ia te levar junto comigo. E ia se chamar Celina e íamos adotar uma menininha de quatro anos e fazer amor toda noite. E ia saber chupar direito.” Riu discretamente. “Uma pena a gente não ter dado certo. De coração, espero que seja feliz e faça alguém feliz. E se tiver uma filha, não deixa ela ser puta não, tá? E respeita a intimidade dela. Ah, mas isso não quer dizer que não vá dar muito carinho. Ela vai precisar de muito amor, ok?” Outra pausa, mais longa. “Bem, é isso. Me desculpa qualquer coisa. A gente se vê qualquer dia. Beijo.” E piiiiiiiiiiiiiii. Desligou.

Virei pro lado e dormi. Sonhei que a conhecia de novo. E tudo acontecia de novo. Me apaixonava de novo e destruía esse amor uma vez mais. E ela sumia. E depois me ligava e eu sonhava com a coisa toda outra vez.

Quando acordei já era quase segunda.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Havia desaparecido o que deixei no bolso


Ele não sabia o que escrever. Estava tudo muito muito dentro da cabeça. As palavras não queriam obedecer quem não tinha forças pra ordenar. Ele entrou às pressas no banheiro para tomar banho e chorar. Nesses dias tudo estava ficando cada vez mais difícil na intensa despedida da última melancolia. Entrava de surpresa no quarto e via o pai esconder algo, via a mãe mais confusa, com os olhos perdidos ao falar sobre qualquer assunto. Ele tinha dó deles, mas não era pra ter. Era frágil demais e sua mente ainda queria abrigar uma criança recolhida da memória. Os pais não estavam mais ali e não havia ninguém pra ampara-lo sem sexo. Constantemente via algo que tinha que fazer e não queria se ver fazendo. Já que não havia saída, tirou do bolso um pedaço da vida em que podia apostar. Lembrou desse dia em que desejou do fundo da alma ir andando até o fim. E daquele outro em que encontrou aquela figura estranha pela última vez. Sobre esse dia ele chora um pouco mais no banho. Uma pena tê-lo perdido.

