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domingo, 3 de janeiro de 2016

2016


Esse blog nasceu em 2010 com a proposta de publicar contos e crônicas. Com o passar do tempo, a cada ano, menos publicações, menos histórias. Não que não as vivesse, imaginasse, só não escrevia. Disciplina é liberdade, disse Renato Russo. Nesse tempo de escassez, mudei radicalmente, tive experiências novas e maravilhosas, conheci uma gente fantástica que acabei amando, me amei, quebrei a cara, voltei, continuo quebrando, mas bem tranquilo para expôr as rachaduras. Escrevo agora para assumir um compromisso de escrever uma história por semana ou quatro por mês ou doze por trimestre ou vinte e quatro por semestre, mas que sejam quarenta oito no fim das contas, no pular das sete ondas. Também assumo o compromisso de um desenho por dia, média de três livros por mês, prática diária de ioga, atenção contínua à alimentação e reflexões no fim de cada dia com a cabeça no travesseiro e os olhos fechados visualizando estrelas. Nunca tive compromissos manifestos, então meu verdadeiro compromisso é manter meus compromissos, entoando os mantras "disciplina é liberdade" e "põe fé que já é".

Era uma vez um menino chamado Diego que viveu 25 anos e que, em 2009 entrou pra faculdade de psicologia, em 1996 ganhou um casal de primos e chorou a morte dos Mamonas Assassinas ouvindo repetidamente a fita k7 com a gravação da notícia, em 1990 nasceu, relutante, após quase ser enforcado pelo cordão umbilical e arranhar todo o rostinho magro, em 2001 viu a programação da tv globinho parar para assistir duas torres desabarem em chamas sem entender muita coisa, em 2004 se formou da oitava série e ficou meio perdido e mais tarde descobriu que 2004 foi um ano mágico porque foram lançados "antes do pôr-do-sol" e "meninas malvadas" e o melhor álbum da Alanis Morissette, chamado "so-called chaos" exatamente em 18 de maio, quando completou 14 anos, em 2008 perdeu a virgindade com um estranho extremamente carinhoso e fez teatro na central do Brasil mas desistiu em tempo de não se apresentar na peça final, em 2000 confeccionou um cartaz sobre assuntos ecológicos com sua amiga Kely, que gostava dele, em 2011 teve um ano bem ruim, presenciando alguns suicídios e embarcando num vazio cavado dentro de si mesmo, em 2013, ele próprio tentou o suicídio após um colapso emocional, em 2002 deu um tapa num menino que o provocou e ganhou uma advertência que escondeu dos pais, em 2012 viu o mundo não acabar e foi ao cinema vê-lo acabar, em 1991 ganhou um irmão, em 1993 o jogou no chão e ele desmaiou, em 2003 cresceu demais e achou que estava apaixonado por uma menina do colégio mas tinha atração sexual por alguns meninos, em 1999 levou uma bronca da avó por ter tomado banho depois de almoçar, em 1998 não conseguiu achar luvas brancas para desfilar no sete de setembro, em 1997 seu amigo fez cocô no meio de uma aula e ele não saiu do lado das fezes até uma colega de classe mandá-lo trocar de cadeira, em 1994 chorou no primeiro dia de aula sentado na última carteira, em 2007 foi obrigado a participar da formatura do ensino médio, mas todos seus dois únicos amigos faltaram e se sentiu estúpido, em 2005 tirou notas muito boas, em 2006 tirou notas menos boas, em 2015 conheceu a ioga e abandonou a monografia e se sentiu feliz em seu próprio corpo, em 1997 deve ter dançado chiquititas em todas as festas de criança a que foi convidado, em 2014 foi pra Juiz de Fora e Buenos Aires, em 1992 foi bebê ainda, muito amado, e em 1995 teve uma baita festa de aniversário com o tema de TV Colosso e dois palhaços como animadores, mas chorou em determinado momento e se escondeu. Em 1989 não existia ainda. Em 2016 ainda existe até às 17:37 do terceiro dia.

(desenho de Monica Ramos, disponível em http://monicatramos.tumblr.com/)

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Confissão


Odeio escrever! Palavras me cansam e são estupidamente chatas! Tudo que queria era poder enfiar uma droga de uma câmera dentro da minha cabeça e filmar a vida por lá. Porque é tudo muito cansativo. Só queria assistir. E entender. Mas daí vem a única opção disponível: pegar um monte de letras, juntar, batizar um significado e colar numa folha com alguma certeza de ao menos coerência gramatical. Se a mente ainda fosse feita de palavras... Queria abrir o coco e instalar uma câmera de segurança, evitando a loucura, filmando tudo o que pudesse, o que deixasse. Peraí, será que teria que fazer resenhas? É verdade que estou infinitamente preso às palavras? O que há de novo dentro do repetido não pode ser só o o. Preciso de mais! Aí vem deus e faz de quatro letras um espera infinita! "Sois deuses!", alguém disse, e só o que fez foi acrescentar duas novidades repetidas. Fiquei com o velho du de dúvida, mas duvido que tudo isso pudesse ser escrito, ou filmado... ferrado!

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Risadas tolas, tolas intrigas


Você sabe quando pessoas riem, que vão além da conta? Ou quando elas humilham apenas por três segundos e os surtos acabam chegando como palha pra incêndios? Elas, às vezes por medo, sentem-se inclinadas a zombar do mundo através da estridente falta de compaixão, contaminando os ambientes, deixando-os repartidos, uns esfumaçados, outros pelados. De coitados, elas os vêem pouco. "Outras festas virão!" - os desrespeitosos absurdos se transformam em lágrimas, como uma desastrosa vingança vinda da voz de todas as virtudes, que é bolha de ar. A voz chega à superfície, revelando-se a famosa fonte da vida. E respira. E chora. Não tem pena do que foi fio d'óleo (ódio) a marchar sem rumo, e faz do afogar a representação final da nova chance.

Cheque seu bolso e veja só se não há uma caixa de música faltando as pilhas! Ou ainda, uma bailarina esperando dar corda! Seus risos agora soam longe, indistinguíveis.

sábado, 1 de maio de 2010

Batidas


Dia 29 de abril, eu não tinha para onde ir. A faculdade me esperava pacientemente e o relógio me marcava os passos com olhos indagadores: "Por que aí? O que quer encontrar nesse buraco? Pra quê se inclinar à esquerda? Não se estique tanto! Venha correndo, mas não pra trás! Onde anda sua razão?", mas ainda estava na estação de metrô comendo um folheado de quatro queijos ao lado de um bloco com uma mulher desenhada. Quem me marcava: a hora, os queijos ou a caneta?

Pequei, peguei o metrô rodeado de dúvidas. Embaraçoso era ouvi-las cantando, impedindo minha concentração nas conversas dos outros. Ainda me prendiam no centro. Centrado no centro do cantarolar, ainda me perdi do lado de fora dos assobios. Chorei com as músicas do Legião. Não, não! Na verdade ontem não existiam músicas, só memórias... Lembranças de músicas que só lembro agora. Nem sei se ao menos... nem sei... ao.

Cheguei na Urca. Chovia, entrei, vi o vazio, saí.

Saí andando da faculdade de quase ninguém por causa horário cedo. Simplesmente andando, fazendo o que os passos pediam. Fui um boneco entre a chuva e a imprecisão quente encubada nas minhas coxas. Insisti ainda no guarda-chuva por um tempo que foi sumindo conforme o vento aumentava. Vi uma praça de bancos molhados, estátuas molhadas, folhas molhadas. Estava numa área do exercito. Uma área do exército molhada. Tudo era agradava minha falta de destino! Tirei meus óculos e fechei o guarda-chuva. Permaneci seguro para as novidades. O mar já ia chegar.

Finalmente a praia vermelha. Era final de tarde escura, por volta de cinco e dez, quando descobri que tinha uma praia na minha frente. Eram certas essas algumas horas, mas o tempo já havia me perdido no meio das botas encharcadas, fazendo cambalear a mente pelo chão. A praia era curta e a segui com os olhos daqui pra lá, até o lá ser perfeito para parar.

Chuva fina,
vento forte e frio,
ondas bravas,
dança do véu no costão
coberto de agulhas em prece.
Uma praça deserta atrás,
um pescador vulto-negro guardando suas coisas
e o som constante de algo batendo.

Batia no fundo do meu ouvido e parecia mais alto que o mar (infinito na névoa). No fundo, parecia o coração de uma árvore... Era o Brasil! Com a praia ainda impressa no corpo, pude ver a bandeira do Brasil bater forte contra o vento. Chorei tristezas estranhas.

sábado, 3 de abril de 2010

O que devemos fazer com o ódio?


Hoje descobri que odeio também. E com a mesma intensidade com que posso amar. O que mais me assusta nisso é a capacidade de borrar minhas palavras quando elas viram corvos de tiro à distância. Queria poder identificar minha astúcia em evitar, mas o que foge das mãos cata ruídos de um passado infeliz; e as questões da dor atordoam toda e qualquer vivência humana. Nossa dor é firme, e ela vem como um sopro a cada ventania que expõe a ferida. Aí eu odeio. E a força desse ódio me incluí no time dos desavisados.

Sei que amo.

Sempre que me sobra tempo para me ver de fora, me percebo olhando para alguém com um carinho especial. O amor é a coisa mais fácil, mais simples. Eu quero dizer que amo. Dizer o amor é a coisa mais difícil, mais complexa e as palavras não são coisas, embora todas as palavras sejam simples. Meus sentimentos de veia boa se revelam naqueles instantes em que percebo alguém além de mim, e numa primeira etapa isso já me é de imensa magnitude, não porque sou tão egoísta a ponto de ignorar meus semelhantes, mas porque alguém além de mim me permite encontrar minha face carimbada mais a frente. Quando a pessoa se aproxima e diz que existe, insisto em dizer que também há de existir em mim o amor. Aquele velho homem que carrega nas costas o peso do saber trabalha numa biblioteca e isso não necessariamente impõe que ele me deve ser simpático. Mas esse mesmo trabalhador é um mundo inteiro fechado em si, e mesmo não concordando no fechamento de um planeta inteiro num ser apenas, o que ele traz no peito é brilhante demais para ganhar minha indiferença. Ele, logo de cara, percebe minhas circunstâncias - sabe que entro na biblioteca com minha amiga, que busca um livro, e que planejo esperá-la do lado de fora - não existe nele a necessidade de inquirir além, ele me entende nas minhas motivações. Logo outro alguém me pergunta sobre o que faço ali, e depois mais outro, e enfim o primeiro torna a questionar, e todos voltam a conversar e me esquecer, já sabendo da minha posição segura em suas mentes. Não aquele senhor. Minha amiga demora a encontrar seu livro, ela vai e volta, digita o nome do procurado, anota as referências, olha as prateleiras de cima abaixo e recomeça tudo outra vez. Nem percebi o que o senhor fazia que não olhar continuamente para o jornal a sua frente, e subitamente ele me pesca com uma pergunta: "que livro sua amiga tá procurando?" - ele me via ali o tempo todo, via minha amiga, via nossa amizade e via minha preocupação. Também me ocorreu que ele notasse seus amigos em suas conversas e as notícias que permeavam o Rio de Janeiro.

Eu lhe disse o nome do livro e ele me respondeu com atenção sobre os problemas da biblioteca. Digitou o nome, anotou umas coisas com a caneta e partiu pra busca que era sua. Somente nesse momento da pergunta-isca eu parei de fato para notá-lo e o que me veio foi uma enxurrada de fotos de um mesmo homem, com suas ideias, suas palavras serenas e firmes, seus olhos por baixo dos óculos que olhavam pensando futuramente, e todos seus objetos materiais e imateriais os quais ele tocava, aproximava da alma e recolocava no lugar. Descobria pouco a pouco o princípio de uma paixão; estava embasbacado. Fiquei grudado nos seus passos: ele foi até o corredor onde estava minha amiga e ao invés de dirigir-lhe a palavra avisando que procurava o mesmo que ela, ele permaneceu em silêncio. Isso me surpreendeu mais que tudo. Quais eram suas razões? Será que queria surpreendê-la com o livro num momento irradiante? Ou podia mesmo estar lá em meu nome e não em nome da minha amiga... Podia sim fazer aquilo por mim; muita vaidade de minha parte, admito. Mas, por que procurá-lo pra mim que nem o queria?

Minha amiga desistira; ele não. Ela voltou com um sorriso amarelo, de mãos vazias, e sem sequer ter notado que o senhor estivera ao seu lado com o mesmo objetivo. De repente me surgiu que talvez o que ele buscava podia ser exatamente pra mim como pensara. Talvez quisesse me trazer a solidariedade que tanto procuro ao meu redor, a educação que meus olhos sugam pelos rostos que me passam diariamente, o carinho puramente natural, que em sua definição primeira me permite visualizar por todo o sempre a vida nas folhas das árvores, nos latidos da minha labradora, nos braços dos meus pais, e enfim, em todas as memórias que um dia foram e são boas mas que trazem consigo a certeza da eventual desaparição. O senhor achou o livro, sorriu com vitória. Ele achou e entregou com prazer, eu aceitei e o amei; amarei para sempre.

Mas hoje não é sobre amor. Sei que quando fugi agora pouco pelas lembranças dos meus amores me senti renovado e mais disposto a enganar meus ódios, porém quero gritá-los. Preciso cometer esse delito porque, por mais criminoso que seja, sua força de ferir será sempre infinitamente menor - agirá como fator de exorcismo. Vi "The Laramie Project", um filme que fala do ódio como fomentador do assassinato e me senti parte da briga. Questionei meus dogmas escondidos e sua força sobre meu julgamento dos outros. Sou alguém que odeia tanto quanto é possível odiar. Odeio como uma criança tola sempre que o orgulho é atingido. Somos todos crianças tolas, atinei, essa é sempre a raiz de todo ódio: o orgulho ferido. Dois garotos mataram porque existia um garoto gay que feriu seu orgulho em ser hétero. Um pai, por mais que clame pela proteção de um filho, é capaz de odiar sempre mais quando seu orgulho enquanto homem provedor de amor incondicional é deturpado. Tudo que nos aparentemente ataca com agressividade, desnuda nossas fraquezas, nos remete às nossas dores passadas, trazendo à tona tudo aquilo que ficou mal resolvido, que é evitado e não discutido. Primeiro passo meu: Dizer que odeio!

Segundo passo: entender porque odeio. Discutir, cair em lágrimas, tocar nas paredes sujas de sangue, orar pela fé necessária, clamar por compreensão e dormir. Acalmar tudo para que o fôlego retomado traga a clareza. Respirar fundo. Rir. Lembrar de todo o amor que me rodeia e me sentir novamente protegido, mas não enganado.

Terceiro passo nosso: ater-nos a toda riqueza de amor que somos capazes de cultivar.

No dia em que descobri o ódio dentro de mim no centro de um ônibus lotado, o vento revo
lvia meus pensamentos quentes. Ele os levava de lá pra cá na manutenção da serenidade. Desci do ônibus e meu pai me esperava. Num sopro final, o ódio foi dissipado. Durou menos que uma hora.

O ódio é a coisa mais fácil, mais simples... e esquecê-lo também é.
Só não se pode esquecer porque se odeia, já que se o fizer nunca irá lembrar de deixá-lo ir.

Cabe aqui, no fim de toda essa divagação, ressaltar que todas essas palavras são ideias cruas de um garoto de 19 anos. Palavras nem tão serenas e firmes como as de um velho bibliotecário, mas que tentam reavivar toda a integridade de um ser humano que faz questão do bem maior inerente a todos nós: o de querer e poder (espero sempre) exercer todas as formas do meu pensamento. E, se me permitirem dizer às suas mentes: devemos todos fazer questão disso!