terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O que os dedos têm a ver com as manchas?


Aconteceu. Mas não era pra ter acontecido. Aconteceu? Nesses tempos tenho estado confusa achando que confusão faz parte da minha personalidade; mas não é bem assim. Ela tocava sanfona numa banda de forró. Ela vinha do Piauí e tinha as laterais da cabeça raspadas. Ela não tinha sotaque, era universal. E não tinha franja. Não cantava, só assobiava. Desde cedo, quando descia do metrô, já assobiava e sorria. E dançava, dançou uma vez pra mim, já bêbada e molhada de chuva numa garagem abandonada. Ela era minha melhor amiga e confessou que me amava enquanto tomávamos um sorvete. Lambeu o beiço e com os olhos brilhando, sorriu e disse: “te amo!”. Mas ela era minha amiga e eu tinha namorado.

“Não posso te amar, sou hétero...” enquanto falava, minha voz foi voltando antes de ir. Tinha medo por ali. Alguém me amava. Eu já amei? Essa é uma coisa que só eu sei mesmo não sabendo. Entendia amor pelo que sentia por minha mãe ou meu pai ou minha avó. Mas não estava certo, só me deixava segura, só me deixava estável, inteira. Nunca liguei pra minha saúde, pra minha integridade ou reputação. Quando falei em sexualidade desentendi tudo. O que tinha a ver? Ela não me oferecia sexo, me oferecia amor. Fiquei confusa a partir daquele momento. E ela pegou na minha mão. Seus dedos, só nas pontinhas, estavam grudentos. E ela os alisou na minha palma sem dizer nada, sem olhar. Seu sorriso cantava uma canção. Nunca tinha reparado na sua delicadeza, coisa que até os cabelos me diziam, presos num rabo de cavalo, presilhas douradas, envelhecidas, em forma de flores, minúsculas, lindas. Seu silêncio, seu espaço deixou que caminhasse por seu rosto: pele morena de sol, bochechas cheias, covinhas alargando sorriso vez ou outra, uma pinta bem debaixo do olho esquerdo. “já terminou?” e soltou minha mão. Meus olhos encheram. No susto uma lágrima caiu. “Vamos ué!”

Tudo normal. Ela descia do metrô e eu esperava ansiosa. E sorria mais alegre que nunca. E beijava a bochecha devagarinho e com o dedão limpava o batom e nossos olhos se encontravam. Pensando nisso, já tinha sonhado que nos beijávamos e que ela tocava minha pele completamente nua, sua mão deslizava na minha barriga como se estivesse falando, eu com um nó por dentro. Olhava intrigada e apreensiva e ela sugava meus lábios mais uma vez. Achava normal esse tipo de coisa. Todo mundo sonha. Tem gente que sonha coisas eróticas com irmãos ou mesmo pais. São nossas pequenas insanidades mágicas. Mas isso foi aumentando em frequência desde que ela me disse “te amo!”. Odiava meu namorado, sempre odiei e dizia isso pra ela antes de tudo. Mas isso é normal também. Ele era chato, só pensava em transar, vivia falando da porcaria da tese em psicologia das massas e a análise do Eu, resumia o mundo em neuróticos desconhecidos e queria ficar me apertando inteira. Me sentia sufocada e ele dizia “te amo” assim solto, sem significado. Dizia “te amo” entre beijos ou quando ejaculava. Dizia “te amo” e chorava. Me apertava, me esmagava por cima e me beijava a testa e perguntava um milhão de coisas: “o que você vai fazer mesmo? Quem vai? Ele vai? Ela vai? Mas você acha que vale à pena? Te amo!” e isso também parecia uma pergunta (“te amo?”). Depois de querer se infiltrar na minha vida sem ser convidado, dava opiniões: “Acho que devia se colocar mais. Lembro, claro, você é ótima nisso, só devia praticar mais. Mesmo que você não queira, às vezes é preciso, eu também preciso. Poxa, meu amor. Você é tão linda!” Ela nunca me disse que era linda, mas quando nos olhávamos, sabia o que pensava e suas ideias de cristal eram também assobios e diziam tão mais que qualquer palavra e tocavam tão fundo e não me chateavam nem um tiquinho.

