sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Foz



Penso aqui enquanto leio poesia. Tô sentindo aqui uma tal agonia. Revejo coisas, memórias daquele dia repleto de rostos, passos e algazarraria. Repetidamente, você passa por mim. Um passa e some sem fim. Você me dá um esbarrão e subitamente te acho na multidão. E te perco então. É esse o movimento da gente. Te comento com alguém, você existe. Te lembro comigo, você persiste. Quero é abandonar isso de te achar. De ficar achando e perdendo até cansar. Se te sussurro, você caminha forte e presente. Se pisco, já some, ainda presente. Quero te pedir em ultimato que fique. Ou vá, sem hesitar. Vá! Pois gosto de tu, meu xará. Fico imaginando se me reconhece tão bem também, ou passa por aí sem me notar? É provável que não me veja, só me esbarre. Porque faço barulho não, sou remendo e eco da multidão.

Esse último ato imita o primeiro: vem meu olhar te buscar faceiro e você me aceita num talvez, então te despisto com voz, tatuagem e timidez. O ensejo pra beijo já se fez. A boca esquece as palavras e se alonga, tomando o idioma da língua já tonta para dizer sobre eu e você enquanto ocasião. Passo a descobrir teu corpo com as mãos. A inspirar teus cheiros, pelos e apelos pelos meus pelos, cabelos e cheiros.

A brisa salgada desvenda nossas semelhanças e oculta as dessemelhanças. Sua mente finalmente desabrocha, tal dama da noite que escolhe a hora. Percebo que fui vítima de apaixonamento precoce. Nem o horizonte mais me acolhe, já que me estendi para além do sol posto, pensando ser suficiente esse teu gosto. Mas não é. E nem se quer ser.

Fico quieto em casa até esbarrar de novo contigo, pensando em como te inverter para amigo, mas o mar que aqui está aumenta a gritaria do coração. E é cada encontrão… Quanta distração! As ondas quebram, batem com força. Sou pedra desfazendo à toa. Viro um monte de pedrinha miúda que uma hora chega na areia difusa. Pode alguém recolher e guardar ou de volta na água me arremessar. Costumo voltar, trazido pelo teu silêncio, temendo ir quebrando até me tornar algum contrassenso.

Agora, nesse mesmo hoje mareado, quando te vejo passar de longe, despreocupado, não mais anseio roçar meu ombro no teu, desejo apenas que teu olhar encontre o meu, por um tempo assim ligeiro, e que depois nos percamos no cenário inteiro.

É a despedida então que se avizinha. Caminho refazendo outra rota, onde deixo tua imagem lembrada ir embora para que o sem você possa vir a ser. Carece paz na cabeça e no peito porque essa agitação do mar bate é de jeito… Despedaça, desintegra, quebra toda vida… vai pedrinha e volta partícula indefinida. Mas ó que areiar até que faz bem. Já posso me espalhar até desencontrar. Faço que rio, sorrio pro sol e agradeço ser rio. É foz de domingo nessa sexta dezessete. Agradeço às palavras pela fluidez desordeira. Penso aqui no quanto esvazio a poesia.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Via whatsapp