Estava sentado no ponto de ônibus quando o cara fedido pediu algo pra dentro do copo. Ele balançou a cabeça antes mesmo de ouvi-lo. O sujeito balançou mais forte o copo e o líquido caiu em cima do outro. R deu um grito abrupto que virou xingamento e se levantou pra bater no mendigo. Quando o olhou, viu que era alguém da sua própria idade e fisionomia perdida; paralisou. O sujeito ficou pedindo desculpas e começou a limpar a bebida de cheiro forte. Enquanto esfregava a perna do outro, as pessoas olhavam e tinham nojo. R estava preso na semelhança. R quis reconhece-lo. Quando acordou o sujeito atravessava a rua e corria pra longe. R o seguiu caminhando firme, com pensamentos fixos numa única nesga de esperança. Luís, o suposto mendigo, entrou num galpão que chamava de casa. R hesitou e ficou disfarçando do lado de fora. Lá dentro, Luís, ajeitava as ferramentas, preparando o espetáculo. R falava sozinho num ritmo acelerado e seu nervosismo apavorava sua alma. Luís começou a uivar. R entrou. As luzes ainda estavam apagadas; seus passos foram cautelosos demais pra alguém que nem estava ali. R se sentiu feliz do nada. Parecia finalmente ter encontrado seu enredo, a história perfeita que ia se encaixar e completar a vida. Ansiava por um final dramático. Luís acendeu as luzes, uma a uma, e o galpão foi se revelando. As paredes estavam pichadas, tinham figuras de seres agonizantes que voavam pra além dos xingamentos e siglas de rap. Eram muitos e queimavam os ouvidos. Luís, o louco, começou a gritar e gritar, chamando pra dentro os monstros de fora. Na verdade, o que fazia era chamar R, que desmaiava. Além das paredes tudo ia voltando devagar para a narrativa: latas de tintas no chão, muito jornal amarelo, ferro retorcido, vassouras, cabos de borracha, placas de madeira e Luís, nu. R acordou aos berros e se livrou das mãos do outro. Correndo pra saída, encontrou nenhuma. As palavras iam começando a fazer sentido: “Você trouxe o que pedi?” R não sabia o que Luís tinha pedido, só sabia que se conheciam de antes e que tinham a mesma idade. “Você estava com ela! Eu vi! Estava sentado bem em cima pra ninguém ver. No ponto de ônibus... Lembra?” R só sabia que seu pênis estava ficando ereto, e imaginava o nervosismo que tudo estava causando. Suor e tremedeira. Sua mente trazia vários fatos: faca na nuca que ia e voltava, Luana nua, chupando seu pau, indo e voltando com a cabeça, sua mãe chorando e seu pai se masturbando, uma menininha chupando sorvete de casquinha, o sorvete no chão, sua mãe chorando, Luís nu, Luís chupando seu pau... “NÃO!” R continuava a gritar, se negava a ouvir, não entendia o que gritava. Luís se aproximava. R não queria aquilo, tinha medo, queria correr, mas não queria correr. “Cara, tá tudo bem! Eu tô aqui!” Luís tentava acalmá-lo, esfregando seu braço. R ficava mais e mais excitado. Os olhos de R assustavam Luís, mas ele só pensava em pegar o pacote e expulsar o outro dali. Sabia das crises do colega. Não ia adiantar abusar da sua boa vontade, era preciso entrar na sintonia do surtado: “Lembra do filme da égua de quadris largos que tinha uma xota bem molhada onde o negão cuspia e depois enfiava o pau? O do xvideos! A gente via antes de perder horas naquele brinquedo de empilhar dois andares. De bloquinhos de madeira... A Luana te ama do avesso e do quadrado e quer te comer ainda hoje. Com certeza quer te comer. Aposto que esse seu sex machine tá cheio de porra acumulada. Seu garanhão! Dá pra ver, seu pervertido! Vem cá, cara! É só me abraçar que tudo vai ficar bem. Mas me dá a encomenda primeiro, sim?” Luís achava um tom de brincadeira em todas as loucuras que falava. Pensava em dizer coisas em inglês e achava inspirador utilizar um maluco como mula. Mas ele amava aquele maluco desde a infância. Luís nunca ia se lembrar e muito menos se culpar do dia em que seu amigo surtou pela primeira vez. R só fez o que o amigo pediu, e ele pedia constantemente (puteiro, rave, circo). Só que R não precisava de muito pra escapar da realidade e mesmo assim, Luís insistia. A única anestesia forte o suficiente era o cheiro de uma vagina, a primeira vagina. R fez besteira e surtou demais. A vida normal que levava com Luana subitamente ficou na fronteira com uma odiosa fantasia. Luís nunca soube o que isso significava e continuava insistindo na provocação barata. “Anda! Dá três voltas e meia pra cá que eu te faço endurecer esse pau e esquecer esse amor vagabundo!” Luís já estava masturbando o amigo para acalmá-lo. Luís odiava ter que fazer aquilo.  Não por consideração, mas por nojo mesmo. R tinha medo e alucinava beijos molhados de sangue por toda a parede. Via Luís trepando com sua mãe e queria mata-lo e matava. Na tevê, as notícias de assalto e investigação da corporação por assassinato. Ouvia o vizinho chegar em casa, tomar um banho quente, esquentar a comida no micro-ondas. Escutava o que a tevê dizia, mas não dizia. O vizinho não tinha tevê. R gozou sem perceber e voltou à realidade. Luís se agachou, limpando a mão com um jornal. R: “Puta que pariu, não acredito que você fez isso de novo?” R partiu pra cima de Luís, chutando sua cara. Luís não desmaiava fácil, mas ficou zonzo. Ele puxou R pela perna e se colocou em cima dele, segurando suas pernas com seu peso. “Seu merdinha! Pensa que eu não sei que você gosta! Aposto que é tudo invenção...” E socou a cara de R. R perdeu um dente porque foi um baita soco. Mas sua raiva fez surgirem forças novas. Luís se assustou com o sangue e libertou o amigo. “Me desculpa, cara! Eu sei que é invenção da sua cabeça e que nem por isso é menos doloroso. Me desculpa!” Ele tentou abraçar o amigo, mas R socou seu estomago uma, duas, três vezes, e riu alto. O outro achou que o amigo já estava surtando de novo, mas R se virou e jogou o pó no chão: “Essa é a sua parte! E se comer minha garota de novo, eu te mato de verdade!” Luís experimentou o pó nos dentes, e tomado por uma euforia, disse: “Ah, vem cá, seu coisa ruim!”, indo abraçar o amigo. Eles se abraçaram e R percebeu que seu pênis ainda estava pra fora. Levou a mão até a cueca e notou a ereção do amigo. R empurrou Luís e xingou. “Seu desgraçado!” Naquele dia foi embora atormentado por sua própria imagem beijando Luís na boca, com língua e amor. Ficou piscando muito até chegar no ponto. Tinha seis chamadas perdidas da mãe. Pensou em ir até a faculdade abraçar Luana e chorar no seu colo, mas temeu seus amigos. R chegou em casa, dizendo que estivera estudando e se trancou no quarto pra ouvir Bette Davis dizer: “I'd luv to kiss ya, but I just washed my hair.” Depois se masturbou vendo o resto de A Malvada e dormiu.

