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quinta-feira, 16 de agosto de 2018
Beija meu bocejo
Beija meu bocejo!
Aproveita esse ensejo
para inaugurar teu desejo
de sonhar logo cedo
com fantasia lasciva
de minha nudez presumida.
Faz do teu corpo,
base, centro e topo,
extensão que dê vazão
ao tanto de desrazão
agora crescente
dentro da mente
e do coração.
Veja,
e logo perceba
que a boca que boceja
assim faz para ser aceita,
não como apenas cansaço,
mas como desembaraço
de um convite esperto
para que chegue mais perto.
Então faz favor,
chega,
se ajeita
e me beija.
quarta-feira, 10 de junho de 2015
Mãe e filhos
Rádio: Então, meus amigos, nós não devemos temer a morte pois todos vamos deixar essa existência um dia para acordarmos na vida real. Os medos que criamos aqui são desnecessários. Porém, como não sabemos quanto tempo temos, devemos nos preparar e cuidar dessa existência encarnada como quem cuida de um jardim. Sejamos jardineiros tranquilos e afetuosos. Valorizemos essa oportunidade maravilhosa que é estarmos vivos! Temos nossos momentos de tristeza, dúvida, raiva. Sim, temos. Meus amigos, nesses momentos, devemos ler um parágrafo, dois parágrafos do Evangelho. Ou mesmo uma página se o tempo permitir...
- Se o tempo permitir?
Se tivermos tempo sobrando.
- Tempo sobrando?
Tantos afazeres nessa vida corrida.
O que há de errado comigo? Por que tenho tanto tempo de sobra? Por que ouço o mundo todo reclamar de falta de tempo e mesmo assim acordo meio-dia e como um pedaço de bolo com cobertura de chocolate e passo as próximas horas vendo pornografia ou facebookeando - não necessariamente nessa ordem? Por que a diferença? Não quero ser diferente.
Mensagem no whatsapp: Oi meu filho, seu pai te ligou? Se for possível, transfira 160 reais para minha conta no Bradesco. Estou com o dinheiro aqui, mas não tenho tempo de sair e preciso depositar antes das 16h.
- Oi?
- Transferir.
- Pede pro meu irmão. Ele já está na rua. Acabei de acordar.
* * *
- Eu não tenho mais tempo pra isso. Tenho 25 anos! Não dá pra continuar assim.
- Tira a camisa pra eu ver!
- Eu não posso continuar nessa vida. Pra mim já deu. Que merda é essa? Que merda sou eu?
- Anda logo, tira a camisa!
- Ok.
- Puta merda, você tá muito magro mesmo. Tá tomando a parada certinho?
- Sabe como é, uma vez que você se acostuma, já era.
- Para de falar merda! Isso é coisa de viadinho adolescente. Você não quer mudar de vida? Não tava agora mesmo aí choramingando que tem 25 anos e não tem porra nenhuma? Abre a boca! Deixa eu ver como tá a situação aí.
- Hum... Ok.
- Puta que pariu! Você tá todo fodido!
- Muito trabalho, né.
- Tu voltou a chupar pau?
- Não, não. Só continuo o vício, sabe? Não tenho fome e quando tenho, como demais.
- Para com essa porra! Já te falei que é coisa de viado.
- Ok.
- Se tu precisar falar e tal... Se tiver se sentindo mal, me liga! De verdade aê. Só ligar!
- Ok.
- Sou teu amigo antes de tudo.
- Ok.
- Cê acha que vai dar pra quebrar essa?
- Dívida é dívida, né?
- Ô, sou teu amigo porra! Tô aqui como um amigo pedindo prum amigo quebrar um galho. Tem essa de dívida não.
- Ok. Acho que dá sim.
- Bota essa língua pra fora!
- São quantas cápsulas?
- 20.
- Caralho!
- É.
- Caralho! Que merda.
- Ah, não não! Não! Nada de chorar na minha frente! Sabe que sou coração mole. Se tu não puder eu vou entender.
- Não é nada disso não. Eu só tenho pensado muito na vida. No que eu fiz até aqui. Porra, eu não tenho nada, ninguém. Sou nada. Eu me olho no espelho e me vejo sumindo.
- Vai ser difícil te deixar de boa com os caras lá. Eles queriam você embarcando amanhã. Eu posso até tentar. Mas vai ser difícil. Sabe como a parada com eles é só números, lucros e tal.
- Acho até enraçado isso que me aconteceu. Foi até tarde. Ou cedo. Sei lá. Se por um lado eu tenho 25 anos, por outro, eu já vivi coisas tão surreais. Meio que à mercê do acaso. Fiz muita merda! Não tem como não achar graça. Mas não tô feliz.
- Você deixou um rombo muito grande. É difícil passar por cima de uma coisa dessas. Você é realmente maluco.
- Caralho, eu tô rindo, mas não tô feliz! Você tem noção do que é isso?
- Para de falar coisa sem sentido! Tô virado, com uma puta dor de cabeça e não tô nem um pouco no clima pra suas babaquices.
- Eu vou fazer! Que horas amanhã? Eu vou fazer!
- Aí ó, são os filhas da puta me ligando!
- Pode falar para eles que eu vou fazer. Enfio pelo cu, é mais tranquilo.
- Esse é meu garoto! Seu putinho sacana!
* * *
Reprise no rádio: Meus amigos, nesses momentos, devemos ler um parágrafo, dois parágrafos do Evangelho. Ou mesmo uma página se o tempo permitir. Fazer o culto do Evangelho no lar é de extrema importância para manter um ambiente harmonioso. Lembremos que nossas casas devem ser local de cultivo e exercício da paz e do amor. Todos os dias, meus amigos, é preciso olhar nosso familiar e amá-lo e perdoá-lo. Não é fácil a convivência em família, mas é preciso tentar, já que as famílias são o gérmen da sociedade. Se não cuidarmos de quem nos é mais próximo, não daremos conta de fazer da Terra um lugar melhor no futuro.
Ué, os meninos deixaram o rádio ligado? E alto ainda por cima! Eles não tem noção da hora. Olha aí, ninguém colocou o lixo também! Mais um dia acumulado. Já tá cheirando até. Se eu não lembro, eles simplesmente não fazem. Impressionante! Hum, não tem nada de bom nessa casa! Tenho que fazer mercado esse final de semana. Não posso esquecer, tenho que anotar. Vou tentar arrastar o Dani comigo. É mais que obrigação dele levar a mãe no mercado, não é? Não gosto de ser esse tipo de mãe que depende dos filhos, mas não é nada demais. Ele faz parte da família. Come e bebe aqui. E esse carro não é só dele. É da família! Sem contar que não faz nada o dia todo. Aliás, tô preocupada com esses dois. Um só vai a faculdade quando quer, outro, nem sei. Ah meu Deus, eu já falei com o Lipe para ele procurar outro trabalho. Essa coisa de motoboy não é segura. Tanta notícia que a gente vê por aí. E ele tem estudo, poxa. Acho que o Lipe tem um sério problema de autoestima. Isso me deixa tão triste. E acho que ele tá entrando em depressão de novo. Mas ele não admite, nunca vai admitir. E nem posso me atrever a abrir a boca. Parece até que minha presença faz mal. Isso me deixa tão triste... Ah meu Deus, por que comigo? Eu tento fazer tudo que posso por esses meninos. O Senhor sabe como foi esse menino na adolescência. Só o Senhor sabe como sofri. Aliás, não posso pensar desse jeito: todo mundo sofreu. Nem gosto de lembrar! Ah... Que fome!
Rádio: Meus queridos companheiros, obrigado por acompanharem o programa e pelas mensagens tão lindas que nos enviam diariamente! Fiquem com a paz de Deus e se lembrem sempre que esse tempo que nos foi concedido é para ser celebrado e vivido de acordo com as Leis de Deus. Não sejamos pegos de surpresa pelo fim. Preparemo-nos! Amemos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos! Amor e paz, meus queridos! Até a próxima!
Ah... Eu só quero que eles sejam felizes. Meus meninos...
* * *
Lipe, com licença! Já tá dormindo? Ah, deve ter trabalhado muito hoje. Tadinho. Tão bonito, meu filho! Hum, tá um pouco quente. Será que tá com febre? Ai, está tão magrinho. Esse menino não tá comendo direito, só pode. Essa correria do dia-a-dia. Fica aí por essas ruas, se arriscando. Pra quê, meu filho? Eu sei que você não gosta quando eu falo, mas... Eu me preocupo, ué? Fazer o quê. Olha Lipe, eu vou te contar um segredo. Quando você nasceu, eu não tinha ideia do que fazer. Você, prematuro, um trocinho magrelo toda vida. Não estranhe, eu te achava mais coisa que gente. É engraçado, né? Uma mãe não deve dizer uma coisa dessas, mas meu Deus, você era muito frágil! Vivia com febre. E ainda por cima eu tinha um pavor terrível de te derrubar no chão e você bater a cabeça. Ficava te vigiando sem parar. Você só dormia. Aquilo me deixava pê da vida, porque enquanto você só dormia, eu não conseguia pregar os olhos. E seu pai roncando do meu lado. Ai ai... Eu ficava te vendo respirar, igual agora. Com aquele medo gigante. Achava que você ia parar de repente. Era tão fraquinho, o peito mal mexia. Me perdia ali, te olhando dormir. Era hipnótico. De repente passava o cansaço, o medo. O tempo parava e eu ficava cheia de uma felicidade e uma vontade! Vontade de dar certo, de te dar todo amor que pudesse! Ah... Como era bom! Tô sentindo isso agora, meu filho. Obrigada! Te amo! Deixa eu ir lá falar com o seu irmão. Ele também te ama, viu?
* * *
- Dani, posso entrar? Dani?
- Oi mãe, que é?
- Abre aqui, quero te dar boa noite.
- Tá tá, só um instantinho.
- Aleluia! Que você tá fazendo aqui que precisa trancar a porta? Não precisa disso, meu filho!
- Ok. Que foi mãe?
- Que você tá vendo aí?
- Para mãe! Me deixa! Eu hein. Cadê a privacidade?
- Sem exagero, Dani. Você foi a faculdade hoje?