Ele veio me buscar. Estávamos no “bico de papagaio” tomando umas geladas e discutindo sobre um projeto da faculdade, nem era um projeto nosso, era do Carlos do curso de pedagogia, amigo dela. Eles se tratavam com tanto carinho, como irmãos de mãos dadas. “Oi, meu amor!” e me beijou na frente dela. De olhos abertos, a vi disfarçar coçando o nariz. Bebericou a cerveja, enxugou os lábios e me olhando pediu pro meu namorado se sentar, indo pegar uma cerveja e um copo no balcão. Meus nós me disseram pra segui-la e resolvi ir ao banheiro. Passei bem próximo e notei que não nos falávamos mais, nossos diálogos sumiram, não existia o ímpeto de informa-la sobre onde ia. “vou ao banheiro” sumira pra sempre. Ela me viu passando e sorriu. Vivíamos disso agora. Entrei na cabine e sentei no vaso de tampa fechada. Tinha cheiro de cloro e meus olhos logo se irritaram. Estava sufocada e mais uma vez sem saber se era o cloro ou minha personalidade. “te amo!” E me arrepiava. Mas que droga de confusão! Fechei os olhos porque coçavam desesperadamente. “Ju, você tá aí?”, me assustei, sua voz era de cantora, como não cantava? Como não? “Tô, entra.” Abri a cabine. “Tá louca? Aí não cabe nós duas!” e riu. Saí; ficamos frente a frente. “Nossa, seus olhos estão muito vermelhos!” ela me puxou pelo pulso até a pia e abriu a torneira. Me olhou fundo e molhou meus olhos. Depois enxugou com os dedos, os dedões apertavam meus olhos e no escuro senti queimar dos pés à cabeça. Abri os olhos como quem respira numa piscina. Fiz uma aula de natação uma vez na escola e quase morri, não tinha o que chamava de “cadência respiratória”. E mais uma vez: o cloro me queima ou são seus dedos. Abri os olhos e a olhei com raiva. “Melhorou?” Fui até a porta e fechei o pino.

Ela me olhou sem nada entender e me deixou mais nervosa. Como me engana, por que finge? “O que você quer de mim?” ela balançou a cabeça negativamente e a interrompi: “por que está fazendo isso comigo?” ela se apressou na minha direção quando comecei a chorar e me abraçou. “Essa droga de cloro!”, ri sem querer e não sabia se continuava chorando. “Por que você tá chorando, Ju?”

“Não sei. Eu não sei de mais nada.”

“Por que diz isso?”, ela foi se afastando.

“Por sua causa! É tudo culpa sua! Que droga é essa que você tá fazendo comigo?! O jeito que me olha, como me toca e... Ai meu deus, o que eu tô dizendo... Que droga é essa que você tá fazendo comigo?”

“Eu não tô fazendo nada com você...”

“Tá!” gritei, ela se encolheu. “Você tá! Não percebe? Olha como me arrepio! Eu não sei por que, mas me pego pensando em você e sonhando com você e às vezes nem é você, é um barulho na rua, um bebê no elevador, o vento que seja... Outro dia tava acendendo o fogão e a boca fez um clarão, acho que explodiu um pouquinho.”, ela riu. “Tudo é você! É sufocante, não sei mais o que pensar.”

“Você tá equivocada. Não sou eu, não fiz nada...”

“Então por que toda vez que fico alegre, penso em você e toda vez que choro, penso em você, e quando dói, você está lá e quando acordo, sua presença pesa dentro de mim? Por que você vive me roubando de mim, me desintegrando, me confundindo?”

“Eu?”

“Sim, você! Porque você diz mais que o mundo pra mim agora. Porque tô louca e você tá causando essa loucura, mas ainda assim te olhar é o único sopro de sanidade dentro da minha cabeça há dias.”

“Mas eu...”

Interrompi com palavras repetidas, mas as recolhi assim que ela ergueu a mão de súbito.