Depois de chorar a lembrança por dias a depressão começou. R ia feliz pra faculdade porque sabia que não ia surtar. Tudo ia bem. Luana dizer que o amava não provocava esquivas ou coceiras. Ele andava normalmente, evitando somente pisar nas linhas muito visíveis no chão. E as aulas tinham textos que não se importavam de serem lidos ou não. De Luís só soube que mendigava sexo na Av. Nossa Senhora de Copacabana. Tudo ia bem obrigado até que o final do período chegou trazendo uma ode à ansiedade, deixando o inferno tomar conta sem queimar. R tentou assistir Um amor pra recordar com Luana, mas não passou da metade sem fazer comentários agressivos. Os dias nublados já não tinham tanto impacto e frescor. Os pais continuavam apáticos e não se divorciavam mais. Uma professora pediu uma dissertação sobre a reforma psiquiátrica e ele não sabia o que escrever. Nem hoje, nem amanhã porque amanhã é dia. Uma lembrança a menos.

domingo, 30 de maio de 2010

Galaxy


- Puta merda! O que você fez, seu imbecil?

Já era dia e José Antônio mal sabia. O ar da manhã gelada batia sem dó no rosto de Helena enquanto ela lutava para arrancar fora a calcinha suja de terra. Ao seu redor, um campo de mato orvalhado e resquícios da noite abandonada.

Helena primeiro umedeceu os lábios com a língua para depois abrir os olhos. Sabia que o que eles podiam ver a envergonharia. De fato a razão serviu dedutivamente bem: vários seres humanos não-recicláveis jaziam em posições sexuais variadas, congelados no cansaço do orgasmo inalcançável. Eles haviam feito jus às várias latas de energéticos. E ela se lembrava claramente que o que via era o resto de uma manifestação política.

A calcinha cheirava a álcool. Helena se desfez dela enquanto José Antônio procurava desesperadamente seu cachimbo escavando o mato alto. A calcinha lhe trouxe o cachimbo caindo bem em cima dele. O rapaz teve nojo e se desfez da desfeita, levando o cachimbo à boca com um saquinho de fumo já na mão.

- Eu não fiz porra nenhuma, foi o puto do Henrique que chamou os caras pra tocar a parada.

Helena se aproximou de José Antônio com um saião hippie de uma mulher desacordada chamada Carmem, cujos cabelos foram raspados pela metade. Helena guardava a dúvida sobre se aquilo ocorrera antes por moda ou depois por protesto. José, que havia terminado o primeiro fumo entre chacoalhadas no corpo todo pra acordar e lembranças cômicas do que foi o dia anterior. Olhou a moça se aproximar com desconfiança fingida, para sustentar um suposto charme. Helena puxou um galão de lata e se sentou ao seu lado.

Os dois rapazes que dialogavam alto demais para a sensibilidade auditiva matinal de Helena se distanciaram um pouco na busca das chaves da picape:

- Liga pra ele, cara! Você não vai querer que o Madruga acorde sem uma explicação do que...