- Não.
- Ué, não teve aula?
- Não.
- De novo?
- Uhum.
- Está acontecendo alguma coisa lá? Não tô entendendo.
- Não sei.
- Como assim não sabe, meu filho? Você precisa saber! É o seu futuro que tá em jogo. Eu não tô... Eu e seu pai não estamos pagando a mensalidade à toa. Amanhã mesmo eu vou...
- Mãe, mãe, parou! Para de drama! Esse semestre eu só tenho duas disciplinas.
- Já tá acabando, né?
- Uhum.
- Ah, eu vou ficar tão boba na sua formatura. Não vejo a hora! Meu menino virando homem. Daqui a pouco tá advogando num escritório famoso, sei lá. É isso que você quer, certo? Eu nem sei mais. A gente quase não conversa.
- É quase isso, mãe. Eu acho. Não sei.
- Como assim, meu filho? Você não sabe de nada. Quais são seus planos pra depois que se formar? Não pensou nisso ainda? Não tá acabando?
- Ai mãe, que saco! Não posso nem relaxar à noite?! Que merda!
- Não precisa xingar, Dani!
- Quando acabar eu vou saber o que fazer.
- Mas não tá acabando?
- Tá tá.
- Hum... Depois a gente conversa então. Você deve estar cansado.
- Uhum.
- Vê se acorda cedo amanhã, ok?
- Ok.
- Ah, tô querendo ir no mercado no sábado. Você pode ir comigo?
- Ih, não vai dar não.
- Poxa Dani. E no domingo?
- Se eu acordar cedo... Vou ver.
- Ok.
- Preciso terminar um negócio aqui, mãe.
- Tá. Boa noite, meu filho.
- Boa noite!
- Não ouvi!
- Boa noite, mãe!
- Ah, agora sim. Boa noite, meu filho! Dorme bem!
- Valeu.
- Dani!
- Oi?
- Te amo!
- Hum, ok.
* * *
Obrigada, Deus, por minha família! Que a sua luz esteja conosco, nessa casa, em nossos corações, nos mantendo protegidos e fortes! Que os espíritos de luz, nossos espíritos guardiões, possam orientar nossos caminhos para que possamos fazer sempre as melhores escolhas. Abençoe o Felipe, Senhor! Que ele consiga arranjar um tempo para comer. Peço humildemente que, se for o caso, que ele encontre um lugar melhor para trabalhar. Mas, por enquanto, proteja suas corridas, por favor! Ah, se ele puder encontrar uma pessoa legal, seria tão tão bom, meu Deus! Sinto que ele precisa de alguém para amar e ser amado. Abençoe também mais novo, o Daniel! Faça com ele se interesse mais pelos estudos, Senhor! Já chegou tão longe, tem tanto potencial, mas parece não perceber. Que ele se forme e seja um excelente advogado. E ajude a sociedade a ser mais justa. Que ele seja um instrumento seu e um cidadão de bem! Obrigada por estar viva, por essa oportunidade maravilhosa que é esta vida! Que essa noite seja uma noite agradável, tenhamos bons sonhos e que amanhã seja um bom dia de sol! Que assim seja! Amém.
terça-feira, 20 de novembro de 2012
Ssx
Ssx abriu a porta furiosamente.
Entrou e mal me olhou. “Olá, babaca!” e me jogou o jornal na cara: “Aquele
verme atacou de novo! Levanta essa buzanfa gorda daí, você tá me irritando!” Eu
realmente estava acima do peso, mas só um pouquinho. Talvez mais que isso.
Quando me conheceu, Ssx me disse que era o gordo mais safado que conhecera e
que meus olhos eram infernais. Depois riu pra me deixar mais a vontade e me
tascou um beijo, daqueles beijões de novela mesmo. Nunca ninguém tinha me
beijado daquele jeito. Sabe quando você sente que a outra pessoa realmente quer
te comer? Foi desse jeito que ela me beijou, pareceu eterno, gigante. Depois
daquela noite e dos dias que se seguiram eu nunca mais fui o mesmo.
O negócio é o seguinte, eu
terminei a faculdade há dois anos. Na verdade não terminei, larguei, mas minha
mãe não sabe disso e também nunca se importou de ver um diploma desde que eu
ponha comida na sua boca. E é isso que tenho feito, só que com as sobras do
restaurante onde trabalho. Ela pensa que sou o nutricionista de lá e que tenho
tipo uma posição de chefia. Ela já é velha coitada, foi mãe velha – 42 anos – e
viúva cedo, mal conheci meu pai e nem me importo. Não é como se tivesse um
trauma ou falta de figura masculina ou essas bobagens todas. Eu nunca liguei
muito pra nada pra falar a verdade. Todo dia saio de casa bem cedo pra não ter
que fazer café pra ninguém – além de minha mãe, meu tio também mora aqui. É um
velho de setenta e poucos anos chato pra caralho. Acordava todo dia às sete e
sentava na minha cama esperando eu acordar pra me mandar comprar pão e cigarro.
Velho chato da porra. Passei a sair de casa às seis e ficar zanzando por aí.
Criei o hábito do cigarro também. Fumo e bebo café toda manhã. Depois vou pro
restaurante e começo o trabalho na cozinha. Lá é quente pra burro, nem vale a
pena fingir que não. Aí teve esse dia que conheci Ssx.
Saí do restaurante duas da manhã,
por aí, era sexta-feira e fui com uns parceiros pruma festinha privê, se é que
me entende. Os caras queriam que pegasse uma gostosa, cismaram que eu era
virgem. E nem era verdade, mas era quase isso mesmo. Pô, fiquei com uma garota
pela primeira vez com dezessete anos e foi um custo danado, mas ela era tão
esquisita na cama que te juro que nem sei a aparência da sua vagina, muito
menos o cheiro. Meu pau era guiado pela mão da louca até a vagina e, mal
entrava, ela tirava e só depois de um tempão botava de novo. Um absurdo, mal
dava pra gozar direito. Depois dela não tive mais ninguém. Engordei e tal e
ninguém quer um gordinho espinhento do lado. Sou todo oleoso e o trabalho na
cozinha só faz piorar. Sacanagem da porra. Então na festinha dos amigos do
restaurante tinha umas sete putas. Eu não curto essa parada não e nem é por
moralismo ou arrogância, tenho medo é de pegar doença. Porra, essas loucas
transam até com javali se pagar bem. A Ssx sobrou – meus amigos eram muito
bestas mesmo; ela nem era feia. Tinha um par de pernas finas e seios lotados de
silicone. Era alta em comparação com as outras gostosonas. Tinha cabelos longos,
bem pretinhos e olhos verdes. Todas estavam mascaradas, bem cafonas, de
lingeries e tudo, mas bem filme pornô sabe? Dizendo coisas do tipo: “Deixa eu
ver esse cacetão gostoso!” ou “Nossa, como você é gostoso, minha xota já tá
toda molhadinha.” Mas Ssx permaneceu quieta o tempo todo. Sorria vez ou outra
sem abrir muito a boca ou mostrar os dentes. Parecia realmente infeliz. Sobramos
os dois e uma mulher totalmente vulgar, dançando nua e loucamente como se
tivesse plateia atenta. Ssx se aproximou e tirou a máscara, tinha um rostinho
de dezessete anos. Fiquei com dó dela. Me pediu uma cerveja e nem me deu bola.
Perguntei se era adolescente e ela me mandou me foder. Ri de verdade e ela
também. Depois me olhou de cima a baixo e disse que tava acima do peso: “Você
tá muito gordo, devia correr de vez em quando!” e me beijou. Simples assim.
Nunca pensei que fosse me sentir
tão em casa dentro de uma vagina. Não sabia como fazer, enfiava o rosto todo lá
dentro, ou pelo menos tentava. Ela ria e me ensinava: “Seu besta, usa essa
língua, pode sugar, às vezes as garotas gostam de uma mordidinha de leve.” E
ria: “É o que me dizem.” Ah, ela era lésbica e depois de me beijar disse que eu
tinha uma alma feminina. Adoro sentir as carninhas se desdobrando na minha boca
como se me amassem de volta. Tinha cheiro de dermacyd e gosto de bala. Acho que
ela nem sentia prazer, apenas se divertia às minhas custas. E como ria!
Gargalhava! Mas aí gemia e eu gozava só de ouvir seus gritos. Gritos não altos,
sussurrados e educados. Não era nem um escândalo. Era como se me dissessem pra
ficar à vontade. Meu coração se aquecia e sentia pura felicidade. E ela
acariciava meus cabelos. Na nossa segunda vez, não sei o que me deu, mas quando
ela gozou beijei sua virilha e me emocionei. Quando me viu, ficou séria de
repente e seus olhos ficaram cheios d’água. Foi nossa primeira noite abraçados
até de manhã. Ela me sussurrou antes de dormir: “Tenho dezenove anos.”
Depois de passar dois dias
dormindo no meu quarto (dormia de oito da manhã até cinco da tarde e depois
dizia que ia trabalhar, o que achei estranho porque não tinha cara de puta de
rua) ela sumiu por três dias, sem deixar número de telefone ou um recado que
fosse. E levou minhas chaves. No sábado, acordei tarde e minha mãe
surpreendentemente tinha feito café: “Onde tá aquela sua namoradinha?” Me fiz
de desentendido e perguntei por meu tio. “Ele saiu, foi jogar carteado, eu acho.
Mas me conta, aquela guria é do seu trabalho ou da faculdade. Tem mais cara de
ser da faculdade. Uma graça ela.” Concordei e acendi um cigarro. Ela chiou. Foi
aí que Ssx entrou na cozinha do nada, dizendo bom dia. Derramei café na roupa e
ri de nervoso. Minha mãe tentou dar uma ajeitada na aparência, dando uns
tapinhas no cabelo. (Não adiantaram muito, mamãe tinha uma juba pelas manhãs).
“Encontrei um ótimo apê pra
gente! Fica a dois quarteirões daqui. Bora ver?” Ela estava deslumbrante de
vestido e sandálias. Cabelos soltos e olhos vivos. Nunca a tinha visto daquele
jeito. Brilhava de verdade.