“Não me interrompe mais, sim? Deixa eu dizer o que preciso dizer!”, ela foi firme “Ju, eu não estou em lugar nenhum a não ser aqui, agora, em mim mesma. Eu não provoco nenhuma reação e não movimento seus dias. Não calo seu choro ou provoco seu sono. E não te deixo mais feliz porque estou ou não presente. É tudo você! Você não é capaz de... Não é capaz de confessar? Não posso dizer ou fazer mais nada. Não consegue se entender? Ouve só! Escolheu só me ouvir, mas quem tá gritando pra dizer alguma coisa é você.” Parou e me invadiu. “E garota, eu te amo toda vez que saio do metrô e você tá me esperando sentada do lado do ventilador, segurando o cabelo no rosto, com o livro no colo e as páginas virando apressadas demais, desobedientes.”

Ela não me olhou, desviou os olhos envergonhados.

Ela não se movimentou, coçou o nariz, disfarçando o silêncio.

E ela não disse mais nada, chorou pro lado, prendendo nos punhos uma raiva contida.

“O que você quer de mim, Ju?”, continuou sem me olhar.

Na minha cabeça: te amo, te adoro, te quero, nua, delicada, molhada, lambuzada, sorvete de casquinha, línguas, chute na bola, futebol, juiz, apito, cavalete, tinta doce, colar, nudez, seus dedos, as pontinhas no bico no meu peito, limpando o batom, assobios, pardal, miolo de pão, ainda não almocei, o que dizer?, te amo, o que dizer?, vai embora daqui, vou sumir, vou largar a faculdade, camisa de botão listrada, mancha de mostarda, beijo estalado na bochecha, sirene de ambulância lá fora, ela estática, volta a me olhar!, volta a me olhar!, ela me odeia, eu a odeio, me ama!, me ama!, me ama!, minha mãe volta na quinta, ele deve estar preocupado, meus olhos estão coçando de novo, me tira daqui!, tô sufocando, dor de cabeça, tenho dois comprimidos de dipirona no bolso.

Peguei os comprimidos do bolso, coloquei na boca e bebi a água direto da torneira. Ela tinha sumido de repente. A porta ainda estava fechada, e tinha uma pessoa parada, que agora me olhava. Ela veio na minha direção e me deu um soco na barriga. Cuspi as dipironas. Ela sussurrou no meu ouvido: “você é uma covarde!” e me deixou sozinha no banheiro com uma claridade que me assombrou profundamente. O barulho da porta rangendo me acordou. “Quero você sua boba.” Falei baixinho. Ela estava bem longe agora, no fundo da cabeça, revirada no estômago. A dor passou.

“Vamos?” falei com ele com a mão no seu ombro. E sorri retocando um quase sorriso.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

No banheiro


Intervalo entre apresentações, a música estava alta e chata quando pisei numa poça de vômito ou coisa parecida e senti vontade de mijar. Entrei no banheiro; estava silencioso, mas haviam pelo menos três cabines ocupadas. Fui pra pia, abri a torneira e bochechei água e cuspi. Tinha pedaço de carne ainda no dente – era do café da manhã. Putz, que porco; escovei os dentes mal e porcamente porque ainda eram onze da matina e os babacas chegaram pra me buscar. Olhando no espelho, reparei no estrago que era meu rosto. Não sou um cara feio, costumo atrair olhares, a própria Zeca disse que me pegava, mas essa coisa de trabalhar dois turnos seguidos por dia não tá caindo bem. Tem um buraco roxo enorme debaixo de cada olho que me dá a indesejável aparência de estar bêbado vinte quatro horas por dia, claro que se soma aí minha lerdeza natural. Mas cara, chega um momento em que não dá mais! Como quer arrumar alguém estando o trapo que está? Vinte e oito anos e nenhuma namorada, nada firme, só casinhos. Vejo a pequena do Luís e me dá maior inveja... Desde moleque quis ser pai. Mas essa vida corre que nem dá chance da gente saber onde está pisando ou mesmo lembrar onde já pisou. Olhando assim pra esse bundão na minha frente, com essas olheiras fundas e esse cabelo bagunçado, me pergunto: será a vida uma caloteira de merda que não paga a conta de luz? – eu realmente devo estar bêbado.

