Mostrando postagens com marcador tempo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador tempo. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Sonho tardio


Ontem sonhei com uma sala
Uma reunião inacabada
De rostos conhecidos
E desconhecidos
Tirando um cochilo,
Arranjados em desalinho.

Três mulheres dormiam no tapete
De linhas amarradas em nós rentes.
A primeira, mais velha,
Tinha cabelos brancos com uma mecha
Preta bem penteada para trás.
Olhava as outras duas, suas filhas,
Deitadas debruço, caras escondidas
Debaixo das mãos
Pressionando choro contra o chão.

No sofá, perto das mulheres,
Outros corpos sonhavam leves
Sobre quem partiu ontem
E quem foi antes.
Pareciam meio acordados,
Apesar dos olhos semicerrados
E sorriam
Sorrisos de netos e bisnetos
Marcando tempos inquietos
Espaçados entre as mobilhas
Da sala quase toda adormecida.

Mais despertos
Estavam os insetos,
Que pousavam vez ou outra
Num dedão ou numa boca,
Traçando caminhos confusos
Na captura de todos os minúsculos
Quase imperceptíveis
Traços e relevos nas superfícies
Daqueles corpos aparentemente
Desatentos às atualizações do presente.

Então uma cena se repetia
E repete no agora, à luz do dia:
A mulher do chão vira de costas
Finge que nem vê a hora
Outra, no sofá, abana mosquito
Que quase invade seu ronco aflito.
Todos se mexem
E a tarde padece
Na noite.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Camiseta que parece gaveta


Foi comprada branca e barata
E foram pintadas fogueira e espada
Para que parecesse minha cara.
Quinze anos passaram e ela
Continua aquela mesma que era
Embora com buracos e rasgos
No tecido semi esquálido.
Se muito se esfrega e lava
Desfaz tanto que logo acaba.
Por isso não uso muito
Senão para lembrar
Do jeito e cheiro peculiar
Da minha infância.
Essa camiseta tem semelhança
Qualquer com a gaveta que a guarda
Já que quando ponho em mim
Vejo que me guarda criança.

segunda-feira, 24 de março de 2014

O crocodilo de plástico

Chove muito, não quero levantar. Minha filha pra lá e pra cá pela casa. Bate uma porta, acende o fogão, mexe em panelas... Passos pesados pra lá e pra cá. Mas ontem mesmo reclamava de mim: que falava alto, que a música estava alta – era pura dor de cabeça. Cheiro de camomila com chuva. Ô paraíso: essa cama macia e todo o resto lá fora. Mais uma batida. Minha filha vai pra rua. Volto a dormir.

Acordo no susto, mas não lembro do sonho que sei que tive. “Pai, pai...” minha filha me sacode com as mãos geladas. Vejo seu rosto pálido e noto a água escorrendo dos cabelos – está encharcada. Começa a me contar que não pregou os olhos a noite toda, que estava angustiada. “Liguei pra todo mundo... pra mamãe, pra vovó, pro titio, pros primos... Até pra você, mas ninguém atendeu e você não acordou. Liguei pra todas minhas amigas e pra alguns conhecidos distantes. Falei com uma pessoa chamada Flávia por engano.” A água escorre e pinga no lençol. Ela me mantém preso à cama, acorrentado a sua narrativa. “Flávia é veterinária, olha só? Passou a noite toda cuidando de um cãozinho agonizante. Na verdade, só vigiando sua morte lenta. Pai, ela me contou isso com tanta emoção que senti doer. Acho que chorou um pouco do outro lado da linha. Chorou pra mim, uma estranha!” Nesse momento, ela começa a chorar, mas não como quem soluça e muda a voz; são apenas lágrimas escorrendo em silêncio, fazendo companhia a água da chuva. “Pai, aí que está. Não éramos mais estranhas... Eu senti como se ela fosse tudo na minha vida. Eram seis da manhã e falávamos de como as coisas são bonitas, mesmo os últimos suspiros. O cachorro era novo, filhote ainda, coitado. Morreu de frio, algo assim; a mudança de clima. Não conseguiu se adaptar. Ela mal o conhecia e notou com uma doçura estranha, diga-se de passagem, aquele fim. Ela falou assim ó: ’é estranho porque quando morreu parecia que estava só dormindo e pronto, mas quando minha bisavó dorme – e ela tem 98 anos – é como se estivesse morta’ e é verdade, pai. Gente velha parece nem mexer mais o peito quando dorme. Parecem impregnados de morte já. Agora pouco, você sonhava e seu peito mexia rápido. Olha, até agora seu coração bate acelerado!” Ela faz cara de espanto com a mão no meu peito. Sorri em seguida. “Teve uma hora que Flávia dormiu no telefone. Era minha vez de falar e, do nada, comecei a contar do dia em que chovia como hoje, quando eu tinha nove anos e eu e você estávamos no centro da cidade. Naquela época você me levava pro trabalho com você porque mamãe tinha voltado pra Recife, lembra? Eu adorava aquilo. Entrava no elevador, sentia aquele cheiro de elevador e você me deixava apertar os botões. Todo mundo sorria pra mim, como se eu fosse aguardada há muito tempo. E lá de cima dava pra ver tudo! Aquele monte de gente pra lá e pra cá, correndo da chuva; as nuvens num tom de ferrugem e de repente o estrondo. Não era trovão, mas ninguém me disse o que era. Todos ficaram apavorados, lembro de ouvir um grito. Você me pegou pelo braço e me tirou da janela. Fiquei sentada enquanto todo mundo falava e olhava pra baixo. Passou por mim uma senhorinha banhada em lágrimas; nunca vou me esquecer. Eu ri pra ela – ela era importante pra mim como você e mamãe; não sei porquê. A gente foi embora mais cedo naquele dia. Você apertava minha mão com força e andava rápido. A chuva era tão fina que nem abrimos o chapéu. Lembro disso porque só assim pude ver aquele objeto mágico sobre a cabeça de um homem de olhos puxados. Isso é importante, pai, presta atenção!” Acompanho de perto suas recordações. Lembro daquele dia como se fosse hoje. “Eu ficava olhando os guarda-chuvas, me perguntando porquê as pessoas precisavam deles se a chuva estava tão fraquinha. De repente apareceu um monstro verde, com dentões e garras. Ele olhou pra mim e disse ‘menina bonita, você sabe onde fica a rua Júpiter?’ Soltei da sua mão, sorri e apontei pro céu. Ele sorriu de volta e disse alguma coisa que não ouvi, porque você me puxou violentamente para dentro daquele mar de gente parada ouvindo as sirenes de ambulância.”


Ela se levanta subitamente e corre pro banheiro. Deixa a porta entreaberta e posso ouvir a urina batendo na água. A chuva volta forte. Aperta a descarga e abre a porta com o pé só pra não me perder de vista. Me olha, gira a torneira e deixa a água cair sobre as mãos. “Minha filha, foi naquele dia que o Seu Henrique, zelador do prédio, recém viúvo, pai de duas meninas, cometeu suicídio. Você se lembra?” Apaga a luz e vem se deitar do meu lado. “Ele estava conversando com você, fazendo aquela brincadeira que você adorava de adivinhar o que tinha na mão. Era só uma moedinha. Você pegou e ficou olhando pela janela. Então, ele abriu a janela ao lado, subiu na cadeira – era um sujeito de menos de um metro e meio, tinha uma cara muito engraçada, deixava aquele bigodinho sujo, lembra?” Ela acomoda o rosto preguiçosamente no meu travesseiro. “Aí, ele mergulhou no ar, né? E paft.” Sobe em mim uma emoção em forma de arrepio. “Essas coisas são muito tristes, minha filha. Não vale a pena ficar relembrando...” Ela levanta o rosto amassado do travesseiro e me olha com ternura: “Tá pai, mas você não se lembra do crocodilo de plástico?”

domingo, 10 de fevereiro de 2013

O impossível das tardes de verão



Numa cabine na lateral do palácio, estávamos conversando quando uma nuvem encobriu o céu. Sabe essas tardes em que o sol vai e volta porque as nuvens estão inquietas? Eis o que acontecia. Minha mãe finalmente tinha conseguido programar essa viagem em família. Meu pai concordou e pediu folga da corporação (ele é policial) e minha irmã levou o namorado. Eu sou o filho do meio, sem regalias e namorada e esqueci meu ipad em casa – o que pro meu desespero se confirmou como a pior coisa dessas férias já que tinha de fato que conversar com meus pais sobre a escola, namoros e outras coisas chatas. O resort ficava em Recife e descobri que adoro o sotaque das recifenses. Tinha uma em especial que fiquei meio perseguindo depois que me falou “bom dia!”; chamei de Lola. Uma negra que brilha no sol, de olhos pretos e trancinhas até a cintura – Lola era dona de uma bunda espetacular, diga-se de passagem. Além de tudo isso, ela tinha uma maneira linda de usar as mãos e sorrir: conversava cada dia com alguém novo e tocava suas mãos e acarinhava seu rosto e sorria sorriso grande pras coisas que as pessoas falavam e abraçava quase todo mundo. Outro dia a vi num papo sério com uma camareira na frente do seu quarto (número 32). Percebi que era sério porque não sorria, mas mesmo assim acariciou o ombro da moça ao perceber que ela entendeu sua reclamação.

Quem me acompanhava nessa perseguição era meu irmãozinho Saulo, de sete anos. Ele é autista, não fala uma palavra e não sabe nadar. Mas me entende como ninguém e adora segurar na minha mão. Minha mãe disse pra cuidar dele durante essas férias porque ela queria curtir um tempo a sós com meu pai. Meu irmão dá muito trabalho pra ela; particularmente acho que ele a odeia. Nesse momento, Saulo tá na praia com minha irmã e o pangaré (apelido carinhoso que criei pro namorado dela). “Gui, vai lá ver seu irmão! Tô preocupada com ele. Sabe como aquela garota é... Mais distraída impossível! Com o Sérgio aqui então... Ai, vai lá Gui! Que que custa?” eu olhei pra minha mãe bem fundo e pensei em como ela era chata e depois olhei pra Lola, que tava bem em frente a nossa cabine, rindo com as amigas. “Ok mãe.”  Abri a porta de vidro e saí. Lola me olhou. Percebi. Mas foi bem rápido; ela logo voltou a atenção pra algo que viam no notebook. Esbarrei num camareiro e seu rádio caiu no chão, apitando e dizendo: “Mar revolto. Mudança de clima. Aconselhar banhistas a deixarem a praia.”

O resort tem uns cem camareiros e cinquenta seguranças. Chamam o prédio central de palácio por causa da sua arquitetura. Tem três andares e nas varandas existem cabines de vidro que levam a alguns quartos. Costumam servir peixe e cerveja no almoço; o que não combina muito com o termo “palácio”. Na frente há uma escadaria que leva a uma extensa área verde decorativa para as centenas de quilômetros de automóveis estacionados. Nosso carro está num segundo estacionamento suspenso e muito bem localizado porque fomos um dos primeiros a chegar, logo no dia três de janeiro.  Eu e o Saulo andamos por isso tudo: descemos e subimos as escadas diversas vezes. Às vezes ficávamos sentados vendo a multidão passar; tanta gente hospedada ali! Muita criança chorando e mulheres de canga molhada as puxando pelos bracinhos. Outras vezes, olhávamos pra dentro dos carros pra ver o que as pessoas tinham esquecido. E subíamos as escadas estreitas para o estacionamento suspenso só pra ficar dentro do carro por um tempo e meu irmão fingir estar dirigindo. Num dia desses vi Lola sair de um chevrolet meriva todo preto, com insufilm bem escuro inclusive; parecia nervosa e saiu rápida escadas abaixo.  Fiquei meia hora tentando ver o que tinha dentro do carro até meu irmão me apontar o vidro traseiro, onde a poeira permitiu se escrever: “12h30”. Parece que tentaram apagar mas não foram bem-sucedidos. Aquilo tirou meu sono por três noites – Lola tinha um caso de verão e não era eu. A decepção piorou meus dias sem ipad.