E as vozes se foram.

Helena olhou para José Antônio e parou os olhos com fixidez incomum no seu pescoço encardido com riscas de sangue. Esse dado a iniciou numa série de questionamentos sobre o passado do rapaz e sua ligação com o dela. Aparentemente, os dois estiveram no mesmo círculo sonoro de batidas eletrônicas acordadas com a ação em prol da unificação dos CUTB. Existiam grandes chances de que haviam tido um encontro numa mesa de poker qualquer ou compartilhando um baseado. Do nada, a mente da garota desnudou o rapaz e ela só desejava adivinhar suas proporções genitais. Imaginou se elas seriam capazes de lhe dar prazer e se o corpo dele saberia como se comunicar com o dela. As mãos que eram delicadas com o cachimbo suportariam a fragilidade dos ombros gemendo? O quadril saberia se mover ao som da melodia de seus dedos?

- Me dá uma tragada?

- Você fuma cachimbo?

- Não, nunca fumei.

José Antônio passou o cachimbo para Helena e sua mão, sem querer tocou nos dedos da outra. Ele sentiu de repente a frieza toda da manhã. Ao seu redor a desgraceira do que fora um protesto sem fundamento, ele lembrava. Sua capacidade de acordar um dia depois do outro mantendo os olhos abertos para ver o que mais de patético existia na sua vida ainda o deixava atordoado e surpreso. “Quando você vai parar de respirar um minuto em homenagem ao minuto que perdeu percebendo a desgraça do mundo?”, pensou. A Helena ao seu lado era a mais comum das Helenas, mas ele, mesmo sem saber o nome, nem queria saber sobre suas origens e motivações. José perdera o paladar para o fumo e começou a choramingar silenciosamente em seus pensamentos, lembrando de suas pretensões artísticas.

- Ontem à noite nem deu pra completar a apresentação da proposta cultural. Ia ter uma performance bem bacana sobre a persona universitária atual. Digo, a brasileira.

Ele tomou o cachimbo de volta e notou que Helena lhe sorria no apelo de uma conquista.

- Pois é. Mas se quer saber nem existia a possibilidade de se levar isso a sério. Você fazia parte de algum conselho? - ela o olhou se esquecendo que sorrira antes buscando sexo - Pra falar a verdade, eu nem sabia que isso existia. Vocês foram bem estúpidos de fazerem o evento logo aqui. A primeira sexta do mês é o dia da Galaxy.

- Sabíamos disso. Na verdade, esperávamos que isso ajudasse nossa causa.

José soltou o cachimbo, segurando-o com os dentes pelo canto da boca, fazendo com que Helena dissecasse a cena, adicionando um novo aspecto masculino ao rapaz - uma mais charmoso e tolo. Ele  estendeu a mão direita na sua direção.

- Faço parte do Conselho da URSERJ. José A, prazer!

- José A?

- A e ponto. Significando Antônio.

- Ah... - ela riu notando os primeiros raios de sol tocarem os cabelos grudentos do rapaz - Você queria passar mistério sobre sua identidade.

Ele deu uma longa tragada descobrindo uma nova conexão com a moça.

- Toda identidade é um mistério. Mas não, não pretendia fazer suspense ou coisa parecida ou causar alguma impressão especial. Tipo, você nem faz meu tipo físico de garota e acordei meio mal do estômago pelo bagulho que tomei ontem.

- Você é só José Antônio?

- Isso!

Helena sorriu discretamente para baixo e entrou novamente no jogo de coletar informações interessantes sobre José Antônio. Fora o fato dele ter um nome, seus pressupostos só tinham intenções ajustadas a devaneios sexuais. Ela gostaria de perguntar se tinham transado na noite anterior e, com a negativa, se gostaria de transar naquele momento. Ela sabia que as palavras em sua mente circulariam estúpidas sempre num mesmo eixo até que realizasse seu desejo. Não havia espaço para algo diferente daquilo que eram: ele era um conselheiro e Helena achava tudo aquilo extremamente chato. Incompatíveis.