Entrou um casal no banheiro. Riam alto e o cara já estava com a mão na calça do outro. Quando me viram se assustaram e disfarçaram, indo pros mictórios. Como não queria atrapalhar e nem ser testemunha de profanidades, entrei numa cabine vazia e logo dei descarga porque a privada estava cheia de bosta. Abaixei a tampa e já sentado tirei o cigarro do bolso, acendendo um. Que banheiro fedido, meu deus! Com certeza tinha alguém cagando numa das cabines na maior boa vontade. Essa é uma coisa que nunca entendi: que prazer é esse de fazer suas coisas particulares em locais públicos? Os caras deviam estar se chupando lá fora, algum mané deu pra cagar despreocupadamente, e com certeza deve ter um outro filho da puta se drogando ou pior: fumando. Bando de cuzão! Eu ri um pouco alto sem querer e curti outro cigarro. Deram descarga. Mamãe apareceu do nada na minha cabeça e me mandou destrancar a porta do banheiro. Ela esmurrava a porta e eu aumentava a música no diskman. Subitamente parou e tirei os fones a tempo de ouvi-la descer as escadas pisando forte. A seguir reclamações gritadas que não pude distinguir. Recoloquei os fones quando vi que subia novamente. “Abre essa porta, seu depravado!”, socos e depois chutes que até me assustariam se tudo não fosse tão engraçado. “Ah moleque!” – qual não foi minha surpresa e iminente ataque do coração quando vi a porta cair bem na minha frente. Deixei a revista no chão e puxei a cueca pra cima com tanta ferocidade que ela acabou rasgando. Tudo que lembro depois disso era estar correndo pelado com um pano de prato, no meio do quintal, o cachorro do vizinho latindo sem parar e minha mãe com uma colher de pau me perseguindo pra me bater. Naquele dia ela soube que papai ia parar de pagar a pensão e achei que por isso queria descontar em mim. Mas o merdinha só tinha morrido. E eu que nem sabia o que era amor, senti na pele em colheradas consecutivas. Vai saber por que as pessoas não conseguem lidar com os ressentimentos e manter a sanidade ao mesmo tempo. De repente já estava no terceiro cigarro e a gritaria anunciava a entrada de outro DJ no palco lá fora. Apaguei o cigarro no chão, mas me faltou força pra abrir a porta. Fiquei ali parado, olhando, no que pareceram horas. Até que três batidinhas me acordaram e uma brecha se abriu.