Oie
Olar
Tudo bem?
Sim e tu?
Tranquilo
Vi dois pombos brigando hoje.
Uau.
Eles bicavam os olhos um do outro. Crueldade pura.
Puta merda!
Tentei tirar foto, mas não consegui.
Ué, por que?
Porque tinham pessoas na rua.
E daí?
E daí que podiam querer meu celular.
Roubar?
É.
Ué.
Pois é.
Menino, deixa eu te contar.
Hum?
Fui na casa de uma menina ontem que era idêntica a sua irmã.
Nossa!
Ela faz crochê e trabalha num salão de cabeleireiro.
É a mesma pessoa.
E é de câncer.
Não pode ser. Minha nossa!
Né?
Doppelganger.
Mas então, ela é filha única.
Eita.
É.
Um instante.
Ok.
...
Que houve?
Minha gata ficou presa no ralo da área.
Que lerda!
Né?
Mas tadinha também. :/ Como isso aconteceu?
Colocamos veneno no ralo pra acabar com as baratas.
Ahhhhh. E a gata?
Não sei. Espero que sobreviva... :(
Meu deus... Que triste.
É.
Que merda.
E eu que só existo nessa dimensão?
Não se sabe ainda.
É.
Que vai fazer mais tarde?
Dormir. E tu?
Ainda não sei.
Quais as opções?
Jogar Assassin's creed, fumar ou dormir também.
Melhor dormir.
Não tenho conseguido.
Uai? E quer?
Quero.
Então deita e fecha os olhos.
Ok. E depois?
Depois vai esquecendo.
Hum.
Vai deletando o dia, imagem por imagem, som por som, palavra por palavra.
É, só tenho digitado.
Então: palavra por palavra.
E aí?
E aí apaga.
É isso?
É.
Só?
Só.
E tô dormindo?
Está.
Ok.
Disponha.
Obrigado.
Disponha.
Té té.
Valeu, falou.

Na tarde de terça-feira, uma mulher empurrava um carrinho de supermercado com sacos de comida e coisas velhas pelas ruas calmas de um bairro domiciliar. Ela tinha uma barriga grande e redonda, como de uma grávida, mas era velha, com rosto repleto de rugas, cabelos finos e brancos e dentes faltando. Arrastava o carrinho fazendo barulho e parava de casa em casa tocando as campainhas para pedir doações. Um garoto que passeava com um labrador se dirigiu até ela perguntando se tinha uma sacola plástica para dar. O cão havia defecado na rua - ele apontou. A mulher respondeu instintivamente que não, mas depois pensou melhor e procurou em suas sacolas maiores. Encontrou um saco amarelo e entregou ao rapaz, que agradeceu com um sorriso. Ela não sorriu de volta e foi tocar a campainha de uma casa de número cento e treze. O rapaz recolheu as fezes e assobiou para o cachorro, que o seguiu. A mulher, cujo nome não se sabe, seguiu seu dia e o dia acabou nove horas depois. Esse havia sido o último dia da sua vida. À noite, já em casa, tomava água e infartou. O carrinho estacionado ao lado do sofá de retalhos, escorando a porta de madeira velha. O barraco só não aguentava chuvas muito fortes, nos demais casos era uma benção, conforme pensava a mulher. Naquela noite não choveu e a vida de muitos se seguiu inalterada. 

domingo, 3 de janeiro de 2016

2016


Esse blog nasceu em 2010 com a proposta de publicar contos e crônicas. Com o passar do tempo, a cada ano, menos publicações, menos histórias. Não que não as vivesse, imaginasse, só não escrevia. Disciplina é liberdade, disse Renato Russo. Nesse tempo de escassez, mudei radicalmente, tive experiências novas e maravilhosas, conheci uma gente fantástica que acabei amando, me amei, quebrei a cara, voltei, continuo quebrando, mas bem tranquilo para expôr as rachaduras. Escrevo agora para assumir um compromisso de escrever uma história por semana ou quatro por mês ou doze por trimestre ou vinte e quatro por semestre, mas que sejam quarenta oito no fim das contas, no pular das sete ondas. Também assumo o compromisso de um desenho por dia, média de três livros por mês, prática diária de ioga, atenção contínua à alimentação e reflexões no fim de cada dia com a cabeça no travesseiro e os olhos fechados visualizando estrelas. Nunca tive compromissos manifestos, então meu verdadeiro compromisso é manter meus compromissos, entoando os mantras "disciplina é liberdade" e "põe fé que já é".