- O meu nome é Helena.

Eles se olharam uma vez mais e ele finalmente entendeu que ela talvez gostasse de sexo pelas frescas horas do dia. Helena cruzou as pernas, esticando-as na grama e ele pôde perceber que a moça estava sem calcinha. Seu sorriso foi propositalmente safado. No minuto seguinte, José A. já estava sentido uma excitação crescente no pênis. Helena começou a cantar uma música pop qualquer, de costas para ele.

José deu um tapinha no ombro de Helena, chamando sua atenção. Ele balançou a cabeça num convite que a moça não precisou decifrar duas vezes. O botão do jeans voou para quilômetros de distância indo parar na testa de Erick, um calouro de matemática que xingou alto, bocejando. Helena puxou o saião pra cima dos seios e se posicionou em cima de José A. Durante longos quinze minutos ele tiveram relações sexuais.

- Foi legalzinho.

- Desculpe, pensei que era isso que você queria.

O casal estava deitado na grama sentindo o orvalho derreter nas costas suadas. Os outros iam começando a caminhar cambaleantes, carimbando suas sombras nos rostos de Helena e José. Provocavam ruídos de cochicho realmente irritantes àquela hora pós-sexo.

- E era. – respondeu Helena após algum tempo perdida em pensamentos.

- É. Acho que realmente foi legalzinho...

José concordou com Helena apenas por conveniência, mas depois raciocinou honestamente relembrando as cenas da trepada e reconheceu ali nada menos que uma performance meia-boca.

- A gente se vê. – disse Helena, sentindo necessidade de dar algum conforto a José com sua cara de menino triste. Nunca vira um homem tão infeliz após o sexo.

- É. Ainda vamos trabalhar naquela performance que te falei pra usar em outra ocasião... – ele olhou para cara dela forçando um sorriso – que não seja o dia da Galaxy.

- Ah é! Galaxy agora só daqui a um mês. Tá tudo limpo pra vocês e seus grupos de conselheiros discutirem seus assuntos sérios, que visam... – ela não sabia o que dizer e sua voz foi perdendo o ritmo por constrangimento – o bem da comunidade universitária brasileira. Super apoio!

Helena sorriu orgulhosa de sua capacidade de falsear sorrisos.

- Você é uma artista, Helena?

- Eu? Não! Quem dera... Não – ela cuspiu um riso de descrédito – nada a ver.

- Você faz que curso.

Helena pensou em responder, depois pensou em porquê dava tão pouco crédito às artes. Ela lembrou de sua amiga Carla, do tempo em que jogavam pingue-pongue no recreio na época do ginásio. Carla ria bem alto num tom suave e lento, e inspirava Helena a escrever e reescrever a descrição do sorriso em seu bloco de ideias. Nunca havia conseguido decifrar em palavras aquela vivência. De repente questionou a existência desse tal bloco. A galaxy era um destino seguro, porto de felicidades instantâneas. Lembrou de que estivera triste no dia anterior, revirando coisas do passado, chorando com tudo. O bloco reapareceu no meu da confusão. E, por acaso, amou de novo aqueles escritos e chorou nas páginas e guardou consigo. Levara consigo: dançou com aquelas lembranças coladas ao corpo, dentro da bolsa, batendo nos quadris. Seria o bloco um protesto artístico?

- Olha, acho que pouco importa que curso eu faço. Deixa isso pra lá que essa é uma conversa muito tola. Hoje é sábado, mais um dia pra aloprar e depois é domingo e aí volta tudo ao normal. E é assim que eu escolhi viver: sendo normal e aloprando, normal e aloprando até sei lá, sabe?

- Sei. Foi bom te conhecer, Helena! Esse é um nome mítico, não é? Digo, referente à Helena de Troia e tudo mais. Não é assim que contam?

Ela riu presa na conversa mais ridícula de sua vida.

José Antônio tinha sua mente funcionando num esquema de não-compreensão racional e objetiva do que falava, procurando alguma justificativa que validasse uma conexão mais profunda entre ele e Helena. Queria poder interpretar a relação sexual como tendo sido boa e produtiva e não comum e inconsequente, com a ressalva de que ela não engravidasse.

- Não. Ninguém nunca me contou nada.

Helena, sem graça, se virou de costas e andou, interrompendo o jogo das palavras vazias. José bateu com as mãos nos quadris sem pistas de como pescá-la de volta pra si. - "De onde você é, Helena?", ela não ouviu. A derrota forçou o rapaz a planejar uma forma de liquidar o encontro de sua cabeça – a primeira oportunidade veio numa lata de cerveja que o fez recordar da reunião do CUTB naquela tarde, que logo puxou a associação dos estudantes de teatro amador e a compra de comida pra gato. Daí os pensamentos jorraram e ele se esqueceu que estava no meio de um campus fedendo a sexo e álcool. Só existia agora o gosto triste de uma garota que sumiu.

Helena dirigiu até uma padaria, onde pediu um copo de café puro sem açúcar seguido de outro num pré-pedido. Ela deixou que a quentura lavasse sua boca, apagando o sabor de cerveja. Permitiu que a ação de levar o copo à boca, engolir e pousar de novo sobre o balcão equivalesse a uma pausa  nos pensamentos muitos.

- O senhor pode ler essa página, por favor?

O dono da padaria olhou com olhos de aborrecimento, mas tomou das mãos da moça o bloco do ginásio e começou a inspecioná-lo com os olhos. Helena o observou ainda no ritual de beber o café devagar e lavando.

O senhor pigarreou como num palco:

- “Dia sete de abril. Hoje a escola mais uma vez anunciou o início das olimpíadas de gramática e matemática e joguei vôlei. Já foi a terceira vez nessa semana. Carla e eu decidimos sair da fila durante o pronunciamento e agora escrevo do banheiro feminino no terceiro andar. A gente está fumando, mas tudo bem porque já sei que vou parar aos dezoito e porque ela está cantando. Sua voz é tão alta e suave, quase numa incoerência sem saída. Às vezes, sinto que Carla é algo pra me mostrar que eu não consigo ver...” Aqui não dá pra entender – ele resmungou – Ah... “Fiquei pensando um bom tempo no que faria da vida quando estivesse fora do colégio. Queria ser do meio do caminho, como num filme americano – um road movie – queria ser um daqueles bares de beira de estrada por onde todo mundo passa mas não fica. Sei lá, são algumas das bobagens que penso toda vez que ela canta.”

Ele virou a página para verificar que ali terminara o dia sete de abril e que o próximo escrito datava dia oito de agosto. Enfim olhou pra Helena, que bebia o café em outro mundo que não correspondia exatamente ao passado e muito menos ao futuro. Talvez fosse um mini-mundo, desses que ficam em blocos anacrônicos ou camisetas de rock.

O senhor deu uma risada honesta enquanto relia uma frase.

- Engraçado como aqui você escreve: “Carla é algo pra me mostrar...” como se ela fosse uma coisa. – ele ri novamente e olha para Helena, que ri de volta, deixando o dinheiro no balcão.

- Obrigada.

Helena deixa a padaria e dá partida com o carro de volta para aquele lugar planejado tempos atrás, deixando espaços para desvios de percurso. Atrás do espectro vazio do carro, o dono da padaria aparece afoito com o bloco em suas mãos. Ele balança a cabeça e volta para dentro, guardando o bloco dentro do avental. Ele pensou de súbito no dia em que seria uma coisa para onde todos caminhos se voltam. Tinha certeza de que o caminho daquela moça a faria retornar e, para seu espanto sua certeza era a de um profeta. Ele podia ser a ênfase da previsão por enquanto – "não existem limites que não descansassem num regresso.", pensou. E o dia era vinte e nove de maio.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Mesária


Quando eu estiver sobre a mesa
e meus olhos te apontarem aquele brilho,
as lágrimas escorrerão ao contrário.
Cairão no chão...
E você estará lá.

Na janela meu olhar
fitará nossos sonhos:
os iluminados do sol,
reluzentes estelares.
Não haverá mais amor.
Em seu lugar somente o calor
dos nossos sexos úmidos,
em vão.