quarta-feira, 10 de junho de 2015

Mãe e filhos


Rádio: Então, meus amigos, nós não devemos temer a morte pois todos vamos deixar essa existência um dia para acordarmos na vida real. Os medos que criamos aqui são desnecessários. Porém, como não sabemos quanto tempo temos, devemos nos preparar e cuidar dessa existência encarnada como quem cuida de um jardim. Sejamos jardineiros tranquilos e afetuosos. Valorizemos essa oportunidade maravilhosa que é estarmos vivos! Temos nossos momentos de tristeza, dúvida, raiva. Sim, temos. Meus amigos, nesses momentos, devemos ler um parágrafo, dois parágrafos do Evangelho. Ou mesmo uma página se o tempo permitir...

- Se o tempo permitir?
Se tivermos tempo sobrando.
- Tempo sobrando?
Tantos afazeres nessa vida corrida.

O que há de errado comigo? Por que tenho tanto tempo de sobra? Por que ouço o mundo todo reclamar de falta de tempo e mesmo assim acordo meio-dia e como um pedaço de bolo com cobertura de chocolate e passo as próximas horas vendo pornografia ou facebookeando - não necessariamente nessa ordem? Por que a diferença? Não quero ser diferente.

Mensagem no whatsapp: Oi meu filho, seu pai te ligou? Se for possível, transfira 160 reais para minha conta no Bradesco. Estou com o dinheiro aqui, mas não tenho tempo de sair e preciso depositar antes das 16h.

- Oi?
- Transferir.
- Pede pro meu irmão. Ele já está na rua. Acabei de acordar.

* * *

- Eu não tenho mais tempo pra isso. Tenho 25 anos! Não dá pra continuar assim.
- Tira a camisa pra eu ver!
- Eu não posso continuar nessa vida. Pra mim já deu. Que merda é essa? Que merda sou eu?
- Anda logo, tira a camisa! 
- Ok.
- Puta merda, você tá muito magro mesmo. Tá tomando a parada certinho?
- Sabe como é, uma vez que você se acostuma, já era.
- Para de falar merda! Isso é coisa de viadinho adolescente. Você não quer mudar de vida? Não tava agora mesmo aí choramingando que tem 25 anos e não tem porra nenhuma? Abre a boca! Deixa eu ver como tá a situação aí.
- Hum... Ok.
- Puta que pariu! Você tá todo fodido! 
- Muito trabalho, né. 
- Tu voltou a chupar pau?
- Não, não. Só continuo o vício, sabe? Não tenho fome e quando tenho, como demais.
- Para com essa porra! Já te falei que é coisa de viado.
- Ok.
- Se tu precisar falar e tal... Se tiver se sentindo mal, me liga! De verdade aê. Só ligar!
- Ok.
- Sou teu amigo antes de tudo.
- Ok.
- Cê acha que vai dar pra quebrar essa?
- Dívida é dívida, né?
- Ô, sou teu amigo porra! Tô aqui como um amigo pedindo prum amigo quebrar um galho. Tem essa de dívida não.
- Ok. Acho que dá sim.
- Bota essa língua pra fora! 
- São quantas cápsulas?
- 20.
- Caralho! 
- É.
- Caralho! Que merda.
- Ah, não não! Não! Nada de chorar na minha frente! Sabe que sou coração mole. Se tu não puder eu vou entender.
- Não é nada disso não. Eu só tenho pensado muito na vida. No que eu fiz até aqui. Porra, eu não tenho nada, ninguém. Sou nada. Eu me olho no espelho e me vejo sumindo. 
- Vai ser difícil te deixar de boa com os caras lá. Eles queriam você embarcando amanhã. Eu posso até tentar. Mas vai ser difícil. Sabe como a parada com eles é só números, lucros e tal. 
- Acho até enraçado isso que me aconteceu. Foi até tarde. Ou cedo. Sei lá. Se por um lado eu tenho 25 anos, por outro, eu já vivi coisas tão surreais. Meio que à mercê do acaso. Fiz muita merda! Não tem como não achar graça. Mas não tô feliz. 
- Você deixou um rombo muito grande. É difícil passar por cima de uma coisa dessas. Você é realmente maluco.
- Caralho, eu tô rindo, mas não tô feliz! Você tem noção do que é isso?
- Para de falar coisa sem sentido! Tô virado, com uma puta dor de cabeça e não tô nem um pouco no clima pra suas babaquices. 
- Eu vou fazer! Que horas amanhã? Eu vou fazer!
- Aí ó, são os filhas da puta me ligando!
- Pode falar para eles que eu vou fazer. Enfio pelo cu, é mais tranquilo.
- Esse é meu garoto! Seu putinho sacana!