“Tem gente!”, falei. Mas a pessoa do outro lado permaneceu parada. Ouvi a respiração ofegante e me assustei. Abri a porta com excesso de força e a porcaria da quina bateu na testa do homem. “Ah caramba, me desculpa!” Ajoelhei do lado do cara. Devia ter uns trinta e poucos anos. Ficou um pouco assustado de inicio, mas depois puxou uma risada eterna que me encheu o saco. Coloquei-o de pé e empurrei até a cabine onde estava antes, ele pisou no resto de cigarro e reparei que estava descalço. Como não respondia minhas perguntas e só sabia rir na minha cara, dei as costas e me dirigi à saída. “Ei!”, ele me chamou de repente. Voltei. “Abre o meu bolso e pega um saquinho que tá aqui fazendo um favor!”, primeiro pensei que não devia, mas o cara já estava tão fodido que pior não dava pra ficar. Entreguei o pó na mão dele, mas não fui embora; minha consciência pediu que o vigiasse por um tempo (como se a vigia fosse evitar alguma coisa). Ele se agachou de frente pra privada, despejou um pouco de pó e com um papel alinhou numa carreira. Enrolou o mesmo papel e sugou pelo nariz. Não dava pra ficar ali vendo um infeliz se matar. Virei de costas mais uma vez e... “Ei!”, olhei e vi seu braço estendido com o rolinho de papel: “Um presentinho.” Mais um pirado na minha vida. De onde é que saem tantos miseráveis pra me azucrinar? “Não, obrigado”, forcei um riso e acenei com a cabeça. “Tu é menor de idade?”, foi a minha vez de rir, me escapou num cuspe; gargalhei com gosto. “Tem cara de ter uns dezesseis anos... Vaza daqui moleque!” De repente o cara se zangou. Continuei achando tudo muito estúpido, mas bateu vontade de provar aquele pó. Sabe que eu nunca me droguei na vida! Quer dizer, já dei uns tecos num cigarro de maconha, mas nada além disso. De longe o espelho continuava a me mostrar um sujeito desengonçado de um metro e meio e cara amassada; solitário, com a mão estendida implorando por uma nova oferta. “Tenho vinte oito.” O cara me olhava estranho, desconfiado, com os olhos quase pulando pra fora. “Você tem cara de uns dezessete, dá pra perceber! Foi mal aí garoto, mas não rola!” Dessa vez eu realmente fiquei incomodado. “Que dezessete o que, porra!? Tenho vinte e oito!” Ele levantou, ficou mais alto como todo mundo fica quando me encara e quis me intimidar. “Deixa eu ver sua identidade então?” Por dentro, eu me consumia em risadas e por fora só ouvia o eco sério. Eram risadas fantasmas, estavam causando uma espécie de indigestão ou coisa do tipo. Via o espelho mais perto, e parecia que tudo estava paralisando. Meu reflexo implorava com o braço estendido e eu o olhava de esguelha; aquele sujeito baixinho... Não me espantava que confundissem sua idade. Por que se escondia num lugar sujo daquele? Fumando que nem um cão desde os quinze, não aguentava nem subir os dois lances de escada do prédio sem se amparar na parede, ofegante. Um merda que nem procura a mãe e que ainda por cima desligou o telefone na cara dela quando ela ligou no domingo toda cheia de saudades. Depois, fingiu que não se emocionou quando a ouviu chorar do outro lado da linha. “Aqui está: vinte e seis de fevereiro de mil novecentos e oitenta e três.” Entreguei a identidade e fiquei vigiando aquele reflexo que só fazia chegar mais perto. Puta que pariu, eu devia estar muito doido. E ainda vem a Telma com aquele papinho no carro: “ai, gente, tô indo pra Paris estudar! Te contei? Alô? Ih... Tem jeito que dormiu mal essa noite [...] Nossa, que bafo hein! Não tô aqui pra ouvir grosseria não hein! [...] Vê se se manca, cara! Ninguém aqui precisa chorar suas dores não! Essa é a graça da coisa toda! [...] Hoje eu quero comemorar! Co-me-mo-ra-ar! [...] Cara, a gente nasce sozinho e fica com essa mania de tomar o mundo pra si [...] Ninguém morre querendo levar meia dúzia de dinheiro ou diamante ou o diabo a quatro, a gente morre querendo levar o espaço que ocupa quando nasce [risadas] É! O útero da mãe, seu merda! [mais risadas] Você soube que o Tom Cruise comeu a placenta da filha [...] Sei lá de quem é. Foda-se! Cara piradaço, meu!” Será que eu tenho dezoito?