Era um apartamento pequeno,
sala e cozinha no mesmo lugar e um banheiro todo quebrado, mas o quarto estava
maravilhosamente decorado. Paredes amarelas num tom bem leve, uma cama king
size com lençóis floridos cheirando a lavados e um quadro acima da cabeceira:
um barco à vela perdido num oceano de águas turvas. Era assustador e bonito ao
mesmo tempo. Ssx me olhou excitada e disse: “Você tem olhos realmente
infernais, sabia? Do tipo que deixam a gente emocionalmente frágil.” E envolveu
seus braços no meu corpo, suspirando no meu cangote. “Minha vagina fica molhada
só de te ver, seu safado.” Trepamos então pela primeira vez na casa nova. No
dia seguinte todas minhas coisas já estavam lá e me vi cozinhando pra ela
enquanto cantávamos junto do rádio. De repente Nelson Gonçalves começou a
cantar “Naquela Mesa” e ela parou de cortar legumes. Aumentou o volume e
começou a dançar de olhos fechados. E cantava baixinho também. Abaixei o fogo
da panela e fiquei com os olhos no seu corpo. Mesmo sensual, mesmo com as mãos
marcando o corpo, seus passos pareciam inconsoláveis. Quando terminou a música
ela se sentou no sofá e começou a chorar de soluçar. Tentei acalma-la, mas me
rejeitou. Foi pro banheiro, tomou um banho de meia hora e voltou. Se sentou na
mesa e comeu, dizendo: “Hum, isso aqui tá ótimo.” Sugiro que ouça a música,
realmente dá vontade de chorar, mas choro comum. O dela me pareceu extremamente
específico.
Depois de um mês juntos, ela
começou a mudar. Foi falando mais e mais e reclamando de tudo e mordendo mais e
mais meu pau sem motivo; por maldade mesmo. Eu chiava, pedia pra ela parar e ia
pro banheiro me aliviar sozinho. Não sabia que porra tava acontecendo. Ela
começou a acompanhar uma série de crimes contra prostitutas noticiados no
jornal da tarde na tv. E passou a comprar o jornal e se esquecer do pão. À
noite, gemia com dor e não prazer. De manhã, ao invés de sorrir e dizer que estava
tendo os melhores dias da sua vida, como costumava fazer, dizia coisas do tipo
“Esse mundo é realmente uma desgraça, olha eu aqui fingindo que minha vida tá
perfeita com um babaca sem futuro.” E quando eu tentava beijar seu pescoço – o
que antes a fazia rir – ela virava o rosto e me afastava. Perguntava por que
ela não sorria mais e ela respondia: “Como quer que eu sorria quando mulheres
da minha classe estão sendo covardemente assassinadas?” E me olhava com raiva:
“Amanhã pode ser eu sabia?” E corria pro banheiro. Dava pra ouvir da cama seus soluços altos. Estava perdido, completamente perdido.
Segui minha vida, continuei indo
pro trabalho e encontrando com ela só nos finais de semana até o entardecer e
nos dias de semana pela manhã. Mas sua presença estava me matando, como se
comesse todo dia um pouco mais da minha vida. Passei a evitar dormir no
apartamento e ia pra casa da minha mãe depois do trabalho. Sábado, quando
voltei pro apê, ela mal me olhou, parecia que nem notava, ou se importava mais
com minha ausência. “Onde esteve, seu trouxa?”, dizia sem tirar os olhos dos
jornais (uma pilha já havia se formado num canto da sala; ela não os jogava
fora). “Olha aí o retrato falado do covarde!” E mostrou a foto o estuprador
assassino. Depois esquentou o que tinha de resto de comida e jogou na mesa,
apontando pra que eu comesse porque ela tinha que ir trabalhar. Ignorei a
gororoba e me sentei no sofá. Não conseguia achar o que pensar, só queria me
livrar daquela situação. Só queria me livrar dela. Era como se ela tivesse se
apoderado de tudo que eu era e me feito acreditar piamente naquele outro ser
novo e adorável que criou. E agora ela simplesmente resolveu se desfazer
daquilo, como quem destrói um crochê puxando o fio. Tudo que aprendi sobre amor
com ela, fui descobrindo que não era amor. Então era o quê? Parecia pesado
agora. Só queria me livrar disso e tentar voltar a ser quem era antes. Peguei o
jornal que me mostrara e fiquei parado ali olhando aquela foto do assassino.
Fiquei vidrado. “Olhos infernais”, pensei.
Acordei assustado e suando no
sofá. Tive um sonho terrível. Aquele sujeito estava perseguindo Ssx pela rua e
chovia muito. As luzes dos carros passavam rápidas e o som das rodas na chuva
deixava Ssx apreensiva. Depois notei que ela chorava. O cara tinha uma faca
numa das mãos e se aproximava cada vez mais. De repente ela começava a correr e
arrancava a roupa. E gritava: “Seu verme maldito, eu sabia que um dia ia acabar
me matando!” E soluçava mais alto: “Eu confiei em você. Nunca tinha confiado
num homem antes, sempre soube que não valia à pena. Mas você com esse jeito de
bom moço, beijando meu corpo com carinho...” Ela falava diretamente pra mim e
sua voz doía na minha cabeça. “Seu covarde!” E do nada, no sonho, eu estava
dentro do apartamento, escondido atrás da geladeira e o cara do retrato falado chegava
e me puxava pro sofá, onde me estuprava. Só podia sentir uma dor atroz na
barriga, como se meu intestino se embolasse todo e estivesse prestes a me cagar. E Ssx estava sentada na cadeira de costas pra mim descascando batata. O
sonho me deixou completamente aterrorizado. Acordei com um gosto estranho na
boca. A garganta seca, os lábios grudentos. Sabe quando parece que você dormiu
por um século e acorda todo amassado? Era bem isso. Deixei minhas chaves em
cima da geladeira e fui embora dali pela última vez.
Ela não me ligou e dias se
passaram. De certa maneira fui ficando mais atento às notícias e quando soube
que o infeliz havia sido preso fiquei imensamente aliviado. O medo de dormir
sozinho à noite finalmente passou. Daí pra frente, aos poucos a rotina foi
inundando minhas lembranças de Ssx. Isso foi bem até um determinado dia. Estava
dormindo, era domingo de manhã e minha mãe me acordou assustada: “É a sua
namorada no telefone.” Os olhos de surpresa da minha mãe foram a última coisa
que vi antes de ouvir aquela voz que me levou pra fora de toda realidade que já
tinha conseguido construir até aquele dia da minha vida. “Alô?”, disse, ainda
sonolento.
“Desculpa estar te ligando tão
cedo num domingo. Sei que trabalha, mas essa talvez seja minha última chance de
falar com você. Bem, estou indo embora do Brasil. É uma coisa que sempre tive
vontade de fazer, mas sempre tive medo. Mas agora que vi que nesse país também
tem o tipo estuprador covarde, não tem porque temer o que quer que seja. Vou
ser puta na Europa. Olha, sei que você deve ter ficado confuso com tudo que
rolou, mas é assim que sou. Desde do início te disse que não curtia homens e
mesmo assim você insistiu. Você foi um amor, acho que foi o único homem que
realmente achei que poderia amar. Mas não deu. Quando vi o que vocês são
capazes de fazer com garotas como eu, tive nojo de você. Nojo de quando sua
língua tocava minha buceta. Nojo de seus beijinhos no meu pescoço. Nojo do seu
pau pegajoso. Só conseguia imaginar que você ia me enfiar uma faca e me
abandonar pra morrer sozinha, sem nem avisar minha mãe do meu paradeiro. Nunca
te falei da minha mãe, né?” ela riu. “Pois é, e nem importa muito, eles são do
interior e não quero mais contato com uma mulher que se sujeita a um velho que
não a respeita, que a olha como quem tivesse num degrau acima, olhando do céu.
Sujeito porco aquele velho. E ainda foi embora. E ainda nos abandonou. E depois
voltou igualzinho, sem mudar um fio de cabelo. E tudo ficou na mesma. Eu não.
Você me conhece, sou puta na cidade grande. E uma puta bem ralé, que cobra
cinquenta a hora. Gostaria que ele me visse agora, seria engraçado.
Tremendamente engraçado.” Ela riu pela segunda vez; foi triste dessa vez. “Mas
não quero ver minha mãe sofrer. Se ela soubesse ia sofrer e ia se culpar. Que
mania é essa nossa, hein? Nossa vagina não nasceu pra acomodar toda culpa do
mundo não! Você nem vai acreditar, mas depois que você começou a sumir e me
sentia tão só que comecei a fumar também. Seu traste, ainda me passou seu
vício. Mas como isso é normal na Europa, eu te perdoo. Você tá tão quieto...”
Pausa. “Aliás, você sempre foi quieto né? Cara, se você fosse mulher, não ia me
escapar. Ia te levar junto comigo. E ia se chamar Celina e íamos adotar uma
menininha de quatro anos e fazer amor toda noite. E ia saber chupar direito.”
Riu discretamente. “Uma pena a gente não ter dado certo. De coração, espero que
seja feliz e faça alguém feliz. E se tiver uma filha, não deixa ela ser puta
não, tá? E respeita a intimidade dela. Ah, mas isso não quer dizer que não vá
dar muito carinho. Ela vai precisar de muito amor, ok?” Outra pausa, mais
longa. “Bem, é isso. Me desculpa qualquer coisa. A gente se vê qualquer dia.
Beijo.” E piiiiiiiiiiiiiii. Desligou.
Virei pro lado e dormi. Sonhei
que a conhecia de novo. E tudo acontecia de novo. Me apaixonava de novo e destruía
esse amor uma vez mais. E ela sumia. E depois me ligava e eu sonhava com a
coisa toda outra vez.
Quando acordei já era quase
segunda.
Local:
Rio de Janeiro - RJ, Brasil
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
O que os dedos têm a ver com as manchas?
Aconteceu. Mas não era pra ter acontecido. Aconteceu? Nesses tempos tenho estado confusa achando que confusão faz parte da minha personalidade; mas não é bem assim. Ela tocava sanfona numa banda de forró. Ela vinha do Piauí e tinha as laterais da cabeça raspadas. Ela não tinha sotaque, era universal. E não tinha franja. Não cantava, só assobiava. Desde cedo, quando descia do metrô, já assobiava e sorria. E dançava, dançou uma vez pra mim, já bêbada e molhada de chuva numa garagem abandonada. Ela era minha melhor amiga e confessou que me amava enquanto tomávamos um sorvete. Lambeu o beiço e com os olhos brilhando, sorriu e disse: “te amo!”. Mas ela era minha amiga e eu tinha namorado.
“Não posso te amar, sou hétero...” enquanto falava, minha voz foi voltando antes de ir. Tinha medo por ali. Alguém me amava. Eu já amei? Essa é uma coisa que só eu sei mesmo não sabendo. Entendia amor pelo que sentia por minha mãe ou meu pai ou minha avó. Mas não estava certo, só me deixava segura, só me deixava estável, inteira. Nunca liguei pra minha saúde, pra minha integridade ou reputação. Quando falei em sexualidade desentendi tudo. O que tinha a ver? Ela não me oferecia sexo, me oferecia amor. Fiquei confusa a partir daquele momento. E ela pegou na minha mão. Seus dedos, só nas pontinhas, estavam grudentos. E ela os alisou na minha palma sem dizer nada, sem olhar. Seu sorriso cantava uma canção. Nunca tinha reparado na sua delicadeza, coisa que até os cabelos me diziam, presos num rabo de cavalo, presilhas douradas, envelhecidas, em forma de flores, minúsculas, lindas. Seu silêncio, seu espaço deixou que caminhasse por seu rosto: pele morena de sol, bochechas cheias, covinhas alargando sorriso vez ou outra, uma pinta bem debaixo do olho esquerdo. “já terminou?” e soltou minha mão. Meus olhos encheram. No susto uma lágrima caiu. “Vamos ué!”
Tudo normal. Ela descia do metrô e eu esperava ansiosa. E sorria mais alegre que nunca. E beijava a bochecha devagarinho e com o dedão limpava o batom e nossos olhos se encontravam. Pensando nisso, já tinha sonhado que nos beijávamos e que ela tocava minha pele completamente nua, sua mão deslizava na minha barriga como se estivesse falando, eu com um nó por dentro. Olhava intrigada e apreensiva e ela sugava meus lábios mais uma vez. Achava normal esse tipo de coisa. Todo mundo sonha. Tem gente que sonha coisas eróticas com irmãos ou mesmo pais. São nossas pequenas insanidades mágicas. Mas isso foi aumentando em frequência desde que ela me disse “te amo!”. Odiava meu namorado, sempre odiei e dizia isso pra ela antes de tudo. Mas isso é normal também. Ele era chato, só pensava em transar, vivia falando da porcaria da tese em psicologia das massas e a análise do Eu, resumia o mundo em neuróticos desconhecidos e queria ficar me apertando inteira. Me sentia sufocada e ele dizia “te amo” assim solto, sem significado. Dizia “te amo” entre beijos ou quando ejaculava. Dizia “te amo” e chorava. Me apertava, me esmagava por cima e me beijava a testa e perguntava um milhão de coisas: “o que você vai fazer mesmo? Quem vai? Ele vai? Ela vai? Mas você acha que vale à pena? Te amo!” e isso também parecia uma pergunta (“te amo?”). Depois de querer se infiltrar na minha vida sem ser convidado, dava opiniões: “Acho que devia se colocar mais. Lembro, claro, você é ótima nisso, só devia praticar mais. Mesmo que você não queira, às vezes é preciso, eu também preciso. Poxa, meu amor. Você é tão linda!” Ela nunca me disse que era linda, mas quando nos olhávamos, sabia o que pensava e suas ideias de cristal eram também assobios e diziam tão mais que qualquer palavra e tocavam tão fundo e não me chateavam nem um tiquinho.
Ele veio me buscar. Estávamos no “bico de papagaio” tomando umas geladas e discutindo sobre um projeto da faculdade, nem era um projeto nosso, era do Carlos do curso de pedagogia, amigo dela. Eles se tratavam com tanto carinho, como irmãos de mãos dadas. “Oi, meu amor!” e me beijou na frente dela. De olhos abertos, a vi disfarçar coçando o nariz. Bebericou a cerveja, enxugou os lábios e me olhando pediu pro meu namorado se sentar, indo pegar uma cerveja e um copo no balcão. Meus nós me disseram pra segui-la e resolvi ir ao banheiro. Passei bem próximo e notei que não nos falávamos mais, nossos diálogos sumiram, não existia o ímpeto de informa-la sobre onde ia. “vou ao banheiro” sumira pra sempre. Ela me viu passando e sorriu. Vivíamos disso agora. Entrei na cabine e sentei no vaso de tampa fechada. Tinha cheiro de cloro e meus olhos logo se irritaram. Estava sufocada e mais uma vez sem saber se era o cloro ou minha personalidade. “te amo!” E me arrepiava. Mas que droga de confusão! Fechei os olhos porque coçavam desesperadamente. “Ju, você tá aí?”, me assustei, sua voz era de cantora, como não cantava? Como não? “Tô, entra.” Abri a cabine. “Tá louca? Aí não cabe nós duas!” e riu. Saí; ficamos frente a frente. “Nossa, seus olhos estão muito vermelhos!” ela me puxou pelo pulso até a pia e abriu a torneira. Me olhou fundo e molhou meus olhos. Depois enxugou com os dedos, os dedões apertavam meus olhos e no escuro senti queimar dos pés à cabeça. Abri os olhos como quem respira numa piscina. Fiz uma aula de natação uma vez na escola e quase morri, não tinha o que chamava de “cadência respiratória”. E mais uma vez: o cloro me queima ou são seus dedos. Abri os olhos e a olhei com raiva. “Melhorou?” Fui até a porta e fechei o pino.
Ela me olhou sem nada entender e me deixou mais nervosa. Como me engana, por que finge? “O que você quer de mim?” ela balançou a cabeça negativamente e a interrompi: “por que está fazendo isso comigo?” ela se apressou na minha direção quando comecei a chorar e me abraçou. “Essa droga de cloro!”, ri sem querer e não sabia se continuava chorando. “Por que você tá chorando, Ju?”
“Não sei. Eu não sei de mais nada.”
“Por que diz isso?”, ela foi se afastando.
“Por sua causa! É tudo culpa sua! Que droga é essa que você tá fazendo comigo?! O jeito que me olha, como me toca e... Ai meu deus, o que eu tô dizendo... Que droga é essa que você tá fazendo comigo?”
“Eu não tô fazendo nada com você...”
“Tá!” gritei, ela se encolheu. “Você tá! Não percebe? Olha como me arrepio! Eu não sei por que, mas me pego pensando em você e sonhando com você e às vezes nem é você, é um barulho na rua, um bebê no elevador, o vento que seja... Outro dia tava acendendo o fogão e a boca fez um clarão, acho que explodiu um pouquinho.”, ela riu. “Tudo é você! É sufocante, não sei mais o que pensar.”
“Você tá equivocada. Não sou eu, não fiz nada...”
“Então por que toda vez que fico alegre, penso em você e toda vez que choro, penso em você, e quando dói, você está lá e quando acordo, sua presença pesa dentro de mim? Por que você vive me roubando de mim, me desintegrando, me confundindo?”
“Eu?”
“Sim, você! Porque você diz mais que o mundo pra mim agora. Porque tô louca e você tá causando essa loucura, mas ainda assim te olhar é o único sopro de sanidade dentro da minha cabeça há dias.”
“Mas eu...”
Interrompi com palavras repetidas, mas as recolhi assim que ela ergueu a mão de súbito.
“Não me interrompe mais, sim? Deixa eu dizer o que preciso dizer!”, ela foi firme “Ju, eu não estou em lugar nenhum a não ser aqui, agora, em mim mesma. Eu não provoco nenhuma reação e não movimento seus dias. Não calo seu choro ou provoco seu sono. E não te deixo mais feliz porque estou ou não presente. É tudo você! Você não é capaz de... Não é capaz de confessar? Não posso dizer ou fazer mais nada. Não consegue se entender? Ouve só! Escolheu só me ouvir, mas quem tá gritando pra dizer alguma coisa é você.” Parou e me invadiu. “E garota, eu te amo toda vez que saio do metrô e você tá me esperando sentada do lado do ventilador, segurando o cabelo no rosto, com o livro no colo e as páginas virando apressadas demais, desobedientes.”
Ela não me olhou, desviou os olhos envergonhados.
Ela não se movimentou, coçou o nariz, disfarçando o silêncio.
E ela não disse mais nada, chorou pro lado, prendendo nos punhos uma raiva contida.
“O que você quer de mim, Ju?”, continuou sem me olhar.
Na minha cabeça: te amo, te adoro, te quero, nua, delicada, molhada, lambuzada, sorvete de casquinha, línguas, chute na bola, futebol, juiz, apito, cavalete, tinta doce, colar, nudez, seus dedos, as pontinhas no bico no meu peito, limpando o batom, assobios, pardal, miolo de pão, ainda não almocei, o que dizer?, te amo, o que dizer?, vai embora daqui, vou sumir, vou largar a faculdade, camisa de botão listrada, mancha de mostarda, beijo estalado na bochecha, sirene de ambulância lá fora, ela estática, volta a me olhar!, volta a me olhar!, ela me odeia, eu a odeio, me ama!, me ama!, me ama!, minha mãe volta na quinta, ele deve estar preocupado, meus olhos estão coçando de novo, me tira daqui!, tô sufocando, dor de cabeça, tenho dois comprimidos de dipirona no bolso.
Peguei os comprimidos do bolso, coloquei na boca e bebi a água direto da torneira. Ela tinha sumido de repente. A porta ainda estava fechada, e tinha uma pessoa parada, que agora me olhava. Ela veio na minha direção e me deu um soco na barriga. Cuspi as dipironas. Ela sussurrou no meu ouvido: “você é uma covarde!” e me deixou sozinha no banheiro com uma claridade que me assombrou profundamente. O barulho da porta rangendo me acordou. “Quero você sua boba.” Falei baixinho. Ela estava bem longe agora, no fundo da cabeça, revirada no estômago. A dor passou.
“Vamos?” falei com ele com a mão no seu ombro. E sorri retocando um quase sorriso.
sábado, 5 de novembro de 2011
Vocêu
O pé esquerdo era dela e o direito era meu. Os pés não andavam descalços na presença dela, mas também não fugiam do chulé que era meu. Eu dizia: se afaste do direito quando for escolher onde pisar e ela vinha com o dedão a roçar, a roçar. Não queríamos nenhuma homenagem, só o dia de domingo numa king size onde os esquerdos conversassem e dissessem o que é do nosso coração. O outro direito, na periferia da cama, tem alguma impressão que quase sempre é certa, quase sempre é errada. Nos damos bem pelas certas e bem pelas beiradas das erradas. Quando ela diz que me ama de cara amarrada, tenho vontade de pisar com o calcanhar, que é pra machucar sem chorar, mas um pezinho toca o outro e a vergonha marca a volta da razão: percebo que o calo só faria aumentar se não respondesse “eu também te amo”. Longe um do outro, quando fazemos ginástica, nos alongamos ou fazemos piruetas, sentimos o imenso prazer de desviar a atenção por um segundo, e triunfamos nisso – crescemos – e os aplausos vêm de pé. Entendam, por favor e por nós: não somos ginastas ainda! Ela tem mais talento pra ficar sozinha do que eu, mas não consegui ainda... Afastar e difícil.
Domingo de tarde, puxo o edredom e deixo seus pés descobertos. Sem querer, beijo dedo por dedo pra tirar o frio dali, faço cócegas na sola dos 36 e recebo notas de 8 a 10 em risadas. Subindo numa massagem, sinto meu coração se acalmar, e respiro mais e mais a paz que diziam ser vazia nesses dias. Mas ela era cheia de pés! A sete pés de altitude, na cabeça, existiam vinte milhões de dedões espelhados, e pernas que pulavam pra lá e pra cá, e não paravam de brotar e reclamar e pisar duro. As frieiras, brotoejas e calos eram curados logo depois e o espaço de repente era um infinito que dava pra ver por inteiro. Ela e eu, num domingo, deitados numa king size, dormindo e acordando, rindo, nos beijando, vivendo e vivendo de tocar. Toque, toque! Quem abria era o direito acompanhado do esquerdo, às vezes o esquerdo namorando o direito, mas não fazia muita diferença porque eram belos os nossos pés. Juntos.
sábado, 8 de outubro de 2011
Sobre bruxas e algo que foge
No escuro, a única coisa segura era seu coração. Ele não batia conforme ela dançava. Era um estado de consciência além do que conheciam as outras ao seu redor. Todos paravam para deixá-la sozinha na pista. Até a música não era mais independente; nada mais que mera escrava de seus movimentos. Ela era o nada de dentro com toda força possível, como que uma mosca contra toda violência dos mares sempre lutando consigo de olhos fechados. “Eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu...” era o ritmo de lá. E os braços se erguiam além do peso da carne, revelando as vibrações magnéticas saídas da alma para guia-los como marionetes. Os pés já pertenciam ao reino dos céus e as mãos iam sem reverência alguma até o bico do seio excitado, tocando de leve o tecido, que grudava na pele suada. E ela sondava os machos com as coxas no alto e o vestido inconvenientemente não vulgar: uma hippie guerreando com a prostituta; ela única era dúbia, era pura, puta, era duas.
Antes de sair de casa naquela noite, dormiu o sonho mais estranho que tivera: estava descalça na mata quente e dava saltos altíssimos para não queimar a sola dos pés. A cada salto, via mais de perto aquele ser estranho, curvado, barulhento, comendo algo. Tinha ares de roedor, mas era mulher velha e esmigalhava algo com os dentes. Saltando mais e mais perto, ela via suas mãos juntas levando à boca uma boneca de gente e estilhaçando seus ossos. Esta parecia com vida, mas não gritava. Parecia que já tivera vida em algum tempo e, embora, os olhos estivessem abertos, ela não estava ali sendo devorada. No fim, a velha olhou com olhos de ódio profundo e berrou algo em outra língua. Nesse instante ela acordou e seguiu sua rotina inalterada. Ao sair notou o tempo que mudava. As folhas faziam arruaça no vento, e o céu se partia em mil, cortado por raios, numa umidade retida debaixo do nariz que causava arrepios. Pegou o casaco e entrou no táxi: “Para on11 na Francisco Otaviano, por favor!” Estava estressada e só queria dançar. “Caramba menina, parece que te vi ainda outro dia no Jornal Nacional! Você tem que ser parente daquela pequena que denunciou lá aquele troço de comunidade sei lá o quê hippie...” o motorista se virou para olhar melhor, mas não conseguiu distinguir bem no breu do banco de trás e se contentou em soltar uma risada de incredulidade. Quando ele partiu com o carro, ela se sentiu à vontade pra falar: “Era a comunidade do Prospectus Ninth Dimension, com sede oficial no Alabama e não, não sou ela.” Ele prestou atenção redobrada na voz, mas algo pareceu confundi-lo e passou a nem ter certeza se era realmente importante aquilo tudo: sua vida, o táxi, receber ou não o dinheiro da passageira, afinal a vida era tão estranha e rotacional, o mundo era redondo e ele podia cair a qualquer instante e estaria pronto para isso... se liberar, se jogar... “Hã? Como são as coisas, né?” Num suspiro voltou a si com segurança.
No inferninho barato a não sei quantas quadras da on11, a luz do banheiro masculino piscava a cada três minutos e o tempo só fazia diminuir a cada piscada. Se ficava mais forte, dava que ia parar e voltava à vida, mas depois piscava num tempo diminuído de intervalo. Dentro do segundo compartimento, com as mãos fixas nas divisórias, ela gemia de prazer. O careca entre suas pernas perguntara ainda na boate se ela estaria afim da melhor chupada de sua vida. Ela respondeu que não, que tinha namorado, mas ele ofereceu uma balinha, duas balinhas, e ela engoliu e rumou ao êxtase. Com a cabeça encostada na parede pichada, logo abaixo de “gozei aqui”, ela gritou uma sensação que subia ao mesmo tempo que a vontade de botar pra fora todo seu tédio e tola de vergonha, se concentrou em algo que a assustou: outro sonho, dessa vez um que existiu em algum lugar do passado (de qualquer forma, mesmo que não tenha existido, devia valer alguma coisa na vida, porque era importante conhecer). Ainda menina, sempre se via dentro do carro indo para um novo lugar, escondida e amordaçada pelos pais, que só a alimentavam com palavras vagas e abraços fingidos que já não diziam nem a primeira metade de segurança. Dessa vez foram para uma casa de extensa sala de visitas, com piso de mármore e uma longa escada bem em frente. Haviam pessoas lá, vozes, e elas receberam os pais com abraços firmes e apertos de mão. Deviam ser umas doze pessoas, e quando a menina já estava pensando ter se tornado invisível, eles desceram pela escada correndo, assustadores: enormes cães, seis cães, direto na sua direção. Ela não podia ser mais feliz, toda lambuzada de baba e ouvindo latidos de quem a queria bem. Recordou as infinitas horas no jardim dos fundos, correndo com os amigos, rolando pela grama, ouvindo o crack das folhas numa alegria de nunca. Havia um jardineiro ali, seu melhor amigo humano. Velho de uns cento e trinta anos, meio gigante, meio duende de orelhas caídas; na época a menina pensava que ele era a mãe dos cachorros e tinha o maior respeito por aquele senhor. Lembrava das conversas demoradas sobre assuntos perdidos na memória. Quando seu analista lhe perguntava sobre o que falava, ou sobre onde seus pais ficavam, o que faziam, se a viam de vez em quando, ela não sabia responder. Era como se eles tivessem sumido por uma vida e voltassem apenas perto de sua morte, quando teria que partir mais uma vez para outra casa, ou para um trailer, uma cabana, dias e dias em aviões, ou em companhia de estranhos, crianças de olhos puxados e pele morena que não falavam muito, ursos do outro lado do rio, livres e inatingíveis. E dos pais, não sobrava uma palavra. Ficavam lá atrás na história, como uma sombra que despertava a lealdade rancorosa. Ela gozou num grito arranhado e levou o punho à boca como se fosse comê-lo. Tinha raiva de si por chorar, mas as lágrimas já estavam por toda parte.
No dia seguinte acordou bêbada tarde demais e faltou o trabalho. Nem teve coragem de ligar para uma colega, a única em quem confiava. Deixou do jeito que estava. Sentia que a sombra se aproximava e ficava sussurrando “é hora de partir...” e queria chorar o dia inteiro agarrada a sua pelúcia de Pooh, o ursinho. À medida que o dia ia passando, ela ia secando. À tarde lembrou dos longos passeios de barco quando tinha treze anos, ouvindo centenas de nomes de peixe. E tinham gosto de cereja ou amora, não se fazia entender direito dentro da cabeça, na língua. Ah, e lembrou que uma vez conheceu a avó, pelo menos pensa assim, uma senhorinha muito doce de pele bem morena que descascava laranja arriada no chão, de pernas abertas com a saia lá nos joelhos. Ela dava uma bronca na mãe, que permanecia de cabeça baixa sem soltar uma palavra, e de vez em quando, olhava pra menina com um sorriso atraente e acolhedor dos lábios. Pedia que ela girasse a casca no alto igual um peão com um laço. E no a, b, c, d, e, f, ela parou no l e riu sem pudores quando percebeu que estava confortável. Na sua história também houveram peões e políticos e havia transado com pelo menos três de cada espécie. A tarde foi sumindo. Sua amiga ligou, perguntou por que havia faltado. Ela respondeu que estava passando mal, a amiga se assustou e deduziu gravidez, o que ela negou inalterada. “Por que você não vem aqui em casa? Vai se sentir melhor! Estamos fazendo uma reuniãozinha.”, a amiga convidou. “Não, já disse que não curto esses seus estudos. Sei lá, tem alguma coisa que me arrepia nisso e me joga pra longe.”, ela respondeu, insegura como nunca, mas abalada e viva novamente. No fim da conversa, as palavras foram sendo ditas em tons baixos, e foram se tornando sérias, e, quase como confissões, convenceram a mulher a ir até a casa da amiga.
Eles estavam em circulo, cada um com seu respectivo livro, mas o clima era leve ainda, e comiam também. Havia salgadinhos, cerveja ou vinho, e bolo de chocolate com maconha. “Sinta-se a vontade, Ana. Pegue o que quiser!” ela vestia uma longa saia de estampas abstratas, e não vestia nada da cintura pra cima. Seus seios pesados caiam e levantavam levemente enquanto ela pegava a travessa com os bolos fatiados: “Hum, você tem que provar esse bolo especial (ela fez o gesto de aspas com as mãos) que a Japa fez!”, riu bobamente como se fosse criança brincando com o proibido “Hum... divino!”, gargalhou cuspindo bolo pra todo lado. Ana pensou em gritos fantasmagóricos de bruxas de verdade. “As bruxas de verdade sentem a influência de um fantasma ou coisa parecida? Como funciona?”, ela se juntou ao círculo, acariciando o gato que se aproximou. Logo vieram mais dois e ainda um menor que todos os que já tinha visto, devia ter uns dez centímetros de altura. Ela o colocou no colo, desprezando os demais. “Esse é o McRonald, meu gato anão!” a Japa era uma mulher baixinha e gordinha, de sutiã e calcinha, com meias pretas até o joelho estampadas de corações amarelos e azuis. “Ele ajuda a transmutação de energias. Pode parecer pequeno, mas esse peste é mestre em suportar o caos.” Ana deixou que o gato fosse até a dona. Outra pessoa falou: “Ele é um dos pilares-chave pra que o círculo não desmorone.”. Do nada, Ana sentiu uma inquietação crescer no peito. Queria sair dali já, estava se sentindo incompleta, abafada, e os gatos começaram a miar, as pessoas foram rindo alto demais, tudo numa sintonia da qual ela não fazia parte. Estava suja. “O que você quis dizer com bruxas de verdade, hein mocinha?”, a amiga voltava da cozinha com duas taças de vinho nas mãos e os seios suando por debaixo. Escorria pela barriga da mulher e marcava contra a luz. Ana quis chorar, se levantou. Pegou a taça e levou a amiga até a porta, falando ao pé do seu ouvido: “Preciso ir, preciso vê-lo! Acho que fui muito má com ele. Outro dia fico pra assistir, ok?” a amiga a olhou nos olhos como sua mãe fizera há muito tempo: “Eu te falei, não falei? Poxa, um cara tão bom...” Ela pegou a taça da mão de Ana e colocou sobre a mesa. Levou a unha do polegar à boca e, pensativa por um tempo, se resolveu, olhando para outra: “Tá, vai lá! Mas me conta como foi depois! Não me deixa no escuro, Ana!” McRonald roçou na perna de Ana e ela o recolheu, com remorso por tê-lo odiado antes. “Leve-o! Você precisa dele! Ele sabe dessas coisas!”, a Japa gritou de longe. “Quando voltar, me devolve, sim?”
Ana desceu as escadas correndo, com o gato tentando escapar da bolsa, escalando a alça. Apertou o botão e o apito abriu a porta. Lá fora, lembrou do fim do outono, de como o tempo estava revirando tudo à procura de si. O celular anunciou nova mensagem de voz. Ana colocou o gato no banco de uma moto estacionada ali em frente e ouviu: “Eu sei que não quer me ver e que quanto mais me humilho, menos desejável me torno. Mas preciso te ver... dessa vez é urgente, resolvi tentar aquele troço e passei. Tô indo pra Austrália na terça. Me encontra no Bukowski! Por favor!” Outro apito, termina a mensagem e a porta se abre. “Ei, tira esse bagulho da minha moto, tá arranhando tudo!” O homem devia ter uns quarenta e poucos anos e uma barba espessa longa demais pros normais da cidade e da idade, mas não estava de óculos escuros, tinha olhos verdes na verdade. “Ah, desculpe.” Ana recolheu o bicho e o recolocou dentro da bolsa. Queria dar praquele homem tão urgente quanto queria ver seu namorado. “Prazer, sou Ana!” O homem só fez que sim com a cabeça e colocou o capacete, olhando a moça de esguelha, desconfiado. “Você não é aquela garota do...” Ana o interrompeu: “Pode me dar uma carona?” Ele olhou mais desconfiado ainda, pensando nas possibilidades, na interrupção, na vida, na moto, nos pequenos arranhões debaixo do seu traseiro, no traseiro da prostituta que ia ver, na mulher bem na sua frente... A confusão se desfez quando a voz da garota voltou à cena: “Eu faço valer a pena!”
McRonald roçava na perna de Ana enquanto a garota gemia, de tronco erguido, com o homem de quarenta e poucos anos deitado na sua frente, com seu pênis ereto à mercê da sua vontade. Ana não pensava em nada a não ser a mesma vaga repetição de eus, dessa vez misturados a um lodo fétido e bosta de gato. Queria arrancar a camisinha e queimar, sentindo o corpo arder e as mãos dançarem. Queria ter a sensação da dança eterna, podendo estar além dali, de tudo, no comando do corpo. De repente, teve certeza do que fazer. Uma vontade subiu pelo esôfago e quis vomitar, mas ela segurou. E só pensava nele, nele, nele, nele e nele. As imagens dele piscando e piscando como a luz no banheiro masculino de um inferninho qualquer, e ia aumentando em intensidade e em ritmo numa carreira de limites constantemente batidos. Tinha que expurgar esses demônios que entravam. Ela deixava – uma porta aberta, a escada por onde desciam todos os tipos de animais, buscando a finalização da palavra segurança. Ela deixava que seus pensamentos lhe dissessem o quanto de vadia fora naquelas noites onde decidia o destino, permitindo que nada lembrasse o que podia fazer ao invés do que estava acostumada a ser. Contudo, foi educada, deixou que ele terminasse e pediu que a deixasse no bar Bukowski. Ele também foi simpático e, estando devidamente alimentado, fez o que ela pediu. Quando chegaram, ele tentou beijá-la a força. “Não, por favor, senhor!” Ana o desviava com as mãos. “Não, pelo amor de deus, me deixa em paz!” Ela não pôde fazer mais nada: ele a beijou. Sua língua disse para a dela que não podia aparecer daquele jeito na frente do amor, que devia se limpar antes. Ela o olhou meio que com raiva, meio que assustada. “O que você sabe?”, perguntou. Ele se fez de canalha com a boca: “Eu te levo lá!” Ela subiu novamente na moto e eles foram.
Aparentemente era só mais uma lanchonete daquela franquia, mas o homem falou baixo com o gerente (um adolescente espinhento) e ele indicou que passassem pros fundos da loja. O homem guiava Ana com sua mão na dela, e ela quase que se apaixonava. Lá atrás, uma salinha com uma placa escrito “depósito”. Dentro, uma mulher sentada de costas no chão. “Quem tá aí?”, ela perguntou, sem se virar. “Sou eu.”, ele respondeu. Soltou a mão de Ana, que balançou perdida no espaço entre o chão e a alma, e foi até a mulher. Cochichou algo em seu ouvido. “Hum, peça que se aproxime, por favor. Tenho que ver se é possível.” Ele fez que Ana viesse até ele com a mão. O gato miou alto e fugiu prum canto entre os pacotes de pão. Ana olhou para a mulher e notou que usava perucas douradas e vestido de paetês, brilhantes pela fresta de luz debaixo da porta; mas não se enganou era uma velha igual a do seu sonho de dias atrás. A senhora não olhou, apenas pediu que Ana se deitasse de frente pra ela com a cabeça entre suas pernas. O homem saiu da sala e Ana sentiu um medo absurdo, deixando que as lágrimas escorressem livres pelo rosto. A bruxa de verdade foi sussurrando rápido um latim ferrado, para a seguir levar os dedos nos olhos de Ana e fechá-los. As palavras começaram a ficar mais altas até que gritassem pra quem quisesse ouvir: “Peço que interceda por esta puta que quer retomar a pureza!”, Ana podia entender, mas ainda era latim. Na cabeça, tudo queimava assim como os documentos dos pais quando partiram pro tal retiro após terem chantageado uma Ana mais moça, muito atordoada: “Mas vocês têm certeza de que não vão nem me falar do que se trata?” ela chorava, só sabia ter uma sensação ruim no peito, de um amargor indistinto, a loucura do não-saber, da dúvida, sem promessas ou compromissos com o futuro, apenas uma obrigação de fuga imediata. "Eu não quero mais fazer isso!" Nada fazia a paz, nada queria acordar. Era como se ela nem ao menos tivesse nascido. "Eu não sou mais sua putinha particular!"Os pais viviam de longos passeios, conhecendo todo o resort, como belos turistas. Davam risadas, provavam frutas, assistiam os rituais da cultura local, entusiasmados. Ana só não intuía o que fazer porque ainda não tinha sido atingida. Uma noite, acordou no susto depois de um pesadelo, achando que alguém a olhava nua, e ouviu uns sons estranhos vindos da rua. Não ousou olhar, mas não conseguiu mais dormir e ficou desperta esperando o dia amanhecer. Longas horas desesperadas, aflitas – 105120 horas... Assim que o sol se revelou caminhou para fora da casa e andou por tudo. Os pés já doíam, não mais fortes que seu sufocar constante, mas ainda doíam e queimavam. Num instante qualquer disparou a correr para diminuir a dor que só aumentava. E daí que ficou sem ar e tudo ardeu lá dentro e ela começou a gritar e gritar. Correndo e gritando permaneceu, e buscando e buscando, até que tropeçou em algo. Era um animal: um cão morto, seus ossos já quase aparecendo. Ana ficou olhando por um bom tempo e sentiu alguma coisa profunda chegar à superfície. “Rearranjo!” – Abriu os olhos e a bruxa estava de costas. “Saia!” ela não entendia, nem sabia onde estava. O gato chegou subindo pela sua roupa e começou a lamber suas feridas no rosto. A moça se sentou e começou a tatear as bochechas, sentindo grudentas as lágrimas e seco o sangue. Eram pequenas aberturas acima dos olhos, nas bochechas, no queixo – nada com que devesse se preocupar imediatamente. Olhou nos olhos do bicho e sorriu. “Vai embora já!”, a velha fez um gesto imperativo com a mão e alguns sacos de pão caíram. “Suma!”, a luz pelo vão da porta se intensificou e tremeu, alfaces começaram a voar mesmo sem vento e os pães se esmigalharam como se pisados pelo invisível. Ana levantou e correu para porta. “Muito obrigada!” Pegou a bolsa, enfiou McRonald lá dentro e saiu sem conter a gargalhada alta.
“Pra Álvaro Ramos, por favor!”, ela disse para o taxista. Estava amando, a menina. Discou o número dele e esperou chamar oito vezes até ser enviada para a caixa de mensagens: “Oi, Lucas, sou eu. Tô indo praí agora. Me espera na porta. Beijo.” O táxi parou em frente ao bar. Ela não viu Lucas na porta e resolveu ficar esperando. O relógio marcava duas e sete da manhã. Disse consigo que ia esperar até três e meia do lado de fora, sem beber, sem cheirar, sem transar, sem pirar, sem reclamar. Estava decidida a vivenciar o que via ao seu redor, rindo por qualquer coisa. Entre esperas, foi procurar o celular na bolsa e não encontrou o gato. Algo se rompeu. O curativo era frágil demais! Na sala nos fundos da lanchonete, a bruxa abriu os olhos assustada e balançou a cabeça negativamente, fazendo tutututututu com a língua nos dentes. Ana se deixou levar pelo desespero do tempo e os minutos ficaram longos demais. Ela olhava o relógio e ia ficando cada vez mais como antes: angustiada, querendo fugir. Táxis passavam e ela pensava nos peixes que pulavam pra dentro do barco; ela ria, seu pai ria. Queria, mas se segurava firme. Firme, não mole como os pênis dos amigos de seu pai. Prendia a respiração, olhava para tela no celular. E nada dele. Segurava, prendia. Táxis passavam e não paravam. O nervosismo aumentava. Borrões amarelos. Luzes, faróis. O semáforo ia do verde pro amarelo pro vermelho pro verde pro amarelo pro vermelho... Tentava respirar, segurar o ar lá dentro... (AHHHHHHHHHHHHHHHH!) – na sua mente nada além de um grito sem fim. Entrou num táxi e foi pra casa. Colocou um pacote de absorventes, sua nécessaire, papel higiênico; foi até o varal, apanhou três calcinhas, dois sutiãs, abriu a gaveta e jogou tudo dentro da mala que ficava pré-pronta ao lado da porta. O táxi esperava lá embaixo. No banheiro, ela escovou os dentes se olhando no espelho. Tinha mais medo que raiva, então a fuga se justificava. Pensou nele uma última vez e depois teve uma visão da bruxa andando pelas calçadas da cidade, perdida e louca, procurando alguma coisa que, talvez, fosse Ana. Cuspiu e desceu correndo com a mala quicando nas escadas; não tinha tempo para elevadores. “Oi, Ana!” A mulher fez um sorriso audível “Acabei de receber uma ligação da sua mãe!” Ana gelou. “Eles acabaram de chegar na Bélgica e estão bem. Pediram que eu avisasse assim que te visse.” Ana se virou para encarar a síndica com os olhos cheios de uma vida que não tinha, nunca teve. A outra mulher se assustou de leve e deu uma risadinha sonsa. “Que sorte a minha, não é? Te encontrar assim no corredor...” Ela viu a mala e já ia comentar, porém Ana esbofeteou seu rosto com tanta força que ela precisou se apoiar na parede. “Manda esse recado pra eles!”, Ana falou em pensamento com a síndica. Estava bufando e seus olhos traziam todo ódio do mundo.
Entrou no táxi e pediu que a deixasse na rodoviária. No caminho ficou escolhendo um destino. Tinha quase certeza que ia pra São Paulo dessa vez, mas não queria ser previsível. Lá podia entrar em contato com uma amiga que estudou com ela na USP, nos três meses que a garota ficou lá. Tentou cursar administração, mas teve que abandonar. Ângela, a amiga desse tempo, acabou durando porque seus pais se conheciam. Ângela se formou em jornalismo e escrevia para Folha, por isso Ana se sentia íntima dela toda vez que via seu nome em alguma daquelas páginas. A cabeça só dizia São Paulo, enquanto caminhava até a bilheteria. Três e quarenta e seis da manhã. Ana pensou de onde estaria vindo aquela maldita síndica àquela hora da madrugada. Teria que esperar até às cinco da manhã, então mandou uma mensagem para Ângela, perguntando se poderia ficar em sua casa, e descansou no chão sobre as malas, indiferente ao perigo. Não conseguiu dormir na profundidade de um sono, mas conseguiu deixar que o corpo retomasse as energias parciais. Ao som dos primeiros passos, abriu os olhos e comprou a passagem. Entrou no ônibus, procurou seu assento e recobrou um pouco da consciência: “Finalmente conheci uma bruxa de verdade. Ai, que droga! Perdi o gato! Devo comprar outro qualquer dia desses, assim que voltar ao Rio. Mas agora sou de São Paulo. Chego lá, me instalo, arranjo um emprego. Ah, devo procurar o Teco! Com certeza ele deve ter alguma coisa pra mim. Acho que ainda levo jeito. É, ainda tenho um restinho de marra. Agora é relaxar e respirar. Vai dar tudo certo. Eu tô fazendo a coisa certa. Só não é bom sinal pensar isso porque quando pensa sempre dá a entender que está fazendo o oposto do que sabe que deveria fazer. Bem, eu não sei de nada. Por que estou sendo tão formal nesses pensamentos? Acho que faz parte do processo de reaproximação. Ou reorganização. Por enquanto vou tentar ser confiável. Aqui dentro vai voltar a ser meu espaço. Já estou me sentindo bem melhor. Foi uma ótima noite. Quem diria?” Ela deu risadas em pensamento. O ônibus partiu. Com a cabeça encostada na janela, Ana foi vivenciando tudo que negligenciara na mente. Sentindo cada sabor, cada ansiedade, transformando-os em coisas novas, refletindo de fato o que foram vinte e oito anos de pausa. O motorista freou bruscamente. Ela ouviu latidos gentis ecoarem pelo ar. Havia um acidente na rodovia. Ana viu a fumaça de longe, trazida pelo vento. Mais a frente, havia fogo num carro vermelho que parecia estranhamente familiar. Havia também um homem acenando para alguém. O motorista abriu a porta e o sujeito entrou. Estava sujo de cinzas, dava passos envergonhados e foi direto para o motorista, conversando baixo. O motorista fechou a porta e deixou o homem ficar. O ônibus voltou a andar devagar e Ana pôde ver o fogo de perto. O homem das cinzas caminhava na mesma lentidão do ônibus. Ana viu um galão de gasolina do lado da roda e teve certeza do carro ao ver um pedaço da placa meio descascado: ANA-0058 – “Terá que ficar casada comigo por cinquenta e oito anos, ó querida, avassaladora, safada, deslumbrante, doce, maluca, sincera, frágil Ana!”, e as risadas dele iam aumentando. Ele fazia cócegas na barriga e depois resolviam ficar em silêncio em cima da cama, pensando nos problemas, compartilhando curas. Ela tinha os braços dele ao seu redor, tinha seus pensamentos preenchendo seu vazio e ele também tinha cicatrizes. Estiveram juntos apenas por dois anos e alguns meses, nessa coisa de se ver de pouquinho em pouquinho. Ele era tanto que parecia que já tinham passado os cinquenta e oito anos juntos. E ele era consistente nas lembranças, o que o deixava seguro com seu lugar cativo lá dentro. Ana corria pela mente, tentando fugir da sua aproximação, mas ele já estava de pé ao seu lado. “Com licença, senhora. Posso me sentar no seu lugar? Desculpe, eu acabei de sofrer um acidente e só queria estar com essa moça hoje.”, apontou pra Ana. Lucas tinha o dom da persuasão ou poderia ser apenas sua testa sangrando. A senhora se levantou e ficou muito tocada, apesar de ainda achar tudo muito estranho e escolher a desconfiança que a levou para o fundo do ônibus. Lucas olhou Ana e fez com que ela o olhasse de volta. “Só até terça!”, disse por telepatia. Ana o olhou porque quis e pediu que sentasse sem nada dizer na mente ou fora dela e sem se mover no corpo também. Somente os olhos pra lá e pra cá de acordo com o barulho da roda no asfalto. Ele se sentou e se olharam ainda por mais algum resto de tempo, admirando o quanto ainda sabiam um do outro pelos cabelos atrás da orelha, fios no ombro, corte na testa, no pulso, olheiras fundas, mãos trêmulas e calça desbotada. Depois, Lucas pediu pra deitar no seu colo e ela deixou. A bruxa escolheu primeiro Lucas e o enviou por incêndio. Olhando ainda através da janela, Ana foi voando, pensando em quantos acidentes ainda fariam parar aquele ônibus. Sobre a vida, ela alcançou o além da sobrevivência e decidiu chegar em São Paulo só depois de amar.
segunda-feira, 20 de junho de 2011
Litros de imprudência na irrealidade de uma amizade sem reverência
Eu sou o batman e você o superman. Somos que nem aquela peça escangalhada, de quem nossos filhos riem sem dó da risada. Sua mãe, não a minha! Porque minha avó nem cabelo mais pinta, e também, o que você queria daquela péssima tinta? Nossos meninos não sabem fazer direito, e quando voam derrubam tudo. Sem nem fazer meio lisonjeio, apertam com os dentes o braço carnudo. Nossos filhos não riem mais, não se sujam, não se cruzam, não se usam! Mas nossos filhos ainda não brigam!
Somos que nem aqueles vizinhos que se mudaram. Sempre carregando as roupas pro lugar certo. Sempre vivendo de adiar o ferro. Mas aqui nunca chegam móveis novos. Nunca esquecem de cobrar da cara os olhos, nunca relaxam a cintura pra braguilha não abrir. Por isso te peço, meu amigo: me leva daqui!
Deixa que os meninos se virem, eles agora são velhos! Demais somos você e eu, juntos crianças perdidas. Deixe que essas agendas, mesmo antigas, não escondam o calendário. Deixe que o café eu mesmo passo. Deixa, que quando a gente passar por ali, eu os prendo no armário. Não se confunda: eles sempre souberam o que era pilotar, nós é que nunca saímos pra voar. Mas você sabe como faz. Você sabe do que o céu é capaz. E lá nos móveis nunca novos encapada está, por cima da calça num só mafuá. Não se preocupe com esses assuntos! Tá tudo certo que eles ainda ceiam juntos.
Agora me beija a face e levanta! E sai pela porta e me deixa em paz! E some no ar dos homens normais, e finge fugir com meu tosco abençoar, e diz que amigo não é fácil de achar, e luta comigo que é pra gente se amar. Mas, pelo amor do Deus que há, não esqueça da tua fraqueza, e não faz dela toda uma certeza, no que eu te engano, no que eu escureço, no que eu finjo que esqueço: o que sou eu.
Céu de morcego é que nem pescador de papel, que não zarpa bem com o barco por ser leve demais, que não descansa do sonho de um lugar ou cais, que ventasse onde ventasse, nunca viu peixe que flutuasse. Jamais! Tenho andado muito distraído, às vezes esquecendo de me esconder, e em outras, me perdoe dizer, eu me disfarço de você. Só que ninguém a não ser os meninos, e olha que eles estão bem desprotegidos, confunde a com b. E logo agora num c, não tô mais encontrando os perigos, fico achando esses vazios e me deparo com você, que lá de Krypton me vê. E aceno que venha cá, pra num abraço me ensinar, o que batman quer realmente dizer.
Espero, quando te ter assim bem próximo, você lembrando aquele negócio e começando a me chamar de irmão, já poder por fim fazer, o que é de mim melhor em você, soletrando o ditoso de super, que na raiz da palavra revela, e desespera, o que de herói significa solidão.
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Ephémeros Mature
Eliseu morava no pé de um morro e Gâmbia no topo. Todos os sete dias da semana, o rapaz caminhava 1.185 passadas até a casa lilás que lhe guardava a amada. Ele sempre trazia em mãos uma oferenda e no peito um desejo: a oferenda variava, o desejo se fortalecia e lhe tomava o coração de modo a prensar os pulmões; Eliseu arfava.
Esse amor não era tolo, tolos eram os participantes que se permitiam o envolvimento num jogo de embaraços pretendidos e risadas dissimuladas. Apenas o coração era sincero em ambos e os dois eram um, batiam sincronizados, entoando aquela música a qual os amantes dedicam horas a fio com ouvidos apurados a cada nota e receptivos a cada agudo. A memória se empregava em guardá-la e a língua em exercitá-la em eternos lálálás.
Num retorno ao passado, encontramos Gâmbia na primavera, tendo ingressado na vida adulta há poucos instantes. Seu olhar como mulher trazia uma sublime ternura que lhe aguçava o mel dos olhos, atentos na leitura de um livro de poesias. Estava amparada pela sombra de uma grande amendoeira em frente a sua humilde casa de paredes cinzentas. Eliseu, por sua vez, aproveitava sua infância prolongada em arremessos de peão. Foi então que levantou sua cabeça ao sol e encontrou os fios dourados dos cabelos de uma deusa em toda sua magnitude a contemplar os meros mortais.
O moleque, em sua condição de mortal se tornou homem digno de admirar a deusa, esta que se tornou efetivamente mulher ao ser tocada pela alma do outro deslumbrado.
Gâmbia deixara o livro sobre as raízes da árvore para sentir os raios de um sol que se despedia e exigia reverência. De olhos fechados, ela reconheceu o olhar de um homem a abraçá-la; e o abraçou de volta. Fora um momento único, onde se tornou capaz de sobrevoar a amendoeira e sombreá-la.
Eliseu planejou seu futuro assim que chegou a casa e olhou nos olhos de sua mãe:
- Meu filho...
- Minha mãe...
- Ah, que belo - respondeu a mãe ao ver sua ideia escorrendo dos olhos.
- É amor - pausa e um majestoso abraço - pela deusa da amendoeira.
A mãe do moço sorriu e se afastou de seus braços. Seu filho era um homem, ela era mãe de um homem - que truque do tempo, como uma mulher franzina poderia carregar aquele Eliseu em seu ventre por nove meses? As lágrimas umedeceram o rosto.
- Não chora, mãe. - surpresa nas palavras do filho.
- São lágrimas felizes.
- Então, a senhora compartilha da minha felicidade?
- Por que não? - surpresa nas palavras da mãe.
- Porque meu coração agora pertence à outra mulher.
- Ora, vejo que a tolice não é virtude infantil.
E assim, em outro abraço, foi finalizada a conversa entre mãe e filho, e Eliseu atinou que aquela que fora a primeira mulher de sua vida jamais seria esquecida e tampouco substituída; com o passar dos anos perceberia que nenhuma podia.
Na noite do mesmo dia, Gâmbia se banhou cantarolando, jantou cantarolando, viu a novela cantarolando (na novela não havia cantarolares), reparou seu pai cantarolando (?!) e foi dormir cantarolando. A cama da moça dava para um pequeno sótão e para um pequeno porão, naquela noite ela subiu para o sótão e ao sair por uma pequena janela se posicionou no telhado, olhando as estrelas, que a olharam de volta e brilharam mais.
Na noite do mesmo dia, Gâmbia se banhou cantarolando, jantou cantarolando, viu a novela cantarolando (na novela não havia cantarolares), reparou seu pai cantarolando (?!) e foi dormir cantarolando. A cama da moça dava para um pequeno sótão e para um pequeno porão, naquela noite ela subiu para o sótão e ao sair por uma pequena janela se posicionou no telhado, olhando as estrelas, que a olharam de volta e brilharam mais.
“Quem é o rapaz do pé do morro, o que carrega meu coração e tem um abraço cativante?”
As estrelas piscaram uma, duas vezes - Gâmbia adormeceu, as estrelas se apagaram e o sol nasceu: um dia previsto feliz.
- Gâââââmbia! - o pai berrou.
A mulher caiu do telhado. O pai correu em socorro.
- O que a senhorita fazia no telhado? - nervosismo se expressava em seu olhar e o susto ia se esvaindo. - Anda, responda! - a menina se movia lentamente. Fora acordada no susto, embora o tombo tivesse sido insignificante devido à pequena altura da casa.
As ásperas palavras do pai logo foram substituídas por seu gesto seguinte. O homem ajudou a moça a se erguer.
- Ah, minha filha... - o tom era baixo e movido à doçura – Está de volta? O tombo a acordou do disparate dessas suas idéias, como a de subir no telhado?
A mulher logo despertou seu corpo num chacoalhar e, pela pergunta de seu pai, começou a procurar seu coração.
- Não, papai. - havia um fio saindo de seu peito - Continuo longe. O senhor vê minha metade.
- Esses livros finalmente fizeram efeito...
- Os poemas prepararam a terra, a irrigaram e plantaram a semente...
- Quem a germinou? – o pai parecia aflito quanto à reposta, mesmo esta sendo irrelevante ao seu tormento.
- Ainda não sei o nome - Gâmbia notou que o pai demonstrava certa insegurança – pouco importa saber o nome.
O senhor na frente da mulher esboçou um sorriso, e viu sua falecida esposa nos olhos da filha.
- Não sabe o quanto isso me alegra!
Os dois se abraçaram.
- Corra, minha filha! - a alegria transbordava - Vá confirmar teu amor!
Gâmbia correu pra dentro de casa, tirou o camisola, colocou um vestido azul, molhou o rosto, calçou um chinelo, e apressou-se em direção à porta. Voltou, pois havia esquecido o chapéu de sua mãe em cima do armário (um chapéu Suzana com uma longa fita lilás), colocou-o na cabeça e saiu.
- Tchau pai. - beijou-o no rosto e mirou seu destino final: a base do morro.
- Vá com Deus, querida! - desejou o pai que vira de relance um fio lhe escapar do peito.
Eliseu percorria aqueles espaços repletos de flores, Gâmbia percorria o mesmo lugar de flores e os dois se olharam quando alcançaram o meio do caminho.
Gâmbia olhou os olhos e cabelos negros e o porte garboso do homem que a esperava desde sempre. Ela, certa quanto à escolha de seu coração e eufórica pelas circunstâncias, riu demoradamente e, em seu sorriso, tornou franco o amor que já sentia. Ele riu de volta. Eliseu viu o melaço dos olhos dela, embriagou-se.
O beijo.
O beijo foi inevitável. Eliseu se adiantou em cortejo e Gâmbia se entregou a fantasia. Os corpos se tocaram: os lábios da mulher se retraíram e os do homem os atingiram, não houve contato maior, o amor foi somente selado. Uma borboleta voou. As mãos do casal caminharam pelas costas um do outro, buscando a temperatura ideal para a compreensão, apitando para um abraço íntimo. Quando terminaram a jornada, abriram o casulo e esticaram os braços pela liberdade, fazendo como asas a bater em harmonia, como as da borboleta que voava.
Os corpos se afastaram, trazendo de volta a necessidade de descoberta. A borboleta pairou entre os dois e por não se sustentar diante tamanha troca de energia, morreu. Foi ao chão sob os olhares intrigados dos dois amantes. Qual não foi a surpresa de Gâmbia ao notar-se madura quanto ao falecimento de um ser tão afável:
- Positivamente morta, necessariamente bela!
Eliseu retornou de lá onde estava, o reino dos amores dobrados e guardados no bolso, e chorou por amar. O que era de um instante, um pouco mais que nunca, ele viu como eterno. E amar seria tão impossível quanto complicado e Gâmbia se desmancharia como as nuvens no céu e, curvada, seria outra. Mesmo não sabendo quem seriam no banho de sentimentos desperdiçados no tempo, ele apenas chorou a emoção de amar pela primeira vez. A borboleta foi levada por formigas em procissão, para em seguida ser arrebatada pelo bico de um pardal faminto.
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