* * *

Reprise no rádio: Meus amigos, nesses momentos, devemos ler um parágrafo, dois parágrafos do Evangelho. Ou mesmo uma página se o tempo permitir. Fazer o culto do Evangelho no lar é de extrema importância para manter um ambiente harmonioso. Lembremos que nossas casas devem ser local  de cultivo e exercício da paz e do amor. Todos os dias, meus amigos, é preciso olhar nosso familiar e amá-lo e perdoá-lo. Não é fácil a convivência em família, mas é preciso tentar, já que as famílias são o gérmen da sociedade. Se não cuidarmos de quem nos é mais próximo, não daremos conta de fazer da Terra um lugar melhor no futuro.

Ué, os meninos deixaram o rádio ligado? E alto ainda por cima! Eles não tem noção da hora. Olha aí, ninguém colocou o lixo também! Mais um dia acumulado. Já tá cheirando até. Se eu não lembro, eles simplesmente não fazem. Impressionante! Hum, não tem nada de bom nessa casa! Tenho que fazer mercado esse final de semana. Não posso esquecer, tenho que anotar. Vou tentar arrastar o Dani comigo. É mais que obrigação dele levar a mãe no mercado, não é? Não gosto de ser esse tipo de mãe que depende dos filhos, mas não é nada demais. Ele faz parte da família. Come e bebe aqui. E esse carro não é só dele. É da família! Sem contar que não faz nada o dia todo. Aliás, tô preocupada com esses dois. Um só vai a faculdade quando quer, outro, nem sei. Ah meu Deus, eu já falei com o Lipe para ele procurar outro trabalho. Essa coisa de motoboy não é segura. Tanta notícia que a gente vê por aí. E ele tem estudo, poxa. Acho que o Lipe tem um sério problema de autoestima. Isso me deixa tão triste. E acho que ele tá entrando em depressão de novo. Mas ele não admite, nunca vai admitir. E nem posso me atrever a abrir a boca. Parece até que minha presença faz mal. Isso me deixa tão triste... Ah meu Deus, por que comigo? Eu tento fazer tudo que posso por esses meninos. O Senhor sabe como foi esse menino na adolescência. Só o Senhor sabe como sofri. Aliás, não posso pensar desse jeito: todo mundo sofreu. Nem gosto de lembrar! Ah... Que fome! 

Rádio: Meus queridos companheiros, obrigado por acompanharem o programa e pelas mensagens tão lindas que nos enviam diariamente! Fiquem com a paz de Deus e se lembrem sempre que esse tempo que nos foi concedido é para ser celebrado e vivido de acordo com as Leis de Deus. Não sejamos pegos de surpresa pelo fim. Preparemo-nos! Amemos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos! Amor e paz, meus queridos! Até a próxima!

Ah... Eu só quero que eles sejam felizes. Meus meninos...

* * *

Lipe, com licença! Já tá dormindo? Ah, deve ter trabalhado muito hoje. Tadinho. Tão bonito, meu filho! Hum, tá um pouco quente. Será que tá com febre? Ai, está tão magrinho. Esse menino não tá comendo direito, só pode.  Essa correria do dia-a-dia. Fica aí por essas ruas, se arriscando. Pra quê, meu filho? Eu sei que você não gosta quando eu falo, mas... Eu me preocupo, ué? Fazer o quê. Olha Lipe, eu vou te contar um segredo. Quando você nasceu, eu não tinha ideia do que fazer. Você, prematuro, um trocinho magrelo toda vida. Não estranhe, eu te achava mais coisa que gente. É engraçado, né? Uma mãe não deve dizer uma coisa dessas, mas meu Deus, você era muito frágil! Vivia com febre. E ainda por cima eu tinha um pavor terrível de te derrubar no chão e você bater a cabeça. Ficava te vigiando sem parar. Você só dormia. Aquilo me deixava pê da vida, porque enquanto você só dormia, eu não conseguia pregar os olhos. E seu pai roncando do meu lado. Ai ai... Eu ficava te vendo respirar, igual agora. Com aquele medo gigante. Achava que você ia parar de repente. Era tão fraquinho, o peito mal mexia. Me perdia ali, te olhando dormir. Era hipnótico. De repente passava o cansaço, o medo. O tempo parava e eu ficava cheia de uma felicidade e uma vontade! Vontade de dar certo, de te dar todo amor que pudesse! Ah... Como era bom! Tô sentindo isso agora, meu filho. Obrigada! Te amo! Deixa eu ir lá falar com o seu irmão. Ele também te ama, viu?