“Isso aqui é noventa e três, você não me engana não!” Ele me devolveu a carteira, que caiu da minha mão. Fiquei parado me olhando. Me perdi. Parecia que tudo girava enquanto permanecia sozinho, no meu canto, no meu buraco. Não era indigestão. Eu tinha pisado numa poça de vômito, meu vômito. E estava descalço, os pés pelados, um com uma pequena queimadura que ardia no vômito frio. Os sentidos me enganavam, queriam me prender, queriam que definhasse preso num mesmo mundo pra sempre, fumando um cigarro atrás do outro com medo de magoar minha mãe ou ouvir que meu pai tinha morrido. Com medo de transar sem camisinha e engravidar alguma desconhecida. Um temor enorme que causava arrepio da espinha até os pés pensar em vê-la perdida nos braços de outro, nunca encontrando o caminho de volta junto dos demais espermatozoides. E tudo girava. E meus pés perdiam o equilíbrio do chão, confiando no equilíbrio dos céus. “Com dezoito já respondo por meus atos!” Agachei e suguei. Passaram milênios numa ereção tântrica que só fazia deixar o pau mais mole. O sujeito na cabine alisava meu pau por cima da calça. Na minha cabeça, estava seguro, assistindo tudo numa espécie de coma. Alguém abriu a porta e um som infernal invadiu quebrando o escuro. Quebrando algo mais. “Garoto, você tá muito doido!” Ouvi de longe, bem longe, quase que no Parc de la Pépinière. Minha vista embaçada via o sangue pingar no chão. Fazia um barulhinho chato. Pingava outra coisa ali em cima dos cacos. A visão turva caiu, recobrei a sanidade. Nos pedaços que sobraram na minha frente, me vi velho de novo, com as mesmas olheiras, mas todo vermelho e uma mancha evidente na testa; a cabeça ainda doía da batida na quina. Suava que nem um condenado. Era uma boa história pra contar pra alguém. Não sabia dizer como quebrei o espelho só com um soco, mas me pareceu engraçado olhando assim de longe. Sabia que não devia ter abusado no álcool. E ainda misturei com coca que é ruim que nem diabo pra quem tem diabetes. E ainda estava trabalhando dois turnos por dia. Que merda, amanhã tenho que acordar cedo! Cadê meu celular? Ah, bosta! Abri a torneira, lavei a mão. Apenas algumas feridinhas sem graça. Empurrei os cacos com o pé pra debaixo da pia, fechei a torneira. Olhei ao redor: banheiro silencioso, ninguém nas cabines. Abri a torneira de novo, lavei o rosto, bochechei um pouco de água e esperei que a porta se abrisse. Parecia que ia abrir a qualquer momento. Meu coração batia rápido e alto: o único som do ambiente. Fechei a torneira, andei bastante receoso até a porta e parei. Doía esperar. Um... Contei. Dois... Três... Olhava a porta sem piscar, respirando ofegante do lado de dentro. Quatro... Cinco... Seis... Nada. Silêncio. Sete... Fui respirando mais devagar. Oito... A música lá fora já era mais alta que minhas batidas. Nove... Levei a mão à maçaneta e girei. Dez.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Feliz natal do hospital

Era dia 23 de dezembro e ele estava deitado no sofá lendo uns livros. Na verdade, usava essa desculpa de ler pra se sentir útil ou pra não se sentir tentado à inutilidade – o que parecesse mais convincente. Ele pegava Machado achava chato, trocava por Drummond, lia dois poemas, sentia-se bem, sentia-se insuportável. Clarisse tinha duas vezes pelo chão, páginas abertas, pedaços rasgados e molhados. Pegava finalmente Pessoa e se acalmava. Um outro ano passou... Por que o deixaram só em casa, pensava repetidamente. “Por que me deixam só esse tanto de tempo?”

Mais um ataque e ele destruiu Álvaro de Campos. “Um supremíssimo cansaço, íssimo, íssimo, íssimo, cansaço…” Pôs os pés pro alto, ficou com a cabeça cheia. Tinha umas tristezas e lá suas águas muito salgadas, cheias de medo e angústias inexplicáveis. Sozinho em casa numa tarde longe de alegrias. John Lennon tocava no radinho na cozinha. Era um desses especiais de fim de ano. Ele ia adormecendo e vinha pelo ar a fatal war is over... Um raríssimo “John and Yoko wish you a merry christmas!”... a cabeça ia ficando pesada... Ele, os anjos ou um invasor alienígena o tocou, reposicionando sua cabeça no braço do sofá, esticando suas pernas e beijando sua testa suada. Era calor, ele roncou.

Dormindo, acordando, gritando, chorando, vislumbrou John Lennon entrando pela janela. Ele subira na mangueira do quintal e com uma manga em punho entrou pela janela dizendo: “Oh Yoko!” e oferecia a fruta mordida e sorria. Seus dentes com fiapos. A guerra acabara! A guerra acabara? Alguém atirou. Um grito e de repente o peito de John sangrava e do buraco a bala pulava e saiam fiapos e cascas e caroços. O garoto acordou assustado e fechou a janela. O especial tinha acabado e agora só orações. Ficou cinculando descalço pela cozinha, bebendo água, bebendo alcóol. Transitara rapidamente da cerveja pra garrafa fechada de conhaque. Tinha um cheiro forte, forte demais pra gostar, mas fechava o nariz e mandava goela abaixo. Colocou uma música e girou pela sala com a garrafa na mão, rindo eufórico. Mandou a garrafa na parede e foi ao chão rindo mais alto. Do chão viu o teto que viu o céu que viu o universo que viu de volta sua dor e mostrou pra todo o infinito que quisesse ver. Que dor é essa, menino? Quantos anos tinha que nem sabia? Havia passado dos catorze? Não sabia se queria ou podia. Que dor é essa, rapaz? – o universo insistia em perguntar e ele ria na cara dele, chupando o sangue dos caroços.

“Puta merda! Onde minha mãe esconde essa merda? Onde ela escondeu essa merda?! Que inferno!”, ele agora revirava o quarto da mãe à porcura de seus antidepressivos. Na sala, os animais: o gato lambia o alcóol do chão e as formigas se entupiam do sangue doce do rapaz. Pingos o rastreavam até o quarto. O braço pingava sobre a cama e ele tirou o forro do travesseiro do pai e enrolou no pulso. Gavetas abertas, cartas pelo chão, segredos desvendados, cartas de sexo de ex-namoradas e atuais amantes, luzes de velas queimando no silêncio, ultra do câncer no estômago, atestado de óbito do caçula que morrera há quatro anos, os sonos de mentira, os sonos de verdade, o cartão da psicologa, da psiquiatra, do personal trainer e do cabelereiro, o vidro de perfume da avó que passou pra mãe e que espirrou sem querer quando quebrou no chão. Grito! “Ah, como é bom!” E ele passava o braço, umidencendo o pano com sangue no perfume. Assim se sentindo limpo e livre. Riu uma vez mais e desmaiou por sete segundos, indo parar num mundo paralelo entre demônios e um báu com anjos ventríloquos. Arregalou os olhos e lembrou. Correu, escorregou, bateu a cabeça na parede, riu, chorou um pouco de infelicidade e felicidade, chutou a parede, urrou de dor, chorou desconsolado, se abraçou e o gato veio roçar, tonto, na sua perna. A campainha tocou e era a velha vizinha. Ele ignorou e já na sala, com o vidro na mão “isso deve dar...”; aumentou a música, colocou uns comprimidos na boca e tomou com uma golada de cerveja.

Cerimoniosamente, repetiu três vezes, dançou e desmaiou achando que tinha morrido.

Acordou numa maca no meio do corredor. Hospital lotado. Um estranho numa maca na sua frente fedia à cachaça e estava sujo como o quê; provavelmente um mendigo perdido que pela emoção do natal deixou que suas pernas buscassem ajuda. Não havia ninguém para levar um café pro coitado do mendigo, mas havia a mãe do garoto, com olhos inchados de chorar, trazendo o seu. “Meu filho...”, ela enfiou o cabeça do rapaz no seu peito e chorou. “Deixa ele, vai machucá-lo!” – o pai falou, com as mãos no bolso, uma delas segurando o celular desligado (mais de sete mensagens não lidas, duas da operadora). Ele parou ao lado do garoto. Este olhou os botões de sua camisa e pela primeira vez quis chorar. “Por que isso, meu filho?” – o pai perguntou, o filho segurou o choro. Na verdade, não precisou segurar, ele apenas secou instantaneamente. Ficaram os três em silêncio. O mendigo coçou a cabeça e sairam uns pontos pretos que andaram por seu ombro e se dissiparam no vento.

O médico trouxe a boa nova: um contato de um hospital psiquiátrico com uma comunidade terapêutica para dependentes de álcool e outras drogas. Os pais discutiram ali perto mesmo. O médico voltou, as enfermeiras limparam mais uma vez a ferida no pulso do rapaz, fazendo-a arder; ele cerrou os dentes. Fecharam as ataduras e os pais se decidiram. O pai apertou a mão do médico: “Obrigado por tudo doutor! Feliz natal...” A mãe, na impossibilidade de abraçar o filho (que tinha ataduras também no pescoço e cabeça, além do pulso esquerdo e pernas) e necessitando urgentemente abraçar alguém, se agarrou no médico e ficou perdida por lá um tempo. Retornou e se refez, olhando o marido. “Obrigada de coração! Mesmo, mesmo! Abraço e feliz natal pro senhor e toda sua família!”. O médico se virou para o menino, que não olhava pra nada, e pôs a mão em seu ombro. O Rapaz sentiu uma eletricidade lhe tomar o cérebro e numa quase convulsão, teve uma visão: ele e o mendigo dançando macarena para uma grande platéia em um teatro na Holanda. Seus pais olhando de um lado da coxia, mulheres de bíquini do outro lado. O mar de gente em suas macas aplaudindo energicamente – o rapaz sorriu discretamente e olhou os olhos negros do outro.

Noite de 24 de dezembro do ano seguinte, no refeitório do hospital psiquiátrico, uma pequena ceia organizada pelos médicos, psicólogos e enfermeiros, que levaram suas famílias. Os outros pacientes sentando nas mesas, a maioria sem a companhia dos consanguíneos. Os filhos corriam pra lá e pra cá, explorando o mundo complexo de paredes azuis e uniformes claros de olhos arregalados. Seu Bumba contava histórias que via pela janela, sobre a neve que caia no norte. Algumas crianças o achavam interessante, mas olhavam à certa distância, agarradas a seus pais, que riam. Os pais do rapaz estavam sentados com ele numa mesa. Comiam peru com farofa e salada. Não tinha azeite, só sal. Não tinha vinho, só suco de caixa. Havia um rádio tocando músicas de natal em inglês. Em determinado momento, o menino reconheceu a voz de Elvis cantando “Blue Christmas”. Não se sabe se foi nesse momento, mas sua mãe pegou na mão de seu pai e conseguiu cochilar em seu ombro. Ainda desconhecendo a sincronicidade real das coisas, Seu Bumba abriu a janela e choveu isopor pelo salão; as crianças riram e começaram a pular com a língua pra fora.

O rapaz se levantou e caminhou para o banheiro. Abriu a torneira e tirou do bolso a carteira que pegou escondido da bolsa da mãe. Uma foto do irmão segurando uma gargalhada com os cabelos embaraçados e a cara amassada. Colocou sobre a pia e esboçou um sorriso que só o espelho viu. Um grito veio de longe. Seu Bumba se jogou da janela. Um murmuro prolongado. Alguém tinha prisão de ventre em uma das cabines do banheiro. O rapaz ficou um tempo olhando para outra foto na carteira (uma sua aos sete ou nove anos de idade). A porta da cabine abriu e Elvis saiu com a braguilha aberta. Fechou e pôs as mãos debaixo da torneira aberta. “Bons tempos, né rapaz?” O menino desviou o olhar e viu seu reflexo no espelho ao lado de Elvis. Sorriu e acenou com a cabeça. O cantor pegou a foto sobre a pia e saiu. Passou um tempo, o relógio novo no pulso do rapaz fez pi-pi marcando meia-noite e ele saiu do banheiro, imaginando abraçar os pais. Com urgência, com afeto.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Carnaval preso


Um ponto de pontes,
De esquartejos a nenhum lugar.
Um perdido de fontes
Sem guia que do mar se vá.
Eu penso,
Mesmo que o fundo infinito
Reafirme a incerteza profunda do céu.


E sei que as criaturas morrem.
Sei que o infinito apenas encharca meu inteiro.
Mesmo assim, na profunda incerteza do mar,
Vislumbro os habitantes do céu esternizarem
Seus gritos, seus gritos mergulhados pelo ar.


E eu silencio e afundo.
Mesmo sabendo o que não sei.
Silencio e afundo
Porque ainda me sinto todo presente.