Era uma vez um menino chamado Diego que viveu 25 anos e que, em 2009 entrou pra faculdade de psicologia, em 1996 ganhou um casal de primos e chorou a morte dos Mamonas Assassinas ouvindo repetidamente a fita k7 com a gravação da notícia, em 1990 nasceu, relutante, após quase ser enforcado pelo cordão umbilical e arranhar todo o rostinho magro, em 2001 viu a programação da tv globinho parar para assistir duas torres desabarem em chamas sem entender muita coisa, em 2004 se formou da oitava série e ficou meio perdido e mais tarde descobriu que 2004 foi um ano mágico porque foram lançados "antes do pôr-do-sol" e "meninas malvadas" e o melhor álbum da Alanis Morissette, chamado "so-called chaos" exatamente em 18 de maio, quando completou 14 anos, em 2008 perdeu a virgindade com um estranho extremamente carinhoso e fez teatro na central do Brasil mas desistiu em tempo de não se apresentar na peça final, em 2000 confeccionou um cartaz sobre assuntos ecológicos com sua amiga Kely, que gostava dele, em 2011 teve um ano bem ruim, presenciando alguns suicídios e embarcando num vazio cavado dentro de si mesmo, em 2013, ele próprio tentou o suicídio após um colapso emocional, em 2002 deu um tapa num menino que o provocou e ganhou uma advertência que escondeu dos pais, em 2012 viu o mundo não acabar e foi ao cinema vê-lo acabar, em 1991 ganhou um irmão, em 1993 o jogou no chão e ele desmaiou, em 2003 cresceu demais e achou que estava apaixonado por uma menina do colégio mas tinha atração sexual por alguns meninos, em 1999 levou uma bronca da avó por ter tomado banho depois de almoçar, em 1998 não conseguiu achar luvas brancas para desfilar no sete de setembro, em 1997 seu amigo fez cocô no meio de uma aula e ele não saiu do lado das fezes até uma colega de classe mandá-lo trocar de cadeira, em 1994 chorou no primeiro dia de aula sentado na última carteira, em 2007 foi obrigado a participar da formatura do ensino médio, mas todos seus dois únicos amigos faltaram e se sentiu estúpido, em 2005 tirou notas muito boas, em 2006 tirou notas menos boas, em 2015 conheceu a ioga e abandonou a monografia e se sentiu feliz em seu próprio corpo, em 1997 deve ter dançado chiquititas em todas as festas de criança a que foi convidado, em 2014 foi pra Juiz de Fora e Buenos Aires, em 1992 foi bebê ainda, muito amado, e em 1995 teve uma baita festa de aniversário com o tema de TV Colosso e dois palhaços como animadores, mas chorou em determinado momento e se escondeu. Em 1989 não existia ainda. Em 2016 ainda existe até às 17:37 do terceiro dia.

(desenho de Monica Ramos, disponível em http://monicatramos.tumblr.com/)

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Mãe e filhos


Rádio: Então, meus amigos, nós não devemos temer a morte pois todos vamos deixar essa existência um dia para acordarmos na vida real. Os medos que criamos aqui são desnecessários. Porém, como não sabemos quanto tempo temos, devemos nos preparar e cuidar dessa existência encarnada como quem cuida de um jardim. Sejamos jardineiros tranquilos e afetuosos. Valorizemos essa oportunidade maravilhosa que é estarmos vivos! Temos nossos momentos de tristeza, dúvida, raiva. Sim, temos. Meus amigos, nesses momentos, devemos ler um parágrafo, dois parágrafos do Evangelho. Ou mesmo uma página se o tempo permitir...

- Se o tempo permitir?
Se tivermos tempo sobrando.
- Tempo sobrando?
Tantos afazeres nessa vida corrida.

O que há de errado comigo? Por que tenho tanto tempo de sobra? Por que ouço o mundo todo reclamar de falta de tempo e mesmo assim acordo meio-dia e como um pedaço de bolo com cobertura de chocolate e passo as próximas horas vendo pornografia ou facebookeando - não necessariamente nessa ordem? Por que a diferença? Não quero ser diferente.

Mensagem no whatsapp: Oi meu filho, seu pai te ligou? Se for possível, transfira 160 reais para minha conta no Bradesco. Estou com o dinheiro aqui, mas não tenho tempo de sair e preciso depositar antes das 16h.

- Oi?
- Transferir.
- Pede pro meu irmão. Ele já está na rua. Acabei de acordar.

* * *

- Eu não tenho mais tempo pra isso. Tenho 25 anos! Não dá pra continuar assim.
- Tira a camisa pra eu ver!
- Eu não posso continuar nessa vida. Pra mim já deu. Que merda é essa? Que merda sou eu?
- Anda logo, tira a camisa! 
- Ok.
- Puta merda, você tá muito magro mesmo. Tá tomando a parada certinho?
- Sabe como é, uma vez que você se acostuma, já era.
- Para de falar merda! Isso é coisa de viadinho adolescente. Você não quer mudar de vida? Não tava agora mesmo aí choramingando que tem 25 anos e não tem porra nenhuma? Abre a boca! Deixa eu ver como tá a situação aí.
- Hum... Ok.
- Puta que pariu! Você tá todo fodido! 
- Muito trabalho, né. 
- Tu voltou a chupar pau?
- Não, não. Só continuo o vício, sabe? Não tenho fome e quando tenho, como demais.
- Para com essa porra! Já te falei que é coisa de viado.
- Ok.
- Se tu precisar falar e tal... Se tiver se sentindo mal, me liga! De verdade aê. Só ligar!
- Ok.
- Sou teu amigo antes de tudo.
- Ok.
- Cê acha que vai dar pra quebrar essa?
- Dívida é dívida, né?
- Ô, sou teu amigo porra! Tô aqui como um amigo pedindo prum amigo quebrar um galho. Tem essa de dívida não.
- Ok. Acho que dá sim.
- Bota essa língua pra fora! 
- São quantas cápsulas?
- 20.
- Caralho! 
- É.
- Caralho! Que merda.
- Ah, não não! Não! Nada de chorar na minha frente! Sabe que sou coração mole. Se tu não puder eu vou entender.
- Não é nada disso não. Eu só tenho pensado muito na vida. No que eu fiz até aqui. Porra, eu não tenho nada, ninguém. Sou nada. Eu me olho no espelho e me vejo sumindo. 
- Vai ser difícil te deixar de boa com os caras lá. Eles queriam você embarcando amanhã. Eu posso até tentar. Mas vai ser difícil. Sabe como a parada com eles é só números, lucros e tal. 
- Acho até enraçado isso que me aconteceu. Foi até tarde. Ou cedo. Sei lá. Se por um lado eu tenho 25 anos, por outro, eu já vivi coisas tão surreais. Meio que à mercê do acaso. Fiz muita merda! Não tem como não achar graça. Mas não tô feliz. 
- Você deixou um rombo muito grande. É difícil passar por cima de uma coisa dessas. Você é realmente maluco.
- Caralho, eu tô rindo, mas não tô feliz! Você tem noção do que é isso?
- Para de falar coisa sem sentido! Tô virado, com uma puta dor de cabeça e não tô nem um pouco no clima pra suas babaquices. 
- Eu vou fazer! Que horas amanhã? Eu vou fazer!
- Aí ó, são os filhas da puta me ligando!
- Pode falar para eles que eu vou fazer. Enfio pelo cu, é mais tranquilo.
- Esse é meu garoto! Seu putinho sacana!

* * *

Reprise no rádio: Meus amigos, nesses momentos, devemos ler um parágrafo, dois parágrafos do Evangelho. Ou mesmo uma página se o tempo permitir. Fazer o culto do Evangelho no lar é de extrema importância para manter um ambiente harmonioso. Lembremos que nossas casas devem ser local  de cultivo e exercício da paz e do amor. Todos os dias, meus amigos, é preciso olhar nosso familiar e amá-lo e perdoá-lo. Não é fácil a convivência em família, mas é preciso tentar, já que as famílias são o gérmen da sociedade. Se não cuidarmos de quem nos é mais próximo, não daremos conta de fazer da Terra um lugar melhor no futuro.

Ué, os meninos deixaram o rádio ligado? E alto ainda por cima! Eles não tem noção da hora. Olha aí, ninguém colocou o lixo também! Mais um dia acumulado. Já tá cheirando até. Se eu não lembro, eles simplesmente não fazem. Impressionante! Hum, não tem nada de bom nessa casa! Tenho que fazer mercado esse final de semana. Não posso esquecer, tenho que anotar. Vou tentar arrastar o Dani comigo. É mais que obrigação dele levar a mãe no mercado, não é? Não gosto de ser esse tipo de mãe que depende dos filhos, mas não é nada demais. Ele faz parte da família. Come e bebe aqui. E esse carro não é só dele. É da família! Sem contar que não faz nada o dia todo. Aliás, tô preocupada com esses dois. Um só vai a faculdade quando quer, outro, nem sei. Ah meu Deus, eu já falei com o Lipe para ele procurar outro trabalho. Essa coisa de motoboy não é segura. Tanta notícia que a gente vê por aí. E ele tem estudo, poxa. Acho que o Lipe tem um sério problema de autoestima. Isso me deixa tão triste. E acho que ele tá entrando em depressão de novo. Mas ele não admite, nunca vai admitir. E nem posso me atrever a abrir a boca. Parece até que minha presença faz mal. Isso me deixa tão triste... Ah meu Deus, por que comigo? Eu tento fazer tudo que posso por esses meninos. O Senhor sabe como foi esse menino na adolescência. Só o Senhor sabe como sofri. Aliás, não posso pensar desse jeito: todo mundo sofreu. Nem gosto de lembrar! Ah... Que fome! 

Rádio: Meus queridos companheiros, obrigado por acompanharem o programa e pelas mensagens tão lindas que nos enviam diariamente! Fiquem com a paz de Deus e se lembrem sempre que esse tempo que nos foi concedido é para ser celebrado e vivido de acordo com as Leis de Deus. Não sejamos pegos de surpresa pelo fim. Preparemo-nos! Amemos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos! Amor e paz, meus queridos! Até a próxima!

Ah... Eu só quero que eles sejam felizes. Meus meninos...

* * *

Lipe, com licença! Já tá dormindo? Ah, deve ter trabalhado muito hoje. Tadinho. Tão bonito, meu filho! Hum, tá um pouco quente. Será que tá com febre? Ai, está tão magrinho. Esse menino não tá comendo direito, só pode.  Essa correria do dia-a-dia. Fica aí por essas ruas, se arriscando. Pra quê, meu filho? Eu sei que você não gosta quando eu falo, mas... Eu me preocupo, ué? Fazer o quê. Olha Lipe, eu vou te contar um segredo. Quando você nasceu, eu não tinha ideia do que fazer. Você, prematuro, um trocinho magrelo toda vida. Não estranhe, eu te achava mais coisa que gente. É engraçado, né? Uma mãe não deve dizer uma coisa dessas, mas meu Deus, você era muito frágil! Vivia com febre. E ainda por cima eu tinha um pavor terrível de te derrubar no chão e você bater a cabeça. Ficava te vigiando sem parar. Você só dormia. Aquilo me deixava pê da vida, porque enquanto você só dormia, eu não conseguia pregar os olhos. E seu pai roncando do meu lado. Ai ai... Eu ficava te vendo respirar, igual agora. Com aquele medo gigante. Achava que você ia parar de repente. Era tão fraquinho, o peito mal mexia. Me perdia ali, te olhando dormir. Era hipnótico. De repente passava o cansaço, o medo. O tempo parava e eu ficava cheia de uma felicidade e uma vontade! Vontade de dar certo, de te dar todo amor que pudesse! Ah... Como era bom! Tô sentindo isso agora, meu filho. Obrigada! Te amo! Deixa eu ir lá falar com o seu irmão. Ele também te ama, viu?

* * *

- Dani, posso entrar? Dani?
- Oi mãe, que é?
- Abre aqui, quero te dar boa noite.
- Tá tá, só um instantinho.
- Aleluia! Que você tá fazendo aqui que precisa trancar a porta? Não precisa disso, meu filho!
- Ok. Que foi mãe?
- Que você tá vendo aí?
- Para mãe! Me deixa! Eu hein. Cadê a privacidade?
- Sem exagero, Dani. Você foi a faculdade hoje?
- Não.
- Ué, não teve aula?
- Não.
- De novo?
- Uhum.
- Está acontecendo alguma coisa lá? Não tô entendendo.
- Não sei.
- Como assim não sabe, meu filho? Você precisa saber! É o seu futuro que tá em jogo. Eu não tô... Eu e seu pai não estamos pagando a mensalidade à toa. Amanhã mesmo eu vou...
- Mãe, mãe, parou! Para de drama! Esse semestre eu só tenho duas disciplinas.
- Já tá acabando, né?
- Uhum.
- Ah, eu vou ficar tão boba na sua formatura. Não vejo a hora! Meu menino virando homem. Daqui a pouco tá advogando num escritório famoso, sei lá. É isso que você quer, certo? Eu nem sei mais. A gente quase não conversa.
- É quase isso, mãe. Eu acho. Não sei. 
- Como assim, meu filho? Você não sabe de nada. Quais são seus planos pra depois que se formar? Não pensou nisso ainda? Não tá acabando?
- Ai mãe, que saco! Não posso nem relaxar à noite?! Que merda!
- Não precisa xingar, Dani!
- Quando acabar eu vou saber o que fazer.
- Mas não tá acabando?
- Tá tá.
- Hum... Depois a gente conversa então. Você deve estar cansado.
- Uhum.
- Vê se acorda cedo amanhã, ok?
- Ok.
- Ah, tô querendo ir no mercado no sábado. Você pode ir comigo?
- Ih, não vai dar não.
- Poxa Dani. E no domingo?
- Se eu acordar cedo... Vou ver.
- Ok.
- Preciso terminar um negócio aqui, mãe.
- Tá. Boa noite, meu filho.
- Boa noite!
- Não ouvi!
- Boa noite, mãe!
- Ah, agora sim. Boa noite, meu filho! Dorme bem!
- Valeu.
- Dani!
- Oi?
- Te amo!
- Hum, ok.

* * *

Obrigada, Deus, por minha família! Que a sua luz esteja conosco, nessa casa, em nossos corações, nos mantendo protegidos e fortes! Que os espíritos de luz, nossos espíritos guardiões, possam orientar nossos caminhos para que possamos  fazer sempre as melhores escolhas. Abençoe o Felipe, Senhor! Que ele consiga arranjar um tempo para comer. Peço humildemente que, se for o caso, que ele encontre um lugar melhor para trabalhar. Mas, por enquanto, proteja suas corridas, por favor! Ah, se ele puder encontrar uma pessoa legal, seria tão tão bom, meu Deus! Sinto que ele precisa de alguém para amar e ser amado. Abençoe também mais novo, o Daniel! Faça com ele se interesse mais pelos estudos, Senhor! Já chegou tão longe, tem tanto potencial, mas parece não perceber. Que ele se forme e seja um excelente advogado. E ajude a sociedade a ser mais justa. Que ele seja um instrumento seu e um cidadão de bem! Obrigada por estar viva, por essa oportunidade maravilhosa que é esta vida! Que essa noite seja uma noite agradável, tenhamos bons sonhos e que amanhã seja um bom dia de sol! Que assim seja! Amém.