* * *

- Dani, posso entrar? Dani?
- Oi mãe, que é?
- Abre aqui, quero te dar boa noite.
- Tá tá, só um instantinho.
- Aleluia! Que você tá fazendo aqui que precisa trancar a porta? Não precisa disso, meu filho!
- Ok. Que foi mãe?
- Que você tá vendo aí?
- Para mãe! Me deixa! Eu hein. Cadê a privacidade?
- Sem exagero, Dani. Você foi a faculdade hoje?
- Não.
- Ué, não teve aula?
- Não.
- De novo?
- Uhum.
- Está acontecendo alguma coisa lá? Não tô entendendo.
- Não sei.
- Como assim não sabe, meu filho? Você precisa saber! É o seu futuro que tá em jogo. Eu não tô... Eu e seu pai não estamos pagando a mensalidade à toa. Amanhã mesmo eu vou...
- Mãe, mãe, parou! Para de drama! Esse semestre eu só tenho duas disciplinas.
- Já tá acabando, né?
- Uhum.
- Ah, eu vou ficar tão boba na sua formatura. Não vejo a hora! Meu menino virando homem. Daqui a pouco tá advogando num escritório famoso, sei lá. É isso que você quer, certo? Eu nem sei mais. A gente quase não conversa.
- É quase isso, mãe. Eu acho. Não sei. 
- Como assim, meu filho? Você não sabe de nada. Quais são seus planos pra depois que se formar? Não pensou nisso ainda? Não tá acabando?
- Ai mãe, que saco! Não posso nem relaxar à noite?! Que merda!
- Não precisa xingar, Dani!
- Quando acabar eu vou saber o que fazer.
- Mas não tá acabando?
- Tá tá.
- Hum... Depois a gente conversa então. Você deve estar cansado.
- Uhum.
- Vê se acorda cedo amanhã, ok?
- Ok.
- Ah, tô querendo ir no mercado no sábado. Você pode ir comigo?
- Ih, não vai dar não.
- Poxa Dani. E no domingo?
- Se eu acordar cedo... Vou ver.
- Ok.
- Preciso terminar um negócio aqui, mãe.
- Tá. Boa noite, meu filho.
- Boa noite!
- Não ouvi!
- Boa noite, mãe!
- Ah, agora sim. Boa noite, meu filho! Dorme bem!
- Valeu.
- Dani!
- Oi?
- Te amo!
- Hum, ok.

* * *

Obrigada, Deus, por minha família! Que a sua luz esteja conosco, nessa casa, em nossos corações, nos mantendo protegidos e fortes! Que os espíritos de luz, nossos espíritos guardiões, possam orientar nossos caminhos para que possamos  fazer sempre as melhores escolhas. Abençoe o Felipe, Senhor! Que ele consiga arranjar um tempo para comer. Peço humildemente que, se for o caso, que ele encontre um lugar melhor para trabalhar. Mas, por enquanto, proteja suas corridas, por favor! Ah, se ele puder encontrar uma pessoa legal, seria tão tão bom, meu Deus! Sinto que ele precisa de alguém para amar e ser amado. Abençoe também mais novo, o Daniel! Faça com ele se interesse mais pelos estudos, Senhor! Já chegou tão longe, tem tanto potencial, mas parece não perceber. Que ele se forme e seja um excelente advogado. E ajude a sociedade a ser mais justa. Que ele seja um instrumento seu e um cidadão de bem! Obrigada por estar viva, por essa oportunidade maravilhosa que é esta vida! Que essa noite seja uma noite agradável, tenhamos bons sonhos e que amanhã seja um bom dia de sol! Que assim seja! Amém.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Rio



No Largo da Carioca, em 1965, havia um cachorro vira-lata chamado Rio. Alguns enfatizavam o "o" em seu nome, tornando-o quase um "um". "Rium!", chamavam-no. Achavam que tinha origem oriental, por isso imaginavam a grafia de seu nome algo como rihum. Era um cão magricela, todo preto, olhos brilhantes cor de carvão e rabo partido. Dentes branquinhos não se sabe como. "É porque chupa muito osso", uns justificavam. Mas afora mastigar ossinhos por horas a fio, Rio não comia muito. E olha que quase todos os passantes tinham alguma coisa para oferecer, fosse um pedaço de pão ou uma bala. Apenas uma vez animou-se com comida, dando piruetas atrás do rabo quase inexistente. Um grupo de rapazes chupava picolé numa tarde ensolarada de Janeiro na sombra de um prédio. Rio fazia sua costumeira apresentação para o público em sesta, mostrando toda sua destreza atrás de pombos. Era um animal que gostava de agradar. Os rapazes riam, Rio os olhava e quase ria de volta, a língua pendurada para fora da boca. O mais novo dos rapazes assobiou chamando Rio para perto, e ele foi num tempo só, cão carente que era. O rapaz se ajoelhou e acariciou sua cabeça. "Bonzinho, bonzinho".  Os demais o alertaram sobre carrapatos. Mas o cachorro não fedia e só costumava ter carrapatos no verão. Nesse, em especial, não pegou. O rapaz lhe ofereceu o picolé e Rio pôs-se a lamber afobadamente. Deteve-se na atividade por um bom tempo; o cotoco de rabo a balançar freneticamente. Os demais rapazes já conversavam sobre algo outro, o mais novo, todavia, viu  naquele focinho melado e satisfeito do cão magricela tal beleza que ficou alegre pelo resto do dia. Hoje, esse moço tem setenta e um anos, continua morando na Tijuca próximo à Saens Peña, raramente se lembra de Rio e nunca mais ofereceu picolés a cães de rua. 

Voltando à história de Rio, preciso dizer que tenho só dois tempos para contar: o do início e o do fim, com pequenos gracejos, dos que o cão aprontava, pontuados no meio. O antes e depois disso, não sei. Bem, o que ele mais gostava de fazer era correr atrás dos transeuntes. Pessoas riam quando corriam, pombos não. Os desavisados do Largo, se assustavam e saíam correndo, fazendo o cão correr ainda mais animado, saltitante, sorridente. Havia algo hipnotizante em seu galopar desengonçado. Ele se tornou, naquele ano, uma espécie de totem. Foi o auge de sua provável breve vida. Rio passou a representar para alguns o espírito carioca, do Largo da Carioca, da cidade. Um carioca legítimo. Ele passou a ser assunto de descontraídas conversas. Certo dia, um o chamou de Rio e o nome pegou, até virar rihum e perder um pouco o sentido. Sua história, antes ou depois, como já disse, não sei. Sei apenas daquele tempo na Carioca. Apareceu numa manhã de chuva, aconchegando-se debaixo de uma marquise, onde um senhor fumava e tomava café. O homem o olhou e espirrou. Era alérgico a cachorro e o enxotou. Rio foi pra chuva e correu. Correu atrás de coisa alguma - era uma de suas apresentações. De um lado para o outro, sem motivo. O senhor, acreditando se tratar de um cão louco, chamou-o de volta. Apesar de louco, não espumava - "é um bom sinal", pensou o homem, condoído. Então Rio fez casa por ali. Sentia-se seguro, acolhido, chupava ossos, corria atrás de pombo e de gente. Era um animal besta. As crianças o adoravam, queriam rolar no chão junto dele. "Esse chão é sujo!", "Esse cão é de rua, tem doença!", "Não toca nele!", "Não meu filho, ele pode morder!" A maioria das crianças porém insistia, sabendo intuitivamente que podiam confiar em Rio. "Ele sorri, mamãe!", disse uma pequena que se desvincilhou da mão da mãe e correu para abraçar o cachorro. Ele lambeu seu rosto e a empurrou no chão. A menina riu, Rio também. E lambeu a face, saltitando e voltando. A mãe gritou. Por fim chutou o cão e puxou a filha, dando-lhe um tapa em seguida. "Não se pode confiar em alguém só porque ri", falou. A pequena abriu a boca a chorar. Por acaso o senhor do primeiro dia estava lá, no mesmo bar, assistindo à cena. Ele riu também e chamou Rio, que chegou mancando e se aconchegou perto de seus pés.

O sumiço de Rio foi sentido pela primeira vez em uma tarde confusa e cheia de gente. Passaram dois estudantes com um cacho de bananas nas mãos. Procuraram o cachorro em seus lugