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segunda-feira, 24 de março de 2014

O crocodilo de plástico

Chove muito, não quero levantar. Minha filha pra lá e pra cá pela casa. Bate uma porta, acende o fogão, mexe em panelas... Passos pesados pra lá e pra cá. Mas ontem mesmo reclamava de mim: que falava alto, que a música estava alta – era pura dor de cabeça. Cheiro de camomila com chuva. Ô paraíso: essa cama macia e todo o resto lá fora. Mais uma batida. Minha filha vai pra rua. Volto a dormir.

Acordo no susto, mas não lembro do sonho que sei que tive. “Pai, pai...” minha filha me sacode com as mãos geladas. Vejo seu rosto pálido e noto a água escorrendo dos cabelos – está encharcada. Começa a me contar que não pregou os olhos a noite toda, que estava angustiada. “Liguei pra todo mundo... pra mamãe, pra vovó, pro titio, pros primos... Até pra você, mas ninguém atendeu e você não acordou. Liguei pra todas minhas amigas e pra alguns conhecidos distantes. Falei com uma pessoa chamada Flávia por engano.” A água escorre e pinga no lençol. Ela me mantém preso à cama, acorrentado a sua narrativa. “Flávia é veterinária, olha só? Passou a noite toda cuidando de um cãozinho agonizante. Na verdade, só vigiando sua morte lenta. Pai, ela me contou isso com tanta emoção que senti doer. Acho que chorou um pouco do outro lado da linha. Chorou pra mim, uma estranha!” Nesse momento, ela começa a chorar, mas não como quem soluça e muda a voz; são apenas lágrimas escorrendo em silêncio, fazendo companhia a água da chuva. “Pai, aí que está. Não éramos mais estranhas... Eu senti como se ela fosse tudo na minha vida. Eram seis da manhã e falávamos de como as coisas são bonitas, mesmo os últimos suspiros. O cachorro era novo, filhote ainda, coitado. Morreu de frio, algo assim; a mudança de clima. Não conseguiu se adaptar. Ela mal o conhecia e notou com uma doçura estranha, diga-se de passagem, aquele fim. Ela falou assim ó: ’é estranho porque quando morreu parecia que estava só dormindo e pronto, mas quando minha bisavó dorme – e ela tem 98 anos – é como se estivesse morta’ e é verdade, pai. Gente velha parece nem mexer mais o peito quando dorme. Parecem impregnados de morte já. Agora pouco, você sonhava e seu peito mexia rápido. Olha, até agora seu coração bate acelerado!” Ela faz cara de espanto com a mão no meu peito. Sorri em seguida. “Teve uma hora que Flávia dormiu no telefone. Era minha vez de falar e, do nada, comecei a contar do dia em que chovia como hoje, quando eu tinha nove anos e eu e você estávamos no centro da cidade. Naquela época você me levava pro trabalho com você porque mamãe tinha voltado pra Recife, lembra? Eu adorava aquilo. Entrava no elevador, sentia aquele cheiro de elevador e você me deixava apertar os botões. Todo mundo sorria pra mim, como se eu fosse aguardada há muito tempo. E lá de cima dava pra ver tudo! Aquele monte de gente pra lá e pra cá, correndo da chuva; as nuvens num tom de ferrugem e de repente o estrondo. Não era trovão, mas ninguém me disse o que era. Todos ficaram apavorados, lembro de ouvir um grito. Você me pegou pelo braço e me tirou da janela. Fiquei sentada enquanto todo mundo falava e olhava pra baixo. Passou por mim uma senhorinha banhada em lágrimas; nunca vou me esquecer. Eu ri pra ela – ela era importante pra mim como você e mamãe; não sei porquê. A gente foi embora mais cedo naquele dia. Você apertava minha mão com força e andava rápido. A chuva era tão fina que nem abrimos o chapéu. Lembro disso porque só assim pude ver aquele objeto mágico sobre a cabeça de um homem de olhos puxados. Isso é importante, pai, presta atenção!” Acompanho de perto suas recordações. Lembro daquele dia como se fosse hoje. “Eu ficava olhando os guarda-chuvas, me perguntando porquê as pessoas precisavam deles se a chuva estava tão fraquinha. De repente apareceu um monstro verde, com dentões e garras. Ele olhou pra mim e disse ‘menina bonita, você sabe onde fica a rua Júpiter?’ Soltei da sua mão, sorri e apontei pro céu. Ele sorriu de volta e disse alguma coisa que não ouvi, porque você me puxou violentamente para dentro daquele mar de gente parada ouvindo as sirenes de ambulância.”


Ela se levanta subitamente e corre pro banheiro. Deixa a porta entreaberta e posso ouvir a urina batendo na água. A chuva volta forte. Aperta a descarga e abre a porta com o pé só pra não me perder de vista. Me olha, gira a torneira e deixa a água cair sobre as mãos. “Minha filha, foi naquele dia que o Seu Henrique, zelador do prédio, recém viúvo, pai de duas meninas, cometeu suicídio. Você se lembra?” Apaga a luz e vem se deitar do meu lado. “Ele estava conversando com você, fazendo aquela brincadeira que você adorava de adivinhar o que tinha na mão. Era só uma moedinha. Você pegou e ficou olhando pela janela. Então, ele abriu a janela ao lado, subiu na cadeira – era um sujeito de menos de um metro e meio, tinha uma cara muito engraçada, deixava aquele bigodinho sujo, lembra?” Ela acomoda o rosto preguiçosamente no meu travesseiro. “Aí, ele mergulhou no ar, né? E paft.” Sobe em mim uma emoção em forma de arrepio. “Essas coisas são muito tristes, minha filha. Não vale a pena ficar relembrando...” Ela levanta o rosto amassado do travesseiro e me olha com ternura: “Tá pai, mas você não se lembra do crocodilo de plástico?”

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Duas histórias que se cruzam num sonho.


De manhã, levantei zonzo, passei pela sala e notei as três sombras dos meus pais e irmão tomando café e suas vozes fantasmagóricas me arrepiaram. Entrei no banheiro com o sonho ainda latejando na cabeça. Escovando os dentes recebia mensagens ocultas da assassina assustadora, e o som dos gritos ainda me assustava por mais que o sol bonito das onze horas me esquentasse dizendo “está seguro aqui comigo!”. Sentei na mesa e peguei minha caneca, enchendo até a borda só de café - mentira, uma pequena força de expressão pra dizer o quanto o café era imprescindível pra todo o processo de afastamento do mundo dos sonhos. “mãe, sonhei com você essa noite...”, disse, mas depois me perdi porque meu pai não trouxe o pão que queria – o suíço – e aí, era dia dos namorados, e minha mãe tava reclamando do quanto tava velha e meu irmão tava calado às vezes, e outras dizia rindo qualquer coisa como cópia do que eu falava; ironizávamos nossa mãe juntos.

“Já foram três casos de dizerem que eu tô velha”, ela recomeçava, “primeiro, a professora de biologia lá da escola, que já tem mais de cinquenta anos, disse que eu parecia uma senhora...” – “Nada a ver, isso é porque você tava com a roupa toda fechada e certinha e o cabelo armado...”, dizia entre seu discurso, sem ser ouvido. Meu pai balançava a cabeça, e ela continuava: “...depois, Alan disse naquele dia que eu tô igual mamãe...” ela se esqueceu da terceira vez e partimos pra uma conversa estranha, sobre o filme de ontem e sobre a possibilidade de mudar de casa. Aproveitei pra reforçar: “Mãe, sonhei com você essa noite...” – “Como foi?” – “Sabe como nos sonhos os espaços são familiares e até lembram lugares daqui da Terra, mas são completamente diferentes e, às vezes, assustadoramente vazios... (não foi bem assim que disse, mas era isso que queria dizer) Eu sempre sonho com os mesmos cenários, só que eles vão se ampliando e nos mostrando novos caminhos... Enfim, ontem sonhei que a gente tava na casa da minha avó e que você era uma assassina, e tava todo mundo com medo de você, inclusive eu. Você tinha uma faca, ficava lá nos fundos e torturava umas mulheres, depois de ter discutido violentamente com elas; elas urravam de dor e você aparecia com o vestido cheio de sangue (é incrível como também nos sonhos eu nunca vejo os olhos das pessoas, mas sei quem são). Aí, eu, minha avó e o pessoal começamos a rezar lá do portão e os gritos pararam. Minha avó disse pra gente ir lá perto, mas Thiago, e os outros ficaram com medo e fui só eu e minha avó. Você tava com uma menininha no colo e a tinha esfaqueado no ombro; não lembro da expressão da menina. Eu e minha avó, de mãos dadas, começamos a rezar; tava morto de medo. De repente, Margarete apareceu do nada, bem na sua frente, e colocou a mão na sua cabeça e tal qual feiticeira, gritou umas coisas e depois eu me perdi... ela sumiu, não sei se foi esfaqueada ou se o sonho foi editado. Só sei que daí, eu peguei a faca da sua mão. Você tava estranha, parecia de volta a si, com os olhos em branco, tremendo... A menina também tinha sumido, e aí o sonho cortou pra outro dentro de um navio, onde acontecia um show.”

Olhei pra ela, minha mãe. Apesar de tudo, continuávamos a tomar nosso café como se nada tivesse acontecido. E nada de fato aconteceu. Mesmo tendo sido intenso, estava na minha cabeça, só afetava a mim. “E aí?”, perguntei. “E aí que você leu minha mente. Ontem, quando vocês tinham saído, eu fiquei aqui na sala, e me veio o pensamento se eu já tinha matado alguém em outra vida. Você tava lá fora, deve ter pescado meu pensamento e sonhado com a resposta.” Eu fiquei estranho, me arrepiei de novo, e engoli café pra ficar okay. “Mas só quem tava lá era eu, minha avó, Fátima, Thiago e Margarete.”, ela comia e falava normalmente, mas era torturantemente má no meu sonho. “Então, só vocês estavam comigo lá!” – isso eu não sei se ela falou mesmo ou eu pensei. Terminado o café e o assunto, minha mãe lembrou do terceiro caso onde foi reconhecida como velha: “Ah, lembrei: a garota da farmácia perguntou se eu queria desconto de aposentado...hahaha! Eu tô muito acabada, acho que vou precisar fazer alguma coisa no rosto... Vocês não vão me julgar se eu fizer não, né?” Meu irmão ironizou um pouco, rimos e fomos ler o jornal, lavar a louça, recolher a mesa, ligar o computador, meio que por aí, sem ordem ou distribuição justa. Fiquei procurando casas nos classificados e me perdi do sonho: esqueci legal mesmo. Minha mãe ficou na cozinha ouvindo Legião, e eu volta e meia ia lá só andar. Vi o lembrete do projeto social de música na geladeira, tentei gravar pra pesquisar mais tarde, mas esqueci de qualquer maneira. Meu pai resolveu colocar um dvd de pagode, e meu irmão o incentivou só pra me provocar e, em meio a suas risadas, eu esbravejei, xinguei e me enfiei no quarto com o resto do jornal.

No quarto comecei minha adorável rotina de domingo: não fazer nada e deixar que o sentimento de culpa cresça exponencialmente até que me possua por completo e me assole numa terrível depressão de segunda. Lá deitado, com o notebook quente na barriga, procurando casas e mais casas, pensando em possibilidades e planejando o resto do dia, me veio a vontade de habitar aquele mundo de casas reconhecíveis apesar de nunca vistas e ruas que só se ampliavam, em um caminhar que só fazia crescer um mundo, como se finalmente pudesse degustar cada centímetro do novo. Tudo ao redor pode ser surpreendente, há sempre uma nova perspectiva, mas quase nada tem sabor de novo, quase nada inspira curiosidade. Isso não acontece no mundo de quando a gente dorme. Os sentimentos são reais e são as fichas sempre apostadas, a intuição comanda e é livre. Queria estar lá sempre. Pensando nas horas que vinham, decidi assistir finalmente “A bela Junie”, que já está no meu pc há séculos. Só que quando decidi, meu pai foi comprar o almoço e eu escolhi assistir depois do almoço então. Mais uma volta minúscula e vazia de novo pela casa: geladeira, copo d’água, memorizando o aviso, olhando minha mãe, ouvindo minha mãe, estranhando. Que estranha estreia de dia. Almoçamos, saí do almoço como um foguete, engolindo a comida, reclamei das toneladas de açúcar no suco e cuspi na pia sob os olhos de ninguém, eu acho (agora que escrevo, percebo que talvez ela estivesse me observando já) . Assisti o filme, ainda na cama. Gostei do filme, tive aquela sensação de habitar o lugar com a alma, de sentir o frio das imagens, de ser o clima que é avisado pela meteorologia. Eu finalmente ia fazer o que sempre desejo fazer nesses dias, arrumar uma hora pra escapar da armadilha virtual e dormir, afogando minhas mágoas por não viver de verdade. O mundo dos sonhos é infinitamente mais maravilhoso que o da internet. Eu ia conseguir, mas minha mãe entrou no quarto quando ainda estava com o pc ligado, quebrando a possibilidade de passar a imagem de alguém que não desperdiça o tempo, mas que está cansado demais pra ele. Fiquei com raiva, e quando ela me pediu pra digitar as provas dela, eu fiquei de cara feia no escuro e disse: “Eu ia dormir agora, só depois [...] Tá, mas eu só faço quando quero! Gosto de fazer assim![...] Que saco! Já disse! [...] Eu faço quando acordar! [...] Se acordar! [...] A gente nunca sabe se vai acordar de novo!”. Ela ficou chateada, porque mãe sempre fica chateada quando filho brinca que vai morrer ou não acordar nunca mais. Disse que ia na casa da minha avó porque minha priminha tava lá, e eu pedi que mandasse um beijo pra ela, mas ela gritou que não ia mandar droga alguma; do lado de fora do quarto ela ainda gritava com meu pai sobre o que eu tinha falado. Só então percebi que já estava entrando... Estava sendo absorvido lentamente. Ia dormir, com frio, com minhas cobertas aconchegantes. Ia dormir no meio da tarde, às 17h36. O travesseiro macio, o celular gelado na mão, o óculos caindo. Fui dormir. Dormi.

O sonho.

Estava num trem, o trem de sempre, mas era Paris, mas era o de sempre mesmo. Tudo com o gosto excitante do novo. Era o mesmo horário da vida real, fim de tarde, nublado, meio cinza esverdeado, meio noite. Estava sendo perseguido e estava junto de duas amigas da faculdade, e ainda estava na faculdade, com livros e bibliotecas que só cresciam e cresciam. Seus longos corredores de luzes apagadas tinham aquela sensação familiar de constante surpresa. Ela estava marcando meus passos. No trem, articulava um plano pra não morrer, enquanto ouvia minhas amigas conversarem sobre coisas banais e rirem. As risadas soavam longe, como se estivéssemos em lugares diferentes; teorizo que estávamos, suas imagens nem estavam lá, não estariam dormindo também – Vanessa tinha que estar estudando no fim de semana. Não estariam dormindo, não estariam lá, mas partes secretas de seus cérebros participavam comigo desse esquema sonhado. Não me auxiliavam, serviam só de suporte imagético para aumentar minha confiança na salvação ou na realidade do sonho. Enquanto tagarelavam, e as outras pessoas do trem inexistiam apesar de estarem lá, eu senti a sua aproximação mortal. De vez em quando tinha lapsos de suas feições demoníacas, com rajadas de risos tenebrosos e raios literalmente saindo dos olhos; não era tão ridículo quanto aparece escrito. Eu fui preso quando cheguei no sonho, mas vivia me esquecendo disso desde o seu início. Fui preso quando cheguei na minha estação, mas na verdade ainda não estava lá, só sabia o que ia acontecer e que sairia correndo pela rua que levava à minha casa, e estaria sozinho, como sempre. Então, eu tive uma brilhante ideia para despistá-la: chamei um assassino rival, e ele estava no trem, ao lado do maquinista. Ela percebeu e, diabólica, voou sobre o trem demonstrando força e chamando o outro pra briga. O assassino rival caminhava de vagão em vagão, queria matar alguém também. Trazia um facão e queria enfiá-lo no meu peito, e ia doer pra caramba. Que burrice a minha! Que droga de plano. Nos sonhos sempre estamos sozinhos, e aquelas imagens de amigas já não me transmitiam esperança alguma. Elas eram nada, não me compreendiam, não podiam me ajudar. É estranho como o estar sozinho junto dos que se ama pode soar tão mágico e assustador ao mesmo tempo. Acho que é assim que os sonhos são pra mim: mágicos e assustadores. Mas os vilões são bem reais! Claro que isso é porque sempre dou mais atenção ao que está errado e crio vida nisso. Ele vinha, ela sumiu no ar e o trem parou na minha estação. Sabia que os guardas vinham me prender e que lutaria muito para me soltar. Eles não vieram. Já tinham vindo uma vez e o sonho não queria se repetir. Cortou para minha corrida - de repente, estava correndo - por essa rua escura aqui atrás da minha casa. Minha respiração dava sinais de ir ficando mais última progressivamente. Cheguei em casa e nunca me senti tão amedrontado. Lá, tudo que conhecia parecia tocado de fim. Cada coisa não me dava segurança, sumia em importância. Me vi dentro de um armário (que nem existe de verdade) dentro do quarto em que dormia na realidade. Sentia que estava ali junto de mim mesmo. Um dormia sem respiração, e o outro dentro de um armário que nunca vi, perto da janela. Ela apareceu! Voava, e arrancou as cortinas  com tempestade de raios e trovões que provocava com a mente. Não era mais minha mãe, mas sempre seria. Eu não gritei porque já ouvia com os ouvidos reais e eles não ouviam nada que vinha da parte secreta do cérebro. Ela pegou meu pescoço com as unhas. Não senti nada, porque meu corpo já recobrava a consciência dos 82 quilos em extremidades bem acomodadas. Ela não tinha mais poder de morte porque estava bem na minha frente, abaixada na penumbra, olhando dentro do meu sonho, me censurando, rindo sussurrado pra não me acordar. Ela fazia Shhhhhhhhhhhhhhhhh! com o dedo sujo sobre os lábios. Seus cabelos estavam despenteados, duros pro alto, sujos. Tudo estava sujo, mas eu não sentia o cheiro porque não era real. Quando abri os olhos dei de cara com ela, que riu com dentes estragados e me matou com seus olhos arregalados.

19h48. Só ouvi meu irmão rir na sala – tinha voltado – minha mãe tava na cozinha e eles se falavam de cômodos distantes, alto demais, e estavam felizes. Meu pai devia estar dormindo (eu não sei), não tínhamos habitado o mesmo mundo de qualquer maneira. Podia estar no computador também. Mas estávamos todos dentro de casa e, quando abri os olhos, apesar do escuro, consegui ver tudo que conhecia e isso me fez calmo: senti confiança na realidade. Toda vez que a gente acorda precisa confiar no que existe, não é? E eles estavam andando no cenário. Abri a porta do quarto: luzes acesas, estavam andando nessa maravilha de palco familiar. Olhei pra trás. Sabia que lá na cama, sobre meu travesseiro, restava a poeira da fuga, disposta a me ajudar no retorno. Minha mãe tava no quarto com meu pai, sentada na cama, procurando algum papel, organizando provas e ele no computador. Olhei meu irmão na sala, jogando video game. “Sabia que não era você?”, eu disse, me sentando ao lado da minha mãe, “Era tudo eu! Queria que houvessem outros, mas era tudo eu. Sempre foi.” Ela não entendeu, e continuou fazendo o que estava fazendo. “Não vai dizer nada?” Parou e me olhou: “O que você quer que eu diga?” Ainda estava zonzo da morte.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Retornável


Ontem tive minha primeira ejaculação presenciada e hoje meu avô morreu. Soube agora pouco quando minha avó telefonou pra minha mãe. Depois de chorar, gritar e quebrar a mesa – o que não tem nada a ver com o desespero, mas que pela força das circunstâncias aleatórias ou mesmo pela vibração extensiva do próprio desespero, veio a se partir ao meio e despedaçar no chão do nada, por desgaste natural (causa essa equivalente a do meu avô, diga-se de passagem). Nesse momento minha mãe já se foi com meu pai pra casa da minha avó e tá tudo em silêncio por aqui. Lucinha dorme. Minha irmã Lucinha tem seis anos; ela até acordou meio atordoada, mas eu a transferi pro meu quarto, que é lá nos fundos e ela nem percebeu que tinha acordado ou porque tinha acordado. O Júlio ainda tá no banheiro fazendo não sei o quê; acho que disse que ia tomar banho pra ir ver minha vó. Tá lá dentro há horas, minha mãe esmurrou a porta na despedida, dizendo “Você vai com a gente, meu filho?”, ele não respondeu e ela saiu sem xingá-lo até. É estranho isso que acontece quando uma coisa destrói nossa rotina. Minha mãe e meu irmão vivem brigando, eu sei que ele tá demorando no banheiro porque tá fumando uma bola e ela também. Em dias comuns ela até quebraria a maçaneta e nunca o chamaria de “meu filho” com tanta naturalidade. Acho que “meu filho” sempre esteve encubado no peito dela, esperando momentos oportunos pra sorratear por debaixo da razão materna, que impropriamente é sempre vencida pela emoção materna, mas que no caso da minha mãe, não impropriamente, não acontece.

Meu avô ainda esteve aqui em casa hoje, quem diria... Hoje mesmo eu tive um daqueles momentos de conexão com parente tipo aquilo que acontece em série de TV quando um personagem secundário faz parte da história principal do episódio. O lance é que meu vô tinha me falado na terça que ia vir aqui em casa pra mandar uma carta eletrônica – ele quis dizer e-mail, mas não lembrou – reclamando de um serviço de plano de saúde aí. Hoje de manhã o velho sacana me acordou pra me dizer que tava saindo de casa e ia no banco pra depois vir aqui. Me levantei sem vontade e fui até tomar banho, mas nada dele aparecer. Na hora do almoço ele tocou a campainha e eu digitei a parada e mandamos pra empresa. Ele ainda quis que eu imprimisse porque queria mandar carta real também e pediu pra tirar o extrato do INSS, fazendo as piadas de costume. Almoçou aqui, reclamou da comida sem sal, teve um ataque de tosse de tanto rir de uma besteira que minha avó fez um dia desses na fila do mercado (envolvia somente uma tigela peito de galinha de marca duvidosa e o preço do rolo de papel higiênico. Não vi tanta graça assim), e depois discutiu com meu pai sobre o preço do remédio pra pressão em comparação ao antidepressivo – meu pai é um veterinário falido, agora dono de farmácia, mas meu avó não compra com ele porque reclama dos preços e porque ele come sua filha – Enfim, o dia foi uma verdadeira festa pro meu avô, aí no fim, de noitinha, ele inventa de morrer.

Resolvi mandar uma mensagem pra Sabrina, minha namorada e espectadora da nossa primeira ejaculação (digo “nossa” porque ela tem grande mérito na parada e ela nunca quis dar também. Já faz mais de um mês que estamos nessa juntos e sempre respeitei sua dificuldade em relação ao sexo, mas aí ontem ela veio com essa história de que era muito difícil pra ela também, e que às vezes ela racionaliza demais e que nem tudo que diz é o que realmente quer... blablabla, aí eu pedi pra tirar a calcinha e ela não quis. Ficou tirando minha mão de lá a cada nova tentativa. No fim, ela deixou eu ir numa visita guiada e passou minha mão por dentro da calcinha e em cinco segundos pude sentir seus pelinhos úmidos. Em vista de tanta maldade da garota, eu avisei que se ela tava afim de não sentir prazer, o que eu queria era o contrário e pedi pra ela me ajudar a sentir e comecei a me masturbar; antes, pedi pra ela não olhar pra baixo, claro. A voz da Sabrina me deixa louco e ela sabe como eu gosto quando ela passa a língua no meu pescoço e morde minha orelha. Nossa, e aqueles lábios! Dá vontade de morder, chupar, sei lá, são como uvas suculentas... E quando eu tava quase lá, meu braço meio dobrado numa posição desconfortável, com minha mão acariciando o bico firme do peito dela, ela subitamente resolve fazer o suprassumo da coisa toda: começou a gemer no meu ouvido. Eu nem tava aí pra saber se era autêntico ou não, quando eu vi, o esperma tava por todo lado, inclusive na mão da Sabrina. Ela me olhou tão assustada, coitada. Quando foi embora, eu perguntei se tava tudo bem, mas ela ainda mantinha o choque no olhar. Respondeu apenas que “sim”. Ela não é falsa, se tem uma coisa que gosto nessa garota é a capacidade de não se importar com as regras das coisas, tudo que ela sente ela me diz; sou um bobão por me sentir tão especial. Ela disse: “Não, tá tudo bem... Eu só tô meio confusa. Você entende, né? Eu me atrasei, minha mãe deve tá puta, foi a primeira vez que presenciei seu esperma, e foi meio forte, uma vez que ele foi parar na minha mão. (ela riu sem graça) Esse primeiro contato foi meio abrupto, não tem como você negar. E sua mãe aí do lado, cozinhando, seu pai, sua irmãzinha! Dá pra ouvir ela no patinete. Ah, sei lá... É nóia minha, mas passa. Tudo num relacionamento é feito de primeiras vezes e daqui a pouco isso vai ser natural. Eu sou bobona mesmo. Sábado a gente se fala, ok?” – se tem uma coisa que eu odeio nessa garota é que ela fala pra caralho! – “Ah, me leva no ponto, sim?”, Esqueci disso, ela é muito fofa; eu fico babando toda vez que ela me pede isso meio envergonhada. A minha mensagem foi simples, mas sei que ela não liga por eu soar frio. Uma vez me disse até que isso a atraia, e mesmo assim ela não liberou até hoje... “Ei, meu avô morreu.. Eu sei que você dá aula, mas passa aqui amanhã de manhã.. Eu tô mal, preciso de vc! Bjs...” – simples, curta e real. Eu realmente tô fudido!

Eu nunca ouvi alguém falar que tá fudido quando tá triste, é meio que coisa minha. A primeira vez que transei com alguém foi com uma mina que tinha namorado, aí o cara veio pra cima de mim quando soube e arrancou meu couro bonito. Quando cheguei em casa naquele dia minha mãe ficou super-preocupada e tal, mas aí os dias passaram e ela veio falar comigo com uma cara horrível, dessas de mãe quando tá muito chateada, que tem um quê de decepção escorrendo. Ela tinha falado com um amigo meu pelo msn que eu deixei aberto e a velha se passou por mim quando ele foi logo se abrindo. Puta que pariu, quem é o viado que começa uma conversa dizendo: “Eu soube o que aconteceu entre você e a mina do Tubarão! Mandou bem, compadre!” Minha mãe só fechou a porta e disse, irretocável: “Eu tô muito triste com sua atitude recente! O que você fez mina qualquer direito seu de ser respeitado! E o pior, tendo a educação que você tem e tendo passado o que todos nós passamos juntos quando sua avó fez o que fez por conta do seu avô, me destrói ver que você seja tão insensível comigo e com seu pai!” Ela levantou da minha cama e se virou de costas pra sair. Eu ainda fui idiota o suficiente pra perguntar: “Eu tô de castigo?”, ela voltou a cabeça na minha direção com os olhos marejados, mas ainda convictos. Evitando a necessidade qualquer resposta, ela balançou a cabeça e saiu. A única coisa que me veio na mente naquele momento foi “tô fudido!” E não sem motivo, a gente tá verdadeiramente fudido ou ferrado quando sabe que tá no fundo do poço das emoções e que não tá lá por nada, tá lá porque se jogou de tanta vergonha, e o escuro dali tem cheiro de merda mesmo. E tristeza pra mim é a pior vergonha do ser humano. Minha avó por parte de pai se matou depois de descobrir que meu avô tinha um caso fora do casamento, não sei exatamente o que foi, mas acho que era uma conhecida da família, eles tinham filhos juntos e tudo, mas minha avó, eu acho, sempre foi muito orgulhosa, era de elite decadente e mantinha certa postura; aquilo foi o fim pra ela, e foi um fim tão fim, porque era uma impossibilidade, um absurdo... Essas são minhas teorias pro caso, no mais, eu tinha só treze anos quando tudo aconteceu, treze ou catorze, mas lembro que isso foi muito discutido aqui em casa. Minha mãe tava grávida e ficou dando lição de moral pra gente, os homens da casa. “Tudo que eu peço a vocês é que sejam homens de bem e respeitosos com quem quer que seja, mais principalmente com a mulher de vocês!”, ela dizia sempre; até hoje ela me diz isso. Então no dia que eu me fiz de meu avô paterno, eu me senti o mais fudido dos homens e nunca mais quis saber de garotas por um bom tempo. Acho até que foi por isso que passei no vestibular. A gente jovem sofre essa pressão pra colocar os relacionamentos amorosos no topo da lista de tudo, mas não devia ser assim. Somos tão jovens pra temer a solidão. Minhas amizades são até hoje as coisas mais importantes da minha vida, elas me ajudam a lidar com a dependência e me mantêm quase que cronicamente feliz, penso ser por isso que tô com a Sabrina; antes de engatarmos o namoro, fomos amigos por um ano, depois ela sumiu e quando voltou, aí rolou. O que sinto agora é tão ruim quanto o que senti há seis anos atrás. Eu tô triste, mas não consigo chorar. Só fico repassando a imagem do meu avô aqui em casa hoje de tarde. Ela vai e volta na minha mente... Vai e volta. Estive sentado no sofá, olhando no escuro meu avô almoçando no sofá da frente, rindo, cuspindo sem querer alguns grãos de arroz. Eu também sinto vontade de rir às vezes, mas também não dá. Meu irmão passou por mim e disse alguma coisa; saiu de moto. Eu continuei no sofá pensando em tudo: no meu avô, na Sabrina, na resposta da Sabrina (“Estarei aí assim que acordar!”), na minha mãe chorando desesperadamente, na minha mãe chorando contida, na minha avó que acabou do nada, ficando pra sempre fudida e nos deixando fudidos, no meu outro avô canalha, em mim canalha, em porque eu forçava tanto a barra com a Sabrina, no meu avô comendo de novo, nos grãos de arroz, na sua risada, no seu sono eterno, no meu sono... Quando acordei ainda era escuro e fui pra cama do Júlio só pra dormir mais um pouco.

Ouvi o som da TV ligada e gente conversando alto na sala. Nossa, eu babei no travesseiro! Faz séculos que eu não babo no travesseiro... A sensação da cara amassada só ocorre plenamente junto da sensação do cérebro comprimido, quando você tá com aquela dor de cabeça pesada acima dos olhos, que não dói de maneira aguda, que fica mais prum grave potente. Sabrina tava sentada bem na minha frente, junto da mesa do computador, me olhando.

- Você tá aí há muito tempo? – perguntei.

- Tempo suficiente pra te ver dormir profundamente. Agora pouco você foi ficando com uma respiração mais rápida, mais normal; foi bem sutil. É estranho como ninguém repara no retorno. Mas enfim, você fica muito fofo dormindo e mais fofo ainda ao acordar todo babado e descabelado. – Ela riu e se sentou na cama, alisando meu cabelo, ainda com semblante feliz. Eu fiquei pensando no retorno, e foi aí que ela mudou do nada e ficou séria. Quando vi, percebi que era um movimento anunciado e que a sobrancelha agiu na frente, seguida do olhar parado e dos lábios na horizontal perfeita, e as bochechas também ficaram firmes quando ela disse: “Eu sinto muito pelo seu avô!”. Notei minha loucura e recebi de presente um beijo nos meus lábios recém-desgrudados.

- Você tá louca? – eu disse em seguida, querendo mais – Eu tô bafudo!

Ela me surpreendeu confirmando minha afirmação num tom irônico e me deixando só com pensamentos preocupantes. Pensei que ela ia me deixar. Que sua saída do quarto representava sua exclusão total da minha vida. Ela saía e ia caminhando devagar pelo corredor, passava pela geladeira, roubava um imã que me deu numa feira na praia, passava pelo banheiro, vendia drogas pro meu irmão, e de repente ela era a culpada pelo drama daqui de casa, pelos problemas do Júlio, ela ria sacana e passava pela sala. Notava meu avô comendo ainda no sofá e ria junto com ele, ela ria mais alto e mais alto, eu só a perseguia, mas não podia me aproximar. Ela abria a porta da frente e saia pro quintal. Ela passeava no quintal, ria e se admirava com tudo, mantinha um tom melancólico de despedida pairando nos meus olhos, nos seus olhos loucos. Nossos olhos se encontravam no portão e ela me encarava firme, com lágrimas à espreita, e sua voz me dizia que sou um homem desrespeitoso, porém ela só me encarava de boca fechada. De repente abriu o portão e correu. Correu rápido, correu longe. Fugiu. Quando acordei já tinha vomitado em cima da cama.

- Puta que pariu, seu imbecil! – meu irmão entrou no quarto, com cara de zumbi. Provavelmente não tinha dormido. – Minha cama, cara! Ah não!

Ele falou “ah não!” tão engraçado que eu pensei que fosse chorar igual eu fazia quando ele mexia nas armas dos meus power rangers e trocava tudo de lugar. Minha mãe nem ligava, mas aquilo parecia o fim do mundo pra mim. Outro dia descobri que a Kimberly fez um série chamada Felicity. Fiquei meio viciado por dois dias; era uma série que me deixava tão triste e power rangers eram pra ser divertidos. Foi aí que descobri a incoerência de tudo. Eu tomei logo meu banho e coloquei o lençol e a colcha do meu irmão pra lavar. Na sala, minha mãe, minha avó, meu pai, meus irmãos, Sabrina e minha prima Elisângela estavam prontos pro velório. Só então percebi que eram três horas da tarde. Olhei pra baixo, meio com vergonha, meio olhando minha roupa, e ela tava adequada, nem tão branca, nem tão preta. Coloquei uma camisa que meu avô tinha me dado – esses sentimentalismos ainda me são estranhos, parecem tão forçados. Mas quando comentei isso com a Sabrina dentro do carro, ela disse que não é forçado, é natural. Mas ela não disse bem natural, ela disse de outro jeito, mais complicado e lógico, que eu não sei explicar. Disse exatamente: “Eu não vou te dizer que não é forçado, é! Mas também não deixa de ser uma conexão e um instinto natural. Você, fazendo isso, tenta dizer a si mesmo que nada mudou e que a conexão entre você e seu avô está sendo renovada nesse dia.” Ela olhou pra minha cara, e eu lembro desses olhos porque eles não queriam fugir. “É natural!”

Paramos antes na casa de uns tios e fiquei sabendo que o velório começava às cinco. Fiquei encucado em como tudo é rápido quando uma pessoa morre. Meu avô morreu ontem de parada cardíaca, cardiorrespiratória – soube disso também em recortes de conversas. Eu podia ter parado de respirar ao invés de retornar do sono hoje cedo! Eu nunca dormi tanto e a Sabrina seria testemunha; esperaria, esperaria, esperaria meu retorno, mas eu ia decepcioná-la e ela ia chorar sem reter uma lágrima sequer. De ontem à noite pra hoje às cinco horas da tarde são umas vinte horas e, por incrível que pareça, está tudo certo: o caixão já foi providenciado, os médicos não atrasaram no diagnóstico da morte e na liberação do corpo, a vaga no cemitério já foi comprada sem dor de cabeça ou dúvidas de última hora e ninguém vai faltar ou chegar atrasado à comemoração – mesmo assim, todos choram. Não é incrível?

Estou no cemitério, estão todos lá. Sabrina tem minha mão na sua e aperta com força; ela chora, é apegada aos avós. Minha mãe chora, vejo que entre uma lágrima e outra, ela olha pra mim e pros meus irmãos e noto, com surpresa nos meus olhos também úmidos, que seus olhos trazem amor ao nos olhar. Uma espécie pausa para o amor. Minha avó reza em homenagem ao meu avô. Ela é cristã, mas não segue uma religião específica e quando abriu a boca falou como uma verdadeira ouvinte do coração de Deus, eu acho. É isso que se diz, certo? Ela parecia entender o que aquilo significava pra Deus e pra todo mundo. Assim, ela disse coisas belas demais e de menos tristes. Começou apresentando meu avô ao mundo quando o mundo a apresentou a ele. Falou do casamento, do primeiro filho – tudo num tom de prece, sem que o enredo fosse uma narrativa – Ela ia desvendando meu avô aos poucos e nisso eu ia descobrindo a razão do dia, de ontem, da morte dele. Era como se ali restasse o que era dele pra nunca ele, e sempre aqui, na minha cabeça, ele, memória que ardia o peito, realeza mais sublime do real eterno. Eu chorava e quanto mais chorava, mais me alegrava. É como a Sabrina disse: nada mudou! Aquilo era belo, mas ilógico. Por mim podiam jogar o corpo dele numa ribanceira e celebrar com um copo de cerveja e um Viva! enfático. Uma salva de palmas seria bobeira também. Meu avô tá lá na sala, e tá naquela pescaria sem graça de mês, e tá lá na cozinha atazanando a minha avó, tá cobrando educação dos netos à mesa, tá vibrando com a natação da Clarinha, minha prima, em dias de competição – ele não perde uma! – ele tá também lá no canto do quarto ouvindo seu Elvis escondido, meio com vergonha, e eu e meu irmão estamos na janela rindo. Meu avô agora, só agora, tá fazendo uma coisa que nunca fez na vida: ele tá voando! E quanto mais eu olho, mais alto ele voa, e eu aceno e sorrio, aceno e choro e sorrio de novo. Ele sempre sonhou em voar de avião, mas nunca como passageiro, queria pilotar. Ele tá voando agora e isso me deixa feliz por ele. Quando o corpo foi enterrado, nada mais sobrou pra ver, meus pensamentos não tinham mais nada pra encontrar. Voltei a sentir a mão de Sabrina na minha. Retornei.

- Ei, Sabrina, meu avô morreu. Eu sei que você dá aula, mas passa aqui amanhã de manhã de novo. Eu tô mal e tô bem, preciso de você...

Ela me olhou, piscou e se aproximou pra beijar meu ombro delicadamente. Depois, inspirou meu cheiro, roçando o nariz na blusa que meu avô me deu. Por fim, falou baixinho, perto do meu ouvido: “Estarei aí assim que acordar!” Eu fechei os olhos e guardei aquela imagem, ejetando minha última lágrima do dia. Ontem meu avô morreu e hoje tive meu primeiro amor presenciado, e ele tinha um jeito muito bom de nunca mais!

sábado, 2 de outubro de 2010

Texto errado persistente


A areia foi entrando pela boca, me sufocando de grão em grão. Preencheu meu pulmão e o tornou duro feito pedra; o ar doeu. Respirei forte pelo nariz, numa tentativa de recuperar a facilidade de viver, mas acabei por misturar catarro à volumosa massa de areia. Entupi e cuspi. Foi então que o desespero deu o primeiro passo: comecei a me debater, ansiando por fugir dali e sentir a emoção de escapar, estar a salvo de um perigo que não foi perigoso o bastante para me aniquilar. E observá-lo de longe achando tudo engraçado. O alívio. Todavia, esse instante agonizante nunca cessava, e a questão da eternidade causou-me um temor triste. Entreguei-me às lágrimas. A areia foi descendo e encontrando todos os espaços deixados vazios até chegar ao coração. Então, disparou pelo corpo um calor incomum de felicidade; um que pelo inverso subia. Voltei minha mente à uma conexão celestial. Rezei, rezei e chorei. No fim, misturei tudo: lembranças perdidas e resgatadas, sofrimentos arrependidos, carinhos infantes, uma loucura adolescente de fuga eterna, a virgindade dos encontros verdadeiros, braços abertos como feridas fraternas, caminhada frustrada de homem, a imagem de indescritível realeza, que entendi como amor - vomitei! Arrebentei minha garganta com as unhas, chamando a visão infernal do ódio vermelho enlamado na areia. Meus olhos piraram, virando pra dentro e encontrando meu coração quase em cima. Ele pulou para fora pelo buraco aberto na garganta. Fugia pra longe. Não permiti, mas meus braços já não se mexiam. Pensei em explodir. As vitórias derrotadas com êxito sublime pela desistência da vida foram premiadas com a morte dum corpo cuja alma também pereceu, tenra e ilusória, fechada em si. Fiquei errado.