Peguei o rádio do camareiro e ele agradeceu e foi em direção à praia. Fui logo atrás. Essa nuvem que tapou o sol não era das que se vão rápido. Aqui costuma ventar muito, principalmente à tardinha, mas dessa vez logo vieram os pingos finos de chuva. Perdi o camareiro no meio da multidão tagarela. “Cadê a retardada da minha irmã?” Procurei perto do quiosque do peixonauta, que meu irmão adora, mas não estavam ali. As pessoas começaram a se movimentar lentamente; camareiras fechavam cadeiras – paft! – e guarda-sóis e levantavam a areia, mais que o vento, justo pros meus sensíveis olhos. Subi numa mesinha quando o primeiro trovão ressoou por toda minha espinha. As pessoas se assustaram, algumas gritaram. O ritmo se acelerou. Todas começaram a disputa de quem deixaria a praia mais rápido. Os pingos cresceram e, com o primeiro clarão e segundo trovão, a chuva caiu forte. Fui ficando desesperado e xinguei minha irmã em voz alta. As pessoas corriam e ainda riam, o que me deixou mais irritado. Corria por entre elas, na direção contrária. “Sauro!”, comecei a gritar. “Sauro!” – chamava ele de Sauro ao invés de Saulo porque uma vez imitei um tiranossauro rex e ele, sério, rosnou de volta; daí virou apelido. “SAURO!” De repente meu grito ganhou companhia. Era a voz da minha irmã: “Saulo, Saulo!” Parei pra procurar com os olhos; já estava mais que desesperado e a ansiedade me fazia suar frio. Estranho que mesmo com a chuva estava calor; olhei pro céu e desejei com todas as forças a volta do sol. Quando olhei pro mar, vi o pangaré puxando minha irmã da água e ela gritando o nome do meu irmão e esperneando. Corri até eles.

“O que houve, Luiza? Cadê o Saulo?” Ela me olhou chorando e retomou o fôlego. “Ele tava nadando... a gente ensinou ele a boiar. Ela tava tao feliz, Gui... Você tinha que ver. Aí eu não sei, começou a chover e as pessoas fizeram uma confusão... e as ondas aumentaram. Eu tava com a mãozinha dele na minha, Gui. Te juro...” ela voltou a chorar e gaguejar: “Ela escorregou... Eu não sei o que aconteceu.” Deu uma cotovelada no namorado: “Me larga, Sérgio!” e furou o mar num mergulho, meio que gritando pelo meu irmão. Foi aí que me assustei de verdade: vi as ondas, uma maior que a outra, e Sérgio mergulhando atrás da minha irmã com uma cara de tristeza que nunca pensei que ele fosse capaz de ter. Minha boca tava seca. O vento forte não deixava a chuva cair normalmente. E meu pés gelados, calçados em meias ensopadas: percebi que tava de tênis dentro d’agua.  “Como assim ela colocou o Sauro dentro d’agua? Ela tem bosta na cabeça?” Os raios cortavam o céu. Nenhuma voz falava mais ao meu redor. Percebi a praia vazia de repente. “Como assim ela largou a mão dele?!” Foi o tempo de eu gritar a todo pulmão: “MAS QUE MERDA LUIZA!” e tomar um caldo daqueles. Levantei na areia, cuspi água pelo nariz e voltei a mim. Arranquei os tênis e as meias e parti pra água. Sérgio tinha conseguido tirar minha irmã de lá e ela agora gritava meu nome. Era um caos aquele mar: a cada braçada, voltava três. Mergulhei. Só enxergava uma névoa submarina de areia e alga. Algumas pernas provocavam bolhas e empurravam pra sair dali. Uma pessoa acabou dando um chute na minha costela. “Sauro, me ouve! Cadê você?” Eu tava chorando debaixo d’água, meu nariz ardia e acabei abrindo a boca. “Por favor deus.” - meu último pensamento antes de ser puxado por uma mão. “Me larga, Sérgio!”, disse com raiva. “Eu preciso achar o meu irmão, seu retardado insensível”, eu acho que disse isso, mas tudo que podia ouvir eram grunhidos entre as cuspidelas de água. Ele falou alguma coisa que não entendi e continuou me puxando. Quando conseguiu me deixar na areia, nós dois exaustos, eu arfando, deitado de barriga pra cima. Escutei minha irmã chorando. Virei a cabeça e vi umas pessoas em volta de um corpinho meio sem cor. Uma delas fazia massagem no peito do meu irmão. “Um, dois, três...” Virei pro lado e fechei bem os olhos. “Gui, me ajuda a levar ele! Gui! GUI!”

Quando dei por mim estava correndo em direção a cabine dos meus pais com meu irmão tossindo no colo e uma comitiva formada por minha irmã, o namorado, camareiros e desconhecidos logo atrás. Minha irmã escancarou a porta de vidro. “Cadê eles?”, ela gritou. “Coloca ele na cama que eu vou seca-lo” Ele tava como uma pedra de gelo; olhos semicerrados, tremendo como o quê. “Calma, saurinho...” murmurei no seu ouvido quando o coloquei na cama. “Liga pra eles, Sérgio!”, minha irmã jogou o celular em cima do cara e voltou às ordens. “Saiam todos, por favor! Ele tá bem, obrigado pela ajuda.” E forçou um sorriso. Uma camareira tentou oferecer alguma coisa, mas minha irmã sequer ouviu. A moça gritou. Minha irmã fechou a porta na cara dela. “Gui, fecha as cortinas, por favor!” Só quando me virei percebi a multidão em volta da cabine. Entre eles, ela – Lola. Fui fechando devagar, hipnotizado por seu olhar finalmente no meu. Um olhar assustado demais pra uma estranha. Olhar de quem se envolve intimamente com as coisas. “Adeus Lola!”, fechei as cortinas. Meu irmãozinho na cama, já todo enrolado nas cobertas, me chamava pra perto com seu rosnar dengoso. Me deitei do seu lado (“olha essas roupas molhadas, seu imbecil!”, minha irmã), coloquei a mão na sua testa ainda gelada e dei um beijo leve. Fechei também os olhos e fui parar em outro lugar... bem distante. Lá, Lola e eu corríamos com nossos carros de corrida numa pista cheia de curvas; os dois no mesmo carro. Ela me olhava e sorria. Tinha a impressão que íamos bater. Mas era bom: era uma corrida eterna. E ela passava a marcha e sorria. No fim, não sei se ganhamos ou batemos, porque o sonho acabou e acordei com o chiado da tv sem sinal.

“Luiza, Luiza... Você não tá me ouvindo, Luiza...” A sala escura, meus pais sentados no pé da cama. Meu irmão roncava baixo. Minha irmã estava de pé, parecendo irritada. Sérgio numa cadeira no breu, duro como o que, de cabeça baixa. “Você não podia simplesmente enfiá-lo na água porque te deu vontade. Precisa entender que seu irmão podia ter morrido! Era sua responsabilidade! Sua única responsabilidade!” Minha irmã andava de um lado para o outro. Minha mãe pediu que parasse e que a olhasse, no que ela disse: “Mãe, o que vai adiantar você ficar falando toda essa bobagem? É lógico que eu sei disso! Você não viu como eu fiquei? Eu nunca me senti assim... Minha voz se foi, minha garganta tá seca, tô com uma dor de cabeça...” Minha mãe cortou dizendo que era dor na consciência. “... dor de cabeça fortíssima. Você ainda vem sem a menor compaixão e me pesa ainda mais. Porra, eu fiquei muito mal...” (começou a chorar; minha mãe mandou ela não xingar) “A senhora podia ser mais carinhosa... Me desculpa, tá.” Minha mãe começou um monólogo sobre como na verdade ela é a quem mais sofre e como é impossível estar controlada naquele momento; que ela nem está conseguindo pensar direito, que minha irmã é muito inconsequente, que meu irmão podia estar morto e que ela morreria se isso acontecesse. Luiza só chorava e chorava. E de fato sua voz estava tão baixa que começou a se perder junto com o chiado da tv. “Eu nunca te perdoaria se ele tivesse morrido... Ah, minha filha eu sinto muito, mas não conseguiria olhar na sua cara!” Minha irmã parou de chorar e olhou pra cara da minha mãe bem fundo, como quem tem vontade de socar e disse ainda rouca: “Alguém desliga a merda dessa tv!” As duas ficaram se encarando e emanando muita raiva. O pangaré desligou a tv e meu pai intercedeu entre as duas: “Bom, eu acho que o melhor que a gente pode fazer é ir embora agora.” Meu pai era um sujeito bobão, desses pra quem tá tudo sempre bem, mas era só tipo. Ele tinha um jeito pra resolver situações difíceis que nunca vi em ninguém. E fazia como quem não quer nada. “Já não tem mais graça, né?”, continuou: “Filha, querida” (pegou na mão da minha irmã) “fica um pouco na casa do Serginho nesse fim de férias, pode ser?” Minha irmã danou a chorar de novo nos braços do meu pai, que só dizia “tudo bem... tudo bem...” Minha mãe, só olhando com ciúmes, fazendo pouco caso.  Olhei pro lado e meu irmão tinha acordado e me olhava. Sorri e ele se assustou e começou a gritar. Minha mãe tentou acalmá-lo e foi aí que ele gritou mais alto, repelindo minha mãe. Luiza tentou também, mas nada – ele empurrava quem chegasse perto. Papai pediu pra Sérgio ligar a tv. A luz incidiu na cara de Saulo e ele parou na mesma hora e colocou a fronha da boca, mastigando. Eu ri. E ri de verdade, até chorar. Mamãe recebeu o seu esperado abraço do meu pai e ficou mais calma.

Acordei no dia seguinte e já estava tudo pronto. Os camareiros já tinham levado as malas pesadas pro carro e estava sozinho no quarto. Estavam todos tomando café na cabine, em silêncio. “Bom dia”, eu disse. Sem resposta. Peguei um mamão e uma colher, chamei “Sauro!” e ele veio comigo pra dentro do quarto. Liguei a tv: Discovery kids. “Oba, peixonauta!” falei rindo. Eu amo esse moleque; ainda bem que ele existe. “E se morresse?” “Se meu Sauro morresse... hum... acho que ficaria tudo ruim primeiro, pra ficar bem depois porque, sei lá, ele ia poder se livrar dessa carcaça que não serve e ser quem realmente é. Sei lá...” Dei dois soquinhos na cabeça dele. Nem me deu atenção, queria meu mamão.

“Vamos?” Meu pai colocou uma mochila nas costas. “Sua irmã já foi com Sérgio, mas esqueceu a bolsa. Toma!” Peguei a bolsa e coloquei no ombro. Minha mãe mal me olhava. Estava alheia a tudo. Pegou meu irmão no colo e partiu na frente. Saí e meu pai fechou a porta. De repente senti um frio na espinha. Lembrei da praia e tive uma visão de estar no fundo do mar, com o peito roçando na areia, olhando desesperadamente tudo ao meu redor. Lá na frente, numa serenidade incrível, meu irmão deitado, flutuando. Estava tão bem. E eu tão mal. Meu ouvido apitou. “Droga, tô com o ouvido entupido.” Meu pai não me ouviu, parecia apressado também. Estava achando tudo muito estranho. Não parecia uma pressa normal. Era como se estivéssemos fugindo.  Não conseguia acompanhá-lo. “Espera po!”, ele me olhou e depois olhou assustado pra trás de mim. Me virei e vi um segurança nos estranhando. Ele ligava o rádio e começava a falar alguma coisa. Meu pai me bateu pra voltar a andar. Mas a surpresa me pausou: atrás do segurança, Lola, com uma expressão tão confusa quanto a dele. Ela sorriu pra mim e acenou. Congelei. “O que fazer?” Meu pai me gritava, o segurança se aproximava e Lola o acompanhava. “Garoto, vocês já fizeram o check out?” Não entendi, só conseguia olhar pra Lola e seu rosto a centímetros do meu. “Ei garoto?!” Ele começou a estalar os dedos na minha cara. “Como? Sim sim...” Ele colocou a mão no meu ombro, mas Lola a tirou com um tapa. Ele a olhou franzindo as sobrancelhas. “Vem comigo!” Lola pegou na minha mão e saímos correndo. Eu estava tão feliz que nem me dei conta do que estava fazendo ou pra onde estávamos indo. Quando dei por mim, estávamos em frente às escadas pro estacionamento suspenso. Lola me disse: “Vai!” Não entendi. O que estava acontecendo? Meu celular vibrava no bolso. “Vai logo, Guilherme!” Como assim? “Você sabe o meu nome?” Ela sorriu e me deu um selinho. “Claro que sei, mas não conte a sua mãe, ok?” Ela só fazia sorrir pra mim. “Mas que porra é essa?” Lola se virou e foi embora. A bolsa da minha irmã não estava mais no meu ombro. Pessoas passavam por mim e me esbarravam. Lola foi sumindo na distância. “O que estava acontecendo com a minha cabeça?” Olhei pro chão e avistei a bolsa aberta com as coisas jogadas no chão. Tornei a olhar e vi Lola me olhando estranho. “Tá tudo bem?”, ela perguntou. E me ajudou a catar as coisas e fechar a bolsa. Estávamos sendo observados por uma segurança próxima. “Tá tudo bem com você? Saiu correndo do nada.” Ela acariciou meu ombro. “Aquele garotinho de ontem era seu irmão?” Daí, ela começou a falar um monte de coisas que não consegui assimilar de uma vez, mas que foram ecoando e doendo na minha alma. “Eu sinto muito. Meu nome é Lola, trabalho aqui. Gostaria de informá-los que faremos o possível para ressarci-los pelo que houve. Gostaria de dizer em nome de todos que foi lamentável e que sua dor não tem comparação. Sei que seus pais estão passando por um momento de confusão e resolvemos não prestar queixas sobre o acontecido. Já falamos com a camareira e ela concordou em não prestar queixas. Tem algo que podemos fazer por você e pela sua família. A empresa concordou em arcar com toda a despesa que tiveram aqui no resort e nossa equipe de psicólogos concordou em atendê-los caso desejem ficar até o fim da reserva. Mas realmente precisamos, se forem sair, que façam o check-out.”

"Deixem meu filho em paz!”, me pai estava do meu lado e me levantou. Lola lhe entregou a bolsa. “Desculpe, essa carteira é minha.” Nas minhas mão uma carteira roxa da dior. “Hã?” Ela repetiu a frase e lhe entreguei a carteira. Havia bastante gente ao nosso redor. “Vem, Guilherme, vamos embora!” Meu pai pegou na minha mão e me levou escada acima. Lola tentou falar com ele, repetindo as mesmas coisas que me falou, mas ele a repeliu com gestos e negativas. Me colocou no carro e bateu a porta. O som fez doer minha cabeça. Do meu lado ninguém. “Mãe, cadê meu irmão?” Ela não respondeu. Estava dormindo. Ou desmaiada. “Droga, meu irmão realmente tinha morrido.” Meu pai entrou no carro e ligou. Estava sério, me olhou pelo retrovisor e não sorriu. “Droga, Lola nunca me beijou.” Meus olhos encheram d’água. Afundei.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

No banheiro


Intervalo entre apresentações, a música estava alta e chata quando pisei numa poça de vômito ou coisa parecida e senti vontade de mijar. Entrei no banheiro; estava silencioso, mas haviam pelo menos três cabines ocupadas. Fui pra pia, abri a torneira e bochechei água e cuspi. Tinha pedaço de carne ainda no dente – era do café da manhã. Putz, que porco; escovei os dentes mal e porcamente porque ainda eram onze da matina e os babacas chegaram pra me buscar. Olhando no espelho, reparei no estrago que era meu rosto. Não sou um cara feio, costumo atrair olhares, a própria Zeca disse que me pegava, mas essa coisa de trabalhar dois turnos seguidos por dia não tá caindo bem. Tem um buraco roxo enorme debaixo de cada olho que me dá a indesejável aparência de estar bêbado vinte quatro horas por dia, claro que se soma aí minha lerdeza natural. Mas cara, chega um momento em que não dá mais! Como quer arrumar alguém estando o trapo que está? Vinte e oito anos e nenhuma namorada, nada firme, só casinhos. Vejo a pequena do Luís e me dá maior inveja... Desde moleque quis ser pai. Mas essa vida corre que nem dá chance da gente saber onde está pisando ou mesmo lembrar onde já pisou. Olhando assim pra esse bundão na minha frente, com essas olheiras fundas e esse cabelo bagunçado, me pergunto: será a vida uma caloteira de merda que não paga a conta de luz? – eu realmente devo estar bêbado.

Entrou um casal no banheiro. Riam alto e o cara já estava com a mão na calça do outro. Quando me viram se assustaram e disfarçaram, indo pros mictórios. Como não queria atrapalhar e nem ser testemunha de profanidades, entrei numa cabine vazia e logo dei descarga porque a privada estava cheia de bosta. Abaixei a tampa e já sentado tirei o cigarro do bolso, acendendo um. Que banheiro fedido, meu deus! Com certeza tinha alguém cagando numa das cabines na maior boa vontade. Essa é uma coisa que nunca entendi: que prazer é esse de fazer suas coisas particulares em locais públicos? Os caras deviam estar se chupando lá fora, algum mané deu pra cagar despreocupadamente, e com certeza deve ter um outro filho da puta se drogando ou pior: fumando. Bando de cuzão! Eu ri um pouco alto sem querer e curti outro cigarro. Deram descarga. Mamãe apareceu do nada na minha cabeça e me mandou destrancar a porta do banheiro. Ela esmurrava a porta e eu aumentava a música no diskman. Subitamente parou e tirei os fones a tempo de ouvi-la descer as escadas pisando forte. A seguir reclamações gritadas que não pude distinguir. Recoloquei os fones quando vi que subia novamente. “Abre essa porta, seu depravado!”, socos e depois chutes que até me assustariam se tudo não fosse tão engraçado. “Ah moleque!” – qual não foi minha surpresa e iminente ataque do coração quando vi a porta cair bem na minha frente. Deixei a revista no chão e puxei a cueca pra cima com tanta ferocidade que ela acabou rasgando. Tudo que lembro depois disso era estar correndo pelado com um pano de prato, no meio do quintal, o cachorro do vizinho latindo sem parar e minha mãe com uma colher de pau me perseguindo pra me bater. Naquele dia ela soube que papai ia parar de pagar a pensão e achei que por isso queria descontar em mim. Mas o merdinha só tinha morrido. E eu que nem sabia o que era amor, senti na pele em colheradas consecutivas. Vai saber por que as pessoas não conseguem lidar com os ressentimentos e manter a sanidade ao mesmo tempo. De repente já estava no terceiro cigarro e a gritaria anunciava a entrada de outro DJ no palco lá fora. Apaguei o cigarro no chão, mas me faltou força pra abrir a porta. Fiquei ali parado, olhando, no que pareceram horas. Até que três batidinhas me acordaram e uma brecha se abriu.

“Tem gente!”, falei. Mas a pessoa do outro lado permaneceu parada. Ouvi a respiração ofegante e me assustei. Abri a porta com excesso de força e a porcaria da quina bateu na testa do homem. “Ah caramba, me desculpa!” Ajoelhei do lado do cara. Devia ter uns trinta e poucos anos. Ficou um pouco assustado de inicio, mas depois puxou uma risada eterna que me encheu o saco. Coloquei-o de pé e empurrei até a cabine onde estava antes, ele pisou no resto de cigarro e reparei que estava descalço. Como não respondia minhas perguntas e só sabia rir na minha cara, dei as costas e me dirigi à saída. “Ei!”, ele me chamou de repente. Voltei. “Abre o meu bolso e pega um saquinho que tá aqui fazendo um favor!”, primeiro pensei que não devia, mas o cara já estava tão fodido que pior não dava pra ficar. Entreguei o pó na mão dele, mas não fui embora; minha consciência pediu que o vigiasse por um tempo (como se a vigia fosse evitar alguma coisa). Ele se agachou de frente pra privada, despejou um pouco de pó e com um papel alinhou numa carreira. Enrolou o mesmo papel e sugou pelo nariz. Não dava pra ficar ali vendo um infeliz se matar. Virei de costas mais uma vez e... “Ei!”, olhei e vi seu braço estendido com o rolinho de papel: “Um presentinho.” Mais um pirado na minha vida. De onde é que saem tantos miseráveis pra me azucrinar? “Não, obrigado”, forcei um riso e acenei com a cabeça. “Tu é menor de idade?”, foi a minha vez de rir, me escapou num cuspe; gargalhei com gosto. “Tem cara de ter uns dezesseis anos... Vaza daqui moleque!” De repente o cara se zangou. Continuei achando tudo muito estúpido, mas bateu vontade de provar aquele pó. Sabe que eu nunca me droguei na vida! Quer dizer, já dei uns tecos num cigarro de maconha, mas nada além disso. De longe o espelho continuava a me mostrar um sujeito desengonçado de um metro e meio e cara amassada; solitário, com a mão estendida implorando por uma nova oferta. “Tenho vinte oito.” O cara me olhava estranho, desconfiado, com os olhos quase pulando pra fora. “Você tem cara de uns dezessete, dá pra perceber! Foi mal aí garoto, mas não rola!” Dessa vez eu realmente fiquei incomodado. “Que dezessete o que, porra!? Tenho vinte e oito!” Ele levantou, ficou mais alto como todo mundo fica quando me encara e quis me intimidar. “Deixa eu ver sua identidade então?” Por dentro, eu me consumia em risadas e por fora só ouvia o eco sério. Eram risadas fantasmas, estavam causando uma espécie de indigestão ou coisa do tipo. Via o espelho mais perto, e parecia que tudo estava paralisando. Meu reflexo implorava com o braço estendido e eu o olhava de esguelha; aquele sujeito baixinho... Não me espantava que confundissem sua idade. Por que se escondia num lugar sujo daquele? Fumando que nem um cão desde os quinze, não aguentava nem subir os dois lances de escada do prédio sem se amparar na parede, ofegante. Um merda que nem procura a mãe e que ainda por cima desligou o telefone na cara dela quando ela ligou no domingo toda cheia de saudades. Depois, fingiu que não se emocionou quando a ouviu chorar do outro lado da linha. “Aqui está: vinte e seis de fevereiro de mil novecentos e oitenta e três.” Entreguei a identidade e fiquei vigiando aquele reflexo que só fazia chegar mais perto. Puta que pariu, eu devia estar muito doido. E ainda vem a Telma com aquele papinho no carro: “ai, gente, tô indo pra Paris estudar! Te contei? Alô? Ih... Tem jeito que dormiu mal essa noite [...] Nossa, que bafo hein! Não tô aqui pra ouvir grosseria não hein! [...] Vê se se manca, cara! Ninguém aqui precisa chorar suas dores não! Essa é a graça da coisa toda! [...] Hoje eu quero comemorar! Co-me-mo-ra-ar! [...] Cara, a gente nasce sozinho e fica com essa mania de tomar o mundo pra si [...] Ninguém morre querendo levar meia dúzia de dinheiro ou diamante ou o diabo a quatro, a gente morre querendo levar o espaço que ocupa quando nasce [risadas] É! O útero da mãe, seu merda! [mais risadas] Você soube que o Tom Cruise comeu a placenta da filha [...] Sei lá de quem é. Foda-se! Cara piradaço, meu!” Será que eu tenho dezoito?

“Isso aqui é noventa e três, você não me engana não!” Ele me devolveu a carteira, que caiu da minha mão. Fiquei parado me olhando. Me perdi. Parecia que tudo girava enquanto permanecia sozinho, no meu canto, no meu buraco. Não era indigestão. Eu tinha pisado numa poça de vômito, meu vômito. E estava descalço, os pés pelados, um com uma pequena queimadura que ardia no vômito frio. Os sentidos me enganavam, queriam me prender, queriam que definhasse preso num mesmo mundo pra sempre, fumando um cigarro atrás do outro com medo de magoar minha mãe ou ouvir que meu pai tinha morrido. Com medo de transar sem camisinha e engravidar alguma desconhecida. Um temor enorme que causava arrepio da espinha até os pés pensar em vê-la perdida nos braços de outro, nunca encontrando o caminho de volta junto dos demais espermatozoides. E tudo girava. E meus pés perdiam o equilíbrio do chão, confiando no equilíbrio dos céus. “Com dezoito já respondo por meus atos!” Agachei e suguei. Passaram milênios numa ereção tântrica que só fazia deixar o pau mais mole. O sujeito na cabine alisava meu pau por cima da calça. Na minha cabeça, estava seguro, assistindo tudo numa espécie de coma. Alguém abriu a porta e um som infernal invadiu quebrando o escuro. Quebrando algo mais. “Garoto, você tá muito doido!” Ouvi de longe, bem longe, quase que no Parc de la Pépinière. Minha vista embaçada via o sangue pingar no chão. Fazia um barulhinho chato. Pingava outra coisa ali em cima dos cacos. A visão turva caiu, recobrei a sanidade. Nos pedaços que sobraram na minha frente, me vi velho de novo, com as mesmas olheiras, mas todo vermelho e uma mancha evidente na testa; a cabeça ainda doía da batida na quina. Suava que nem um condenado. Era uma boa história pra contar pra alguém. Não sabia dizer como quebrei o espelho só com um soco, mas me pareceu engraçado olhando assim de longe. Sabia que não devia ter abusado no álcool. E ainda misturei com coca que é ruim que nem diabo pra quem tem diabetes. E ainda estava trabalhando dois turnos por dia. Que merda, amanhã tenho que acordar cedo! Cadê meu celular? Ah, bosta! Abri a torneira, lavei a mão. Apenas algumas feridinhas sem graça. Empurrei os cacos com o pé pra debaixo da pia, fechei a torneira. Olhei ao redor: banheiro silencioso, ninguém nas cabines. Abri a torneira de novo, lavei o rosto, bochechei um pouco de água e esperei que a porta se abrisse. Parecia que ia abrir a qualquer momento. Meu coração batia rápido e alto: o único som do ambiente. Fechei a torneira, andei bastante receoso até a porta e parei. Doía esperar. Um... Contei. Dois... Três... Olhava a porta sem piscar, respirando ofegante do lado de dentro. Quatro... Cinco... Seis... Nada. Silêncio. Sete... Fui respirando mais devagar. Oito... A música lá fora já era mais alta que minhas batidas. Nove... Levei a mão à maçaneta e girei. Dez.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Carnaval preso


Um ponto de pontes,
De esquartejos a nenhum lugar.
Um perdido de fontes
Sem guia que do mar se vá.
Eu penso,
Mesmo que o fundo infinito
Reafirme a incerteza profunda do céu.


E sei que as criaturas morrem.
Sei que o infinito apenas encharca meu inteiro.
Mesmo assim, na profunda incerteza do mar,
Vislumbro os habitantes do céu esternizarem
Seus gritos, seus gritos mergulhados pelo ar.


E eu silencio e afundo.
Mesmo sabendo o que não sei.
Silencio e afundo
Porque ainda me sinto todo presente.

domingo, 19 de junho de 2011

Um velho esquecimento


Hoje, lembrei o que nunca me disseram. O que deixaram escapar num porém de silêncios. O que quiseram fingir que nem cabra velha era. Nesse mesmo hoje, eu esqueci o que lembrei, e acho ser assim porque fugi da resposta. Agora percebo que o que lembrei era pergunta sem entonação de pergunta. E era questionável. Quanto tempo até que os silêncios voltem, preu saber e escrever o que sei? Ah, mas teria que saber a resposta antes. Por quanto tempo posso aguentar esses esquecimentos?

"Por tantos dizeres de imperceptíveis vozes."

Mas cá estou eu, num livreiro enorme de gordo. Sim, cá estou a sufocar um pobre homem que só queria vender “A insustentável leveza do ser”. Nem sei por que me perdi em sentimentos de raiva e ódio. E nem sei por que ainda não joguei esses sentimentos fora. Esqueci o que queria dizer e como costumava andar por ali sozinho. Esqueci como andava. Certa vez um amigo me disse que quando via uma mulher saída de seus desejos, esquecia como é que gente anda. Ninguém esquece como se anda, é como andar de bicicleta, ô meu velho amigo! Ele esquecia mesmo. E eu tinha ataques de raiva e esquecia porque os tinha. E só queria me esconder dos que me chamavam de caduco.

Aí vi que o livreiro não era pessoa, era de madeira. E pra descer depois? Ele ainda era grande e gordo, só que não gritava mais. Esqueci o que significava livreiro. Da próxima vez que quiser construir alguma ideia talvez deva parar pra ouvir o silêncio antes, senão esqueço os pontos e cometo atrozes erros de ortografia. Mas da próxima vez devo cair pra não ter que subir de novo, que quando se está no chão fica tudo bem; posso me abrir todo, esticar bem os braços... seguro e dono dessa segurança. "How deep is your love?"

Mas você vem até mim numa noite de verão e a lua tá tão bonita que eu resolvo te reconhecer. Ah, minha bela! Você é tão minha salvadora quando, não sei por que, enlouqueço. Você me dá a mão e me leva até o longe a passos corridos. E aí, quando deitamos no chão, minha doideira encontra paz na sua. Ninguém me incomoda com perguntas que não lembro. Você, meu docinho de caju, parece tão apimentada às vezes, que choro. E quando choro, seus dedinhos me enxugam todo. Mas o que é que eu queria dizer mesmo? É que agora sei quem é você quando, antes de chegar, vejo pela porta um nada de intuição, e no silêncio, consigo ouvir seus assobios. Agora, acuado, só sei dizer: “Ei, ei, ei, o que está acontecendo?”

E não tenho resposta alguma, só um “ei, ei, ei” de volta que começa a querer cantar.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Boiando


Eu tô boiando e nem sei porquê. De alguma forma, esse é o único jeito de se boiar: quando você não sabe nada, não quer saber, ignora, passa o tempo, corresponde ao ócio natural das coisas e desvaloriza todos os possíveis movimentos a seguir. Se algo acontecer, é certo que virá de fora. Para piorar minha situação, eu tô boiando de bariga pra cima - tudo do fundo eu só sinto de leve sob minha pele, nas costas largas do corpo tolo. Ouço também, lá de longe, o que chega perto do ouvido, e o que chega perto nem sempre é real, já que, acima de mim, tem todo um caos gritando, moldando as reações da superfície das águas. E eu vou conforme esse ritmo. Sinto ser um mero escravo do acaso. Vai ver que acaso só existe mesmo quando deixamos. Deixamos acontecer ("a vida me levar"), deixo minha opinião abaixo da dos meus amigos, deixo meus sentimentos esquecidos, louco por gritar, deixo só um sussurro escapar, deixo-me levar ("vida leva eu"), vagando, sem dor, sem nada numa calma disfarçada de tudo. Não nado, jamais mergulho! Mas deixo guardada a confiança no mundo de fora, pois ele me conduz, ele me faz. Quem sou eu? Que me importa, se me dizem que sou, eu boio. Acredito, não nego, sou! É, eu tô boiando de verdade.


Mas se parar pra pensar, não tô todo resumido nessa ação (ou inação). Não sou tão simples assim. "Vazio?" Não, não sou vazio. Muito menos cheio. A vida é muito curta pra se achar a raiz de qualquer coisa, seja de mim ou da onda que bate. Se você sente os sintomas de si, é preferível tratá-los de uma vez, por mais que retornem o tempo todo. Não há tempo pra dúvidas! Nos céus (ou mares), os tempos são outros. Tenho certeza que no meio do caminho, a cada retorno do sintoma de si, você descobre um novo milímetro da raiz (mesmo sem saber que é algo essencial). Aí eu me ferro, porque é tanto tempo que não tenho tempo de perceber que descobri, e aí parece que tudo está infinitamente coberto. E está! E eu, boiando em cima de tudo, deslizando no véu d'água. Deixo assim, deixo que as circunstâncias banais da ocupação humana forjem importância. Esse tempo de trabalho até que existe mesmo, embora nem se possa sonhar saber sua profundidade (vai ver essa não é a medida certa...). E me enganam esse dias cansativos, dão uma sensação de completude (ou finitude), me fazendo desmaiar na cama e desperdiçar um bom sonho à toa. O cansaço nem sempre faz jus ao tempo, talvez ele apenas simbolize a falta de manejo com nossos reais potenciais, quem sabe? Eu sei lá!


E, ainda aqui, pra lá e pra cá sob as ondas, eu escuto o que o mar quer me dizer. Ele não é muito inteligente e não aprendeu a coerência humana. Mas ele me deixa entender, como se eu traduzisse suas palavras através de uma nova habilidade subitamente descoberta, que começa bem no centro de mim, aqui no peito; ah, lembrei: eu sinto o que ele diz com a alma. De vez em quando ela aparece... Boiando, ainda estou à mercê dele, mas o tempo mais uma vez me toma de cabeça pra baixo e trapaceia, me forçando a pensar no que estou sentindo. Apesar de todo o mundo de fora, o silêncio me afunda no falatório de dentro, e o que escutava como o mar, não era o mar. Eu só tô na superfície, e com os toques esporádicos que vêm do fundo e as vozes confusas na cabeça, me sinto em pleno acordo com o tempo e deixo de boiar. Ao invés decido alguma coisa. Acho melhor mergulhar até o fundo, mas o instante de sabedoria me diz que não tenho fôlego para tanto. Resolvo então boiar de barriga pra baixo e vislumbrar o que há por lá, mas aí a vista embaça e só vejo vultos. "Suas decisões querem ser grandes demais", o mar me diz. E então penso pequeno, de modo a me encaixar no espaço deixado para existir naquele instante, e resolvo caminhar pela água... "Calma, daqui pra Jesus são bilhões de aulas de mergulho a fazer". Caminhar na água foi a maneira mais sincera, apesar de não muito clara, de me expressar. Ando sem entender muito o mundo, mas como que entendendo pela primeira vez (são tantas as primeiras vezes que parecem repetidas de vez em quando), sinto tudo de uma vez: a água descendo pelo corpo a cada passada, a areia modificando sua textura, as vozes de fulano, fulaninho, fulanão, todas deiferentes entre si, são pessoas diferentes! Que incrível isso!, o Sol, como brilha e desbrilha, como compreende o mar e é delicado com minha pele. A água some, fico confuso e esbarro em alguém com força, na verdade força dele que corria, mas que droga, por que corria? Acordei. Opa, é meu pai. "Pai, por que estava correndo?", o senhor olha pra mim como quem não quer nada a não ser reconhecer alguém do outro lado dos olhos e diz: "Sabe que eu nem sei." Ele ri, eu não. "Mas foi bom, porque mais um pouco a gente ia embora sem te achar!"


Finalmente ali para ir embora, pensar que iam embora sem mim não me deixava tão mal quanto antes. Tenho certeza que saberia pegar o ônibus certo se pedisse uma informação. Seria satisfatoriamente esclarecido por uma senhorinha que ia me achar uma fofura e apertar minha bochecha com entusiasmo. E iria pro ponto e ninguém ia ligar por estar molhado. Esticaria bem o dedo, o motorista ia parar e me estranhar sozinho, se preocuparia e assumiria um compromisso com minha viagem até a casa, modificando sua rotina (o itinerário). E nem ficaria bravo com meus pais pra não me deixar nervoso e sorriria quando me visse abrindo o portão com a chave que guardei dentro dos shorts. Entraria em silêncio, na ponta dos pés, sem acender as luzes, com o mar ainda nos ouvidos. No quarto dos meus pais, os veria dormindo profundamente, e desejaria entrar, mas desistiria da ideia. Ao invés disso, iria pro meu quarto, encostaria a porta, e já seco, não faria outra coisa senão deitar na cama, olhar pro teto e sonhar. Não estaria cansado e, sabendo disso, o tempo fresco entraria pelo meu nariz com o cheiro salgado do fundo.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Dizer ao não querer dizer


“Eu só quis dizer...”, o pensamento vem mais uma vez na minha cabeça e tudo gira. A pessoa na minha frente quis confrontar minha afirmação. Uma afirmação bem simples, daquelas feitas por fazer, mas que nem por serem esse singelo pedaço de pensamento, deixam de ser o seu pensamento; deixam de ser eu. Aí, veio essa pivete e me refez o que eu disse bem na minha frente. Ela deslocou todo o sentido das minhas palavras e, sem educação alguma, resolveu imprimir suas verdades em mim. Eu havia dito simplesmente: “O dia tá rosa hoje!” e ela, sentada de costas pra mim, se virou com o sorriso mais forçado do planeta e comentou: “Ia ficar um desenho foda, hein...” No exato momento em que a ouvi, fiquei bem chateada, mas de uma maneira que não me afeta completamente, aparente apenas. Esperei que assim ela sentisse minha raiva pelos meus olhos e me poupasse as palavras a mais. Porém seu sorriso era estático e sua alegria acerca de sua genialidade comentada continuava a me puxar pra si, pra seu próprio núcleo.

“Eu só disse que o dia tava bonito rosa...”, nesse instante minha tática foi outra e retribuí um sorriso. Foi a vez dela fechar o rosto por estranhamento. Felizmente ela dirigiu os olhos através da janela e pôde constatar o que havia dito. Acho que percebeu que o dia só estava rosa e que isso bastava. Ledo engano. Ela voltou a sorrir e puxou o caderno da mochila, prontificando-se a desenhar.

À princípio não acreditei no que acontecia diante de mim. Que mulherzinha estúpida! Eu tenho um ódio tremendo de gente que vive de imagens, fotos, roupas, vestimentas, personagens... Eu sei lá como descrever, mas é isso de visualizar seus gestos fora do corpo, apostando numa mensagem falsa ao espectador. O jeito como ela alisava o lápis na folha e lambia os lábios, tudo artificialmente orquestrado pra me causar algum tipo de reação. Ela realmente acha que eu vou colocá-la num pedestal por simplesmente fazer de tudo um projeto artístico? Só porque fazemos a porra do curso de desenho industrial não quer dizer que tudo em nossas vidas tenha que estar relacionado à droga da faculdade. Me recuso a enxergar meu mundo pelos mesmos olhos durante esses quatro anos aqui dentro; na próxima o que vai ser: ter os olhos “época” de quem vê ou “superinteressante” de quem admira? Deve-se realmente viver do que se faz ou fazer do que se vive? Puta merda, ela conseguiu. Me tirou do sério e embaralhou meus pensamentos.

“Eu só quis dizer...”

“Shhhh... Tô quase terminando.”

Ela não fez isso! Eu me levantei, peguei a porcaria do cigarro no meu bolso e fui até a janela me acalmar. Acendi e joguei pra fora. Ufa, essa pivete pensa que faz um bem danado pro mundo quando se sente bem, mas quem sou eu pra recriminá-la, eu nunca de fato me senti bem. Talvez por isso nunca fiz nada de bom pro mundo. O fato é que não há esse bem lá fora só porque existe um sentimento bom aqui dentro. Sei que não. Pensando assim, me vi retida em uma lembrança vaga e chata. Não era bem uma lembrança boa, porque nunca me senti assim tão bem na minha vida: era tipo um dia assim como esse, em que uma cor prevalece no céu. Um azul bem forte, talvez fosse só o quesito passado afetando minha memória, mas era anormal aquele azul que me envolvia por inteira. Não sei, acho que queria chorar aquele dia (ou é agora? Deve ser a influência do tempo essa lágrima que caí). Tive uma bomba em uma disciplina, uma dessas professoras mal-amadas bem vadias que só querem te ferrar porque o que sabem de bom da vida está restrito àquela sala e àquelas palavras cheias de loucura sexual. Enfim, essa figura me ferrou e fui pro banheiro feminino chorar, algo não muito comum, mas naquele dia era como se aquele fato fosse a válvula chefe para o meu colapso total. Eu tinha umas questões mal-resolvidas em casa por que fiz uma merda daquelas bem grandes nesse meio tempo de ano. Até fiquei uma semana na minha avó; mas naquele exato dia eu tinha saído de casa com palavras bem bravas ressoando na minha mente (“Quero mais é que você e toda esse seu teatrinho de moralista vão se foder!”) e não eram palavras que devessem ser ditas a sua mãe, muito menos quando é ela a única capaz de te livrar da dor. Tá, eu fodi legal quando fui me meter com a piranhazinha da Verônica e com aqueles seus amiguinhos patéticos. Sabia que ia dar merda, mas mesmo assim fui entrando fundo no joguinho do eu-quero-testar-meus-limites, e eles me levaram à fossa diversas vezes. Tinha dias em que eu dormia junto de gente que sabia que não prestava e que, possivelmente, tinha mortes acumuladas no currículo, mas isso me motivava a continuar de uma maneira absurda e paradoxal. Perdi inúmeras virgindades sem me dar conta. Perdi as primeiras fases do desperdício e quando acordei ouvi em alto e bom som minha mãe me chamar de nada, meu pai me olhar como uma prostituta barata e meu irmão me tratar com nojo. Teve esse dia - meramente forjado de “dia” - em que me olhei e vi isso tudo e senti raiva mesmo. Parei; quer dizer é difícil parar...

Com o bagulho em si foi até fácil, porque nisso nunca fui fundo. A droga era parar com a vontade de ser o tal nada. Aquele dia azul tinha me feito refém do banheiro feminino, daquele espelho e daquele choramingo alto que não tinha provas de existir de fato. Não sei bem quanto tempo fiquei trancada ali, mas fui lembrando da droga toda com uma nitidez boa, fácil... Sabia porque tinha brigado com minha mãe depois de ter me transformado num robô por dois meses. Sabia que era impossível reter toda a raiva dentro de mim por mais tempo e que era lógica a vontade de destruir quem ainda restava de herói. Aquelas horas azuis foram me amortecendo. Olhava pro nada e era como se visse fora dos muros, como se estivesse aberta nesse dia de longas horas; eu estava era no tempo mesmo. É estranho porque só agora percebo isso. Não tem nada a ver com a cor, ela só te ajuda a lembrar. Dali pros dias imediatos eu fui melhorando em algum sentido, não digo no sentido exatamente pleno de cura e coisa e tal, mas fui me estruturando pra crescer em mim.

O cigarro acabou. A garota não tá mais ali, graças aos céus. Não sei porque a odiei tanto, só sei que o ódio me é aleatório. Faz parte desse meu processo. “Cara, quero ser autêntica!” falei na aula seguinte. A pivete estava lá e me olhou estranho. “Eu sei, é...” (ele continua sem saber o meu nome, nem me importo em dizer) “Eu sei, só queria que você explicasse porque tem tanta aversão a essa estética!”, o professor desviou os olhos de mim e pensei que seria bom se ele jogasse aquele papo todo pela janela e se fixasse nos meus peitos. Porque nem todo homem é maníaco sexual? “E isso vai de lição pra todos vocês, não vale sair por aí teorizando e criticando indiscriminadamente. É preciso parar, olhar...” Ele se virou e colocou as mãos nos bolsos - uma bunda espetacular, deve-se dizer. Apontou pela janela: o dia estava quase no fim. “Por exemplo, já notaram o tom do dia hoje?”

Eu ri. “O dia tá bonito rosa, não?” Ela me olhou sonsa, revelando sua verdadeira face não trabalhada no personagem perfeição-profissional. “Com certeza, está... está sim, muito bonito rosa” ele riu na minha direção. O desenho de minha cara colega pivete estava uma bela droga, eu finalmente pude ver. Sorri feliz e me dirigi ao meu querido professor. De repente minhas palavras tinham adjetivos carinhosos e eram boas de pensar. O professor sorriu pra mim mais uma vez com o dia em seus olhos. Fiquei feliz. Seus olhos caíram bem nos meus peitos. Fiquei feliz.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Um casal


Fernanda e Gustavo - parecem nomes de personagens de novela que, apesar de casados, estão sempre envolvidos em traições para no fim ficarem juntos renovando seu amor diante do casamento de outrem, sem se esquecer de deixar, mantendo o núcleo cômico da narrativa, uma brecha para mais traições. Contudo, dessa vez os nomes te enganam, Mari. Se você for do jeito que a vejo, creio que sorrirá com minhas sentenças afirmativas sobre sua identidade. E será um sorriso tão belo, que lembrará Fernanda assim meio de lado, tirando os fios castanhos do rosto para em seguida baixar a cabeça com vergonha do tanto charme. Sabia que os olhos dela também eram estreitos como os seus? Isso tem certa beleza, já que não carateriza uma origem oriental, tampouco ocidental; passariam com altíssimos méritos nos testes de beleza de ambas culturas. Deve estar pensando agora que tenho a mente tão resolvida em soluções simples apenas pelo fato de ter resumido padrões de beleza aos dois grandes eixos culturais do planeta na sua figura e de Fernanda; mas não, Mari, não sou assim. Na verdade, prevejo seus pensamentos como constantes curvas dispostas a me enrolar, guiando ao precipício. Espero que ria dessas minhas colocações loucas, pois também riu Fernanda, ainda mais porque era dela o serviço de leitora dos meus escritos.

Gustavo quase nunca largava aquela sua câmera. Se der uma revirada em alguma gaveta do armário da sua mãe, vai achar a bela Nikon F. Não a tome por qualquer bugiganga, Gustavo foi um dos primeiros a trazer a máquina para o Brasil. De primeiro, costumava sair por aí com ela pendurada no pescoço só para alimentar o orgulho, depois passou a ter um pescoço pendurado numa câmera quando os olhos se tornaram famintos. Era um homem muito engraçado. Por volta dos trinta e tantos anos resolveu ir estudar inglês em Londres -  ninguém fazia isso naquela época - mas quando Fernanda decidiu que queria investir num novo guarda-roupas, ele fortaleceu os motivos. Voltaram de lá brigados, como duas crianças brigam hoje num shopping por quantidade de brinquedos. Gustavo tinha uma Nikon F e Fernanda, uma coleção inteira Mary Quant. Fernanda me confidenciava sua vida íntima enquanto escrevia minhas poesias. Quase toda semana, pelo menos por três dias, ela vinha a minha casa passar a tarde. Tomávamos o chá (num costume forçosamente inglês por mim adotado após a viagem) e ficava uma hora até a sua partida. Nos dias em que o tormento conjugal se agravava, ela passava quase toda semana em minha companhia. Como me faziam rir suas histórias atrevidas sobre nossas conhecidas em comum! Promovíamos desfiles de minissaia ao anoitecer na companhia de minhas filhas e comentávamos o corte, redesenhávamos os modelos, e minhas filhas só tinham o trabalho de permaneceram estáticas, de pé – a viuvez, nessas ocasiões, me auxiliava imensamente.

O desentendimento tolo não os impediu, todavia, de cumprir a tradição das festas em promoção à seleção brasileira da copa de 1966. O dia fatídico que trouxe a derrota do Brasil de três a um para a seleção portuguesa, trouxe também a reconciliação do casal. Três meses depois, Fernanda me confidenciou a gravidez do primeiro filho. Uma emoção tamanha que não caberia nessas palavras. Fernanda e Gustavo haviam tentado durante anos e anos trazer ao mundo uma criança para carregar seu sobrenome, mas todos os tempos se foram sem que o desejo fosse concretizado. Pensaram até em um tratamento fora do país, muito comentado na época, mas desistiram assumindo ser a vontade de Deus o impedimento da chegada do herdeiro. Então, no dia em que o Brasil afundava na fossa da derrota para Portugal uma mágica das mais felizes ocorreu no quarto do casal; não preciso entrar aqui em detalhes porque você já deve conhecer o famoso poder da reconciliação. Fernanda estava já na casa dos quarenta, e sua gravidez foi considerada de tamanho risco que sua médica até lhe aconselhou o aborto. Ora, veja só, você que daí me lê. Que diria você, Mari? Outros tempos, não? Fernanda, evidentemente desconsiderou o conselho da médica e consagrou, felizmente, os meses seguintes como os melhores de sua vida de casada.

Nunca a vira tão feliz, e Gustavo então... Lágrimas me chegam aos olhos só de lembrar nossos passeios constantes pela cidade, uma outra cidade, uma outra vida... Tão bela fora essa vida. Gustavo percebera finalmente que mostrar sua máquina fotográfica a todos os amigos em suas festas no casarão (o de Laranjeiras) não surtia efeito algum em sua consciência. Comportava-se tão inquieto pelo salão, de lá para cá, olhando de sobrolho para a esposa; tanto amor contido naqueles tempos de briga. Quando se libertou, descobriu o verdadeiro significado da máquina e começamos a ir sempre ao centro para fazer longos passeios pelas praças. Ele fotografava cada movimento de Fernanda. Ela lhe sorria como Audrey, só que não sorria para câmera, bem sabia, mas para o que havia detrás dela. Era privilegiada por presenciar tanta felicidade. Cada vez que o telefone tocava em minha casa, meu coração palpitava de alegria. Fora um momento de grande inspiração e isso se refletiu profundamente em minha escrita. Publiquei meu primeiro folheto de poesias. A barriga crescia a cada encontro. Sorriam como se tudo fizesse rir: o sorvete que a criança chorava para mãe depois de ver Fernanda se lambuzando, e eram tantos, dia de pistache, dia de amora, desejos, desejos... Haviam os artistas de rua que pareciam mais espectadores do casal; os estudantes que corriam de lá pra cá com bandeiras políticas; os guardas que nada guardavam mas mantinham bela imagem da cidade estampada no uniforme – suspiros acerca de tudo e o charme em direção à câmera.

O filho veio para os braços da mãe em uma tarde de outono. Mas, antes disso, esqueci de dizer que as minhas noites de sábado haviam sido raptadas pela Fernanda da época de glória. Foi a fase dos sucos também, bebia sucos variados por causa da gravidez. E chás também. Ah, como fui feliz dentro de minha casa, no meu círculo de amizade! Dançávamos juntas até o alto da noite. Raras as vezes em que ela não me fazia sentar ao piano para acompanhá-la numa cantaria descontrolada, acalmada apenas por sua sereníssima voz de anjo. Eu queria lhe dizer, ainda ali, no mesmo quadro, que a amava muito e que queria dançar abraçada a ela pela eternidade. Dançaríamos paradas, deixando o entorno correr sozinho. Ficaríamos presas à noite dentro de uma taça de vidro, intocada, esquecida sobre o piano. Porém perdi a oportunidade de me expor, fiquei presa aos meus versos. E a filha (era uma menina, você já sabe) nasceu. Linda como o outono, com os olhos já presos como se a unha delicada de Deus, ao desenhá-los, tivesse feito dois riscos e deixado que a força do tempo os abrisse. Mas o tempo sempre fora paciente com as duas, Fernanda e a filha, e até esse agora não abriu de todo seus estreitos olhos. Ficamos longe desde então. Acompanhei o crescimento de Aline pelos jornais, como qualquer outra desconhecida. Gustavo me ligava de vez em quando, convidando-me para comemorações de aniversário, mas era a falta de Fernanda em sua voz que me preocupava. Decidi que era vida que começava a passar de novo e fiquei agradecida pelos lindos meses de sublime abstração.

Voltei, escrevi, continuei nos poemas, arriscando progressivamente linhas de prosa. Gostava de alguns personagens que me surgiam na mente. Percebi que derramava cada vez mais de mim pelas folhas espalhadas sobre a escrivaninha. Um dia, veio a notícia de que Aline completaria cinco anos. Não houve um toque sequer do telefone; entristeci-me. Estavam tão longe agora... em outros papéis, só em papéis borrados. Acho que foi nesse momento que pisei fundo nos contos. Escrevia um por dia, sobre a vida que eu via correr pelos jornais e pelos dizeres trazidos à voz por Ana, minha ajudante do lar. Os contos cresciam com personagens que mudavam tanto de ideais como minhas filhas. Dei-me às crônicas também. E a transição exata e completa do meu estilo de poetiza para cronista se deu quando recebi em minha casa, pela primeira vez em seis anos, o casal Fernanda e Gustavo. Gustavo soube de meus problemas financeiros (minhas poesias estavam perdidas no esquecimento público) e me propôs um emprego no Jornal do Brasil. Tinha conhecidos por lá que, segundo me assegurou, estariam interessados na minha escrita. Aceitei a proposta em vista da fragilidade em que me encontrava após do impacto das fortes reminiscências trazidas pela visita. Os dois estavam bem na minha frente, alheios ao passado de alegrias que compartilhamos. E eu, confusa e amável, temendo o fim da visita. Fernanda permaneceu calada durante toda a tarde e quando pensei que ia perdê-los uma vez mais, e dessa vez para sempre, ela abriu a boca: “Você não acreditará, mas outro dia estávamos eu e Gustavo olhando Aline brincar. - os mesmos olhos cerrados, flutuando no passado – Sabe como é estranho vê-la assim tão crescida! Acho que nós mães nunca vamos nos acostumar com essas pessoas grandes que chamamos de filhos. - sorriu, tirou o cabelo do rosto e notei que devia ter uns quarenta e cinco anos – Então lembramos da minha gravidez, de nossas adoráveis tardes passeando pela cidade. Nós quatro nunca fomos tão próximos como naquela época. - apertou forte a mão do marido e ele a olhou tirando da imagem da esposa uma foto perfeita. - E agora, veja só, percebemos que Aline nem a conhece de vista... - retruquei afirmando que a visitara nos primeiros dias. - Mas aí não vale! Ela mal tinha os olhos abertos.”

Gustavo falou, completando o pensamento da esposa: “Venha nos visitar de vez em quando, sim?”

Fernanda abriu a bolsa e tirou uma pilha de fotos, passando às minhas mãos.

“Queremos que fique com essas” - folheei. Eram as fotos daquele tempo. - “Temos cópias.”

Pronto. Agora eles podiam se despedir para sempre de mim. Não tomei tal ato por mal, sabia que era o jeito das coisas se reacomodarem de vez. O tempo, às vezes, simplesmente passa, e certas graças são perdidas pelo caminho. Mas logo logo outras são encontradas, te asseguro, Mari! Tome sua mãe por exemplo: a porta que se fechou naquele dia trouxe consigo a abertura de minha sensibilidade para outro caminho. As fotos inspiraram minhas primeiras e mais belas crônicas dominicais. Sei que não nos conhecemos pessoalmente e informo que nunca conheci sua mãe também
, mesmo depois daquele dia. Soube que são estimadas ainda pela alta sociedade carioca. Não sei exatamente o que isso representa em importância, mas sei que esse é o único meio que me sobra para conhecê-las: as pequenas informações que coleto pelos jornais, pelas vozes da rua. Formo uma imagem e a fotografo em uma crônica. Acho que é por isso que te escrevo agora. Escrevo a você, cujas feições carregam tanta história, palavras que remetam ao reconhecimento em mim de uma figura amiga para todo o sempre. Peço que permita a continuidade de suas histórias imaginadas estampadas domingo após domingo nas folhas do jornal. Eu que a vejo apenas em fotos, espero, sinceramente, que possa ver nos meus textos seu espírito desenhado em ação eterna. Você é Fernanda e Gustavo. Beijos de sua amiga desconhecida. Eles ficaram após o fim, mas na mesma linha, para que não nos separem nunca, as palavras.

domingo, 30 de maio de 2010

Galaxy


- Puta merda! O que você fez, seu imbecil?

Já era dia e José Antônio mal sabia. O ar da manhã gelada batia sem dó no rosto de Helena enquanto ela lutava para arrancar fora a calcinha suja de terra. Ao seu redor, um campo de mato orvalhado e resquícios da noite abandonada.

Helena primeiro umedeceu os lábios com a língua para depois abrir os olhos. Sabia que o que eles podiam ver a envergonharia. De fato a razão serviu dedutivamente bem: vários seres humanos não-recicláveis jaziam em posições sexuais variadas, congelados no cansaço do orgasmo inalcançável. Eles haviam feito jus às várias latas de energéticos. E ela se lembrava claramente que o que via era o resto de uma manifestação política.

A calcinha cheirava a álcool. Helena se desfez dela enquanto José Antônio procurava desesperadamente seu cachimbo escavando o mato alto. A calcinha lhe trouxe o cachimbo caindo bem em cima dele. O rapaz teve nojo e se desfez da desfeita, levando o cachimbo à boca com um saquinho de fumo já na mão.

- Eu não fiz porra nenhuma, foi o puto do Henrique que chamou os caras pra tocar a parada.

Helena se aproximou de José Antônio com um saião hippie de uma mulher desacordada chamada Carmem, cujos cabelos foram raspados pela metade. Helena guardava a dúvida sobre se aquilo ocorrera antes por moda ou depois por protesto. José, que havia terminado o primeiro fumo entre chacoalhadas no corpo todo pra acordar e lembranças cômicas do que foi o dia anterior. Olhou a moça se aproximar com desconfiança fingida, para sustentar um suposto charme. Helena puxou um galão de lata e se sentou ao seu lado.

Os dois rapazes que dialogavam alto demais para a sensibilidade auditiva matinal de Helena se distanciaram um pouco na busca das chaves da picape:

- Liga pra ele, cara! Você não vai querer que o Madruga acorde sem uma explicação do que...


E as vozes se foram.

Helena olhou para José Antônio e parou os olhos com fixidez incomum no seu pescoço encardido com riscas de sangue. Esse dado a iniciou numa série de questionamentos sobre o passado do rapaz e sua ligação com o dela. Aparentemente, os dois estiveram no mesmo círculo sonoro de batidas eletrônicas acordadas com a ação em prol da unificação dos CUTB. Existiam grandes chances de que haviam tido um encontro numa mesa de poker qualquer ou compartilhando um baseado. Do nada, a mente da garota desnudou o rapaz e ela só desejava adivinhar suas proporções genitais. Imaginou se elas seriam capazes de lhe dar prazer e se o corpo dele saberia como se comunicar com o dela. As mãos que eram delicadas com o cachimbo suportariam a fragilidade dos ombros gemendo? O quadril saberia se mover ao som da melodia de seus dedos?

- Me dá uma tragada?

- Você fuma cachimbo?

- Não, nunca fumei.

José Antônio passou o cachimbo para Helena e sua mão, sem querer tocou nos dedos da outra. Ele sentiu de repente a frieza toda da manhã. Ao seu redor a desgraceira do que fora um protesto sem fundamento, ele lembrava. Sua capacidade de acordar um dia depois do outro mantendo os olhos abertos para ver o que mais de patético existia na sua vida ainda o deixava atordoado e surpreso. “Quando você vai parar de respirar um minuto em homenagem ao minuto que perdeu percebendo a desgraça do mundo?”, pensou. A Helena ao seu lado era a mais comum das Helenas, mas ele, mesmo sem saber o nome, nem queria saber sobre suas origens e motivações. José perdera o paladar para o fumo e começou a choramingar silenciosamente em seus pensamentos, lembrando de suas pretensões artísticas.

- Ontem à noite nem deu pra completar a apresentação da proposta cultural. Ia ter uma performance bem bacana sobre a persona universitária atual. Digo, a brasileira.

Ele tomou o cachimbo de volta e notou que Helena lhe sorria no apelo de uma conquista.

- Pois é. Mas se quer saber nem existia a possibilidade de se levar isso a sério. Você fazia parte de algum conselho? - ela o olhou se esquecendo que sorrira antes buscando sexo - Pra falar a verdade, eu nem sabia que isso existia. Vocês foram bem estúpidos de fazerem o evento logo aqui. A primeira sexta do mês é o dia da Galaxy.

- Sabíamos disso. Na verdade, esperávamos que isso ajudasse nossa causa.

José soltou o cachimbo, segurando-o com os dentes pelo canto da boca, fazendo com que Helena dissecasse a cena, adicionando um novo aspecto masculino ao rapaz - uma mais charmoso e tolo. Ele  estendeu a mão direita na sua direção.

- Faço parte do Conselho da URSERJ. José A, prazer!

- José A?

- A e ponto. Significando Antônio.

- Ah... - ela riu notando os primeiros raios de sol tocarem os cabelos grudentos do rapaz - Você queria passar mistério sobre sua identidade.

Ele deu uma longa tragada descobrindo uma nova conexão com a moça.

- Toda identidade é um mistério. Mas não, não pretendia fazer suspense ou coisa parecida ou causar alguma impressão especial. Tipo, você nem faz meu tipo físico de garota e acordei meio mal do estômago pelo bagulho que tomei ontem.

- Você é só José Antônio?

- Isso!

Helena sorriu discretamente para baixo e entrou novamente no jogo de coletar informações interessantes sobre José Antônio. Fora o fato dele ter um nome, seus pressupostos só tinham intenções ajustadas a devaneios sexuais. Ela gostaria de perguntar se tinham transado na noite anterior e, com a negativa, se gostaria de transar naquele momento. Ela sabia que as palavras em sua mente circulariam estúpidas sempre num mesmo eixo até que realizasse seu desejo. Não havia espaço para algo diferente daquilo que eram: ele era um conselheiro e Helena achava tudo aquilo extremamente chato. Incompatíveis.

- O meu nome é Helena.

Eles se olharam uma vez mais e ele finalmente entendeu que ela talvez gostasse de sexo pelas frescas horas do dia. Helena cruzou as pernas, esticando-as na grama e ele pôde perceber que a moça estava sem calcinha. Seu sorriso foi propositalmente safado. No minuto seguinte, José A. já estava sentido uma excitação crescente no pênis. Helena começou a cantar uma música pop qualquer, de costas para ele.

José deu um tapinha no ombro de Helena, chamando sua atenção. Ele balançou a cabeça num convite que a moça não precisou decifrar duas vezes. O botão do jeans voou para quilômetros de distância indo parar na testa de Erick, um calouro de matemática que xingou alto, bocejando. Helena puxou o saião pra cima dos seios e se posicionou em cima de José A. Durante longos quinze minutos ele tiveram relações sexuais.

- Foi legalzinho.

- Desculpe, pensei que era isso que você queria.

O casal estava deitado na grama sentindo o orvalho derreter nas costas suadas. Os outros iam começando a caminhar cambaleantes, carimbando suas sombras nos rostos de Helena e José. Provocavam ruídos de cochicho realmente irritantes àquela hora pós-sexo.

- E era. – respondeu Helena após algum tempo perdida em pensamentos.

- É. Acho que realmente foi legalzinho...

José concordou com Helena apenas por conveniência, mas depois raciocinou honestamente relembrando as cenas da trepada e reconheceu ali nada menos que uma performance meia-boca.

- A gente se vê. – disse Helena, sentindo necessidade de dar algum conforto a José com sua cara de menino triste. Nunca vira um homem tão infeliz após o sexo.

- É. Ainda vamos trabalhar naquela performance que te falei pra usar em outra ocasião... – ele olhou para cara dela forçando um sorriso – que não seja o dia da Galaxy.

- Ah é! Galaxy agora só daqui a um mês. Tá tudo limpo pra vocês e seus grupos de conselheiros discutirem seus assuntos sérios, que visam... – ela não sabia o que dizer e sua voz foi perdendo o ritmo por constrangimento – o bem da comunidade universitária brasileira. Super apoio!

Helena sorriu orgulhosa de sua capacidade de falsear sorrisos.

- Você é uma artista, Helena?

- Eu? Não! Quem dera... Não – ela cuspiu um riso de descrédito – nada a ver.

- Você faz que curso.

Helena pensou em responder, depois pensou em porquê dava tão pouco crédito às artes. Ela lembrou de sua amiga Carla, do tempo em que jogavam pingue-pongue no recreio na época do ginásio. Carla ria bem alto num tom suave e lento, e inspirava Helena a escrever e reescrever a descrição do sorriso em seu bloco de ideias. Nunca havia conseguido decifrar em palavras aquela vivência. De repente questionou a existência desse tal bloco. A galaxy era um destino seguro, porto de felicidades instantâneas. Lembrou de que estivera triste no dia anterior, revirando coisas do passado, chorando com tudo. O bloco reapareceu no meu da confusão. E, por acaso, amou de novo aqueles escritos e chorou nas páginas e guardou consigo. Levara consigo: dançou com aquelas lembranças coladas ao corpo, dentro da bolsa, batendo nos quadris. Seria o bloco um protesto artístico?

- Olha, acho que pouco importa que curso eu faço. Deixa isso pra lá que essa é uma conversa muito tola. Hoje é sábado, mais um dia pra aloprar e depois é domingo e aí volta tudo ao normal. E é assim que eu escolhi viver: sendo normal e aloprando, normal e aloprando até sei lá, sabe?

- Sei. Foi bom te conhecer, Helena! Esse é um nome mítico, não é? Digo, referente à Helena de Troia e tudo mais. Não é assim que contam?

Ela riu presa na conversa mais ridícula de sua vida.

José Antônio tinha sua mente funcionando num esquema de não-compreensão racional e objetiva do que falava, procurando alguma justificativa que validasse uma conexão mais profunda entre ele e Helena. Queria poder interpretar a relação sexual como tendo sido boa e produtiva e não comum e inconsequente, com a ressalva de que ela não engravidasse.

- Não. Ninguém nunca me contou nada.

Helena, sem graça, se virou de costas e andou, interrompendo o jogo das palavras vazias. José bateu com as mãos nos quadris sem pistas de como pescá-la de volta pra si. - "De onde você é, Helena?", ela não ouviu. A derrota forçou o rapaz a planejar uma forma de liquidar o encontro de sua cabeça – a primeira oportunidade veio numa lata de cerveja que o fez recordar da reunião do CUTB naquela tarde, que logo puxou a associação dos estudantes de teatro amador e a compra de comida pra gato. Daí os pensamentos jorraram e ele se esqueceu que estava no meio de um campus fedendo a sexo e álcool. Só existia agora o gosto triste de uma garota que sumiu.

Helena dirigiu até uma padaria, onde pediu um copo de café puro sem açúcar seguido de outro num pré-pedido. Ela deixou que a quentura lavasse sua boca, apagando o sabor de cerveja. Permitiu que a ação de levar o copo à boca, engolir e pousar de novo sobre o balcão equivalesse a uma pausa  nos pensamentos muitos.

- O senhor pode ler essa página, por favor?

O dono da padaria olhou com olhos de aborrecimento, mas tomou das mãos da moça o bloco do ginásio e começou a inspecioná-lo com os olhos. Helena o observou ainda no ritual de beber o café devagar e lavando.

O senhor pigarreou como num palco:

- “Dia sete de abril. Hoje a escola mais uma vez anunciou o início das olimpíadas de gramática e matemática e joguei vôlei. Já foi a terceira vez nessa semana. Carla e eu decidimos sair da fila durante o pronunciamento e agora escrevo do banheiro feminino no terceiro andar. A gente está fumando, mas tudo bem porque já sei que vou parar aos dezoito e porque ela está cantando. Sua voz é tão alta e suave, quase numa incoerência sem saída. Às vezes, sinto que Carla é algo pra me mostrar que eu não consigo ver...” Aqui não dá pra entender – ele resmungou – Ah... “Fiquei pensando um bom tempo no que faria da vida quando estivesse fora do colégio. Queria ser do meio do caminho, como num filme americano – um road movie – queria ser um daqueles bares de beira de estrada por onde todo mundo passa mas não fica. Sei lá, são algumas das bobagens que penso toda vez que ela canta.”

Ele virou a página para verificar que ali terminara o dia sete de abril e que o próximo escrito datava dia oito de agosto. Enfim olhou pra Helena, que bebia o café em outro mundo que não correspondia exatamente ao passado e muito menos ao futuro. Talvez fosse um mini-mundo, desses que ficam em blocos anacrônicos ou camisetas de rock.

O senhor deu uma risada honesta enquanto relia uma frase.

- Engraçado como aqui você escreve: “Carla é algo pra me mostrar...” como se ela fosse uma coisa. – ele ri novamente e olha para Helena, que ri de volta, deixando o dinheiro no balcão.

- Obrigada.

Helena deixa a padaria e dá partida com o carro de volta para aquele lugar planejado tempos atrás, deixando espaços para desvios de percurso. Atrás do espectro vazio do carro, o dono da padaria aparece afoito com o bloco em suas mãos. Ele balança a cabeça e volta para dentro, guardando o bloco dentro do avental. Ele pensou de súbito no dia em que seria uma coisa para onde todos caminhos se voltam. Tinha certeza de que o caminho daquela moça a faria retornar e, para seu espanto sua certeza era a de um profeta. Ele podia ser a ênfase da previsão por enquanto – "não existem limites que não descansassem num regresso.", pensou. E o dia era vinte e nove de maio.

terça-feira, 16 de março de 2010

Laranjas


O sol já se baixava no horizonte perdido. Com força alaranjada ele roubava a energia da donzela, e ela só fazia contemplar enquanto cosia na varanda de sua residência. Os pensamentos iam perdendo a cor aos poucos... a irmã de repente nem existia... a noiva era a irmã, que sumira no altar ao longe... os vitrais da igreja estavam partidos... os risos eram tristes... a mãe cantava a velhice nua e pálida... Do altar veio nada e, ao invés de fincar quietude, quis tudo que tinham para dar. Laranja intenso.

A donzela piscou repetidamente buscando compreensão no que a fazia enfiar a agulha no tecido branco. Observou-se por algum instante. Picou o dedo com a agulha e viu uma gota de sangue, a qual, sem pensar duas vezes, levou a boca e sugou. Fora um gesto totalmente inesperado, porém uma angústia cresceu em seu peito, devastando a natureza virgem escondida por ali. Ela chorou por um instante sem lágrimas aparentes.

Largou o bordado, os pensamentos desconexos e permitiu se perder. As lágrimas finalmente desceram em seu rosto, embora já não significassem muita coisa. Ela nem ao menos buscou enxugá-las, por mais que a incomodassem. Ficou paralisada enquanto os fios em laranja ao seu redor iam diminuindo em quantidade. Seu vestido era bonito e bem costurado por suas delicadas mãos macias. Ela, que podia senti-lo belo quando o costurava, nunca o notou belo quando incorporado a sua figura. Esperava subitamente que alguém o amassasse antes do sol se pôr, uma verdadeira pessoa de olhos aptos aos desprazeres da costura detalhista. Queria brincar de roda com as meninas mais novas e sujar de cores o vestido. Girar e girar, e rir depois.

A donzela era velha e pálida.

O sol ria disso e lhe roubava as esperanças. Como se ela soubesse que ainda as tinha.

Os últimos três fios de sol passaram pela vista, zombeteiros. A moça sentiu o sangue pulsar quente nas veias. Seus braços simplesmente não eram mais adornos das vestes, caídos frios, imperceptíveis. Precisavam que agarrasse aqueles fios com toda sua força de mulher. Ela o fez num urro de raiva e eles a levaram na contrapartida da dor.

Correu por toda sua vida. Sendo puxada, viu sua antiga morada, com paredes cor-de-rosa e jardins destruídos pelo inverno e bichos-de-terra que nele brotava. Uma rocha rosada daquelas podia lhe trazer tantas palavras... nada mais que um mero objeto gigantesco que acolhia vida em conjunto. Todas as conversas encenadas ali foram culminações de momentos de aflição. O resto era sempre um passatempo de reclamações repetidas. Custava-lhe admitir que sua infância podia ser resumida como hábito ligeiro. Eram tantas rosas de papel - origami que fazia sozinha - e voavam com os sopros de vento rouco entrando pela janela. Angústia essa de pairar no velho eterno cotidiano.

Logo mais a frente estava o bar onde todos, e aqui recordava todos por alguns tipos mais marcantes de vizinhos, se reuniam escondidos para ouvir o rádio e contemplar sua lataria prateada. Pessoas intranquilas demais, que discutiam fervorosamente havendo qualquer fagulha de oportunidade e suplicavam intimidade forçada. Uma velha dona, por exemplo, fazia bolos para fora enquanto mulher em paz com seu destino. Pedia auxilio sempre negado dos filhos e, pacientemente, tirava as botas do marido com um pedaço gordo de doce na mão para ser servido a seguir. Poucos conseguiam perceber que o que a levava a fazer aquilo castigava-a consumindo qualquer aparição do seu genuíno ser. Ao fim de todo dia, a mulher perdia o contato com a felicidade fingida e esmagava o resto de bolo com as mãos, engolindo migalhas banhadas em vodka, Outra: acontecia pouco, a cada dois meses, mas de vez em quando, ela quebrava pratos e corria pela sala da casa, evidentemente estando segura do sono pesado dos seus satisfeitos. Ela frequentava o bar depois dos surtos, sendo a figura da madrugada. Os fofoqueiros dali só zombavam pelas costas, julgando-a louca. Ela nem sabia, achava que ali era família.

Dentro do bar dançavam outros personagens também inexistentes na luz do dia. Apresentavam-se depois de terem entornado uma dose generosa de pinga e ouvir lamentações próprias em voz alta. Quando não brigavam aos berros com tudo que se movesse na penumbra do alcoolismo, serenavam juntos ao som de uma balada leve. Depois tudo era paixão e aconteciam luxuriosas e engraçadas traições. Ainda bem que tinham aquele lugar. Nesse período adolescente, ainda sem conhecer as virtudes da alta costura, a donzela visitava o local com olhos longes. Aparentemente tudo lhe repugnava, assistindo assim pessoas que se mentiam de dia. Todavia, quando retornava a casa, seu quarto a recebia com risadas irônicas. Ela ria junto até perceber que ria de si. Então chorava e tentava deixar de espiar, curiosa, os frequentadores daquele estabelecimento. Passou a se dedicar a Deus e a costura. Mas ainda olhava de canto de olho.

Existia uma praça bem ao lado do bar. Uma coisa boba toda verde, com flores pequenas que cresciam agarradas a uma forma pré-determinada. O lugar mereceu um suspiro saudoso da donzela, tão incoerente... Tinha gente ali sempre com pouca idade, sem juízo algum que partilhava de desejos curtos e planos confusos. Uma falação desconcertante. Amigas passavam de braços dados e fingiam ser mais velhas para impressionar os rapazes, que por sua vez tocavam seus violões para os companheiros de estudos e fitavam as moças com olhos esnobes, mas com corações palpitantes. Um teatrinho que mal reivindicava platéia.

Somente num único dia aquela praça pareceu ter a existência justificada. A lembrança da donzela era confusa e só contundente em sonhos, mas ela se esforçava para conectar as partes. Havia, no entanto, uma força estranha que destacava o sentimento da memória e reivindicava importância. O certo é o evento ocorrera à noite. Chovia e uma apreensão incômoda crescia no peito como uma trilha de filme de terror. A moça voltava de um recital de ballet em que amigas suas se destacaram como condutoras de jovens aprendizes, uma delas sua irmã mais nova. Uma bela peça despida de verdade. Aquilo foi o ponto crucial para o início da perturbação angustiante. Sem entender a causa de tal bobagem sem sentido, correu dos parentes num rompante de independência apática. Uma garoa leve abriu o cenário. A praça, a luz intensa amarela abraçando os pingos retos, os bancos vazios, molhados – ela se viu em tudo como um guardanapo que se desdobra revelando uma mensagem rascunhada à alguém. O lugar se refez pleno de beleza vazia em si que se apropria da essência alheia a fim de instigar seus despertar. Roubava tudo de todos, cada história, cada sonho, cada encontro, para virar lembrança bonita.

Agora a donzela estava no meio de um grande círculo de descobertas. Sua vista, embaçada com tanta memória. Queria entender porque todos os instantes de grande valia em sua vida foram massacrados pela força do hábito. Sentia-se como uma freira a contra-gosto. Agora que recuperara seus pedaços espalhados pelos cantos do berço, ela podia deixá-lo. Descobrir o que é partir, de repente, se revelou o motivo para ficar. Deixar aquela varanda de tecidos bordados, senão os já tinha concluído, não era mais necessário. Ela não era mais a donzela que se encaixava discretamente nos espaços do tempo vago. Eles começavam a ser seus.

Por fim, o fio último do sol que restava. Toda a reflexão debatida no poente do sol inaugurara visão lúdica. Ali estavam, na sua frente, a senhora e a menina. As duas no chão, curvadas e sujas, com os vestidos levantados e as mangas puxadas. Achavam-se inteiramente entregues ao divertimento e riam a cada jogada errada da outra. Jogavam bolas de gude. Os cabelos, à essa altura, já estavam embaraçados, um cinza, outro preto. O que importava eram as laranjas que rolavam entre elas. Vinham do pomar no horizonte. Nenhuma das duas as notava, somente a mulher que se pôs ali no meio, com seu vestido limpo e sua pele queimando vida. Não tentou pegar as laranjas, elas passaram direto e refizeram o caminho de sua memória resgatada.

A mulher, então, se entregou a paz do constante poente – o que eu lhe deu forças para fazer o que sua mente gritava: do finzinho de sol, ela pegou uma raiva materializada em fio real e caminhou até as duas figuras atrasadas, enforcando-as. Matou na fúria indecente do que se põe. Tudo que podia ser feito foi feito, atentando ao desrespeito às regras da vitória, a mulher de branco se dirigiu à derrota dos vingadores. Desceu a ladeira em direção ao bar. Entrou e pediu uma dose de cachaça. O líquido desceu quente. Virou-se para o dono do bar e pediu que aumentasse o rádio. Ficou ali, somente ali, ouvindo uma balada honesta até que a noite lhe revelasse o caminho a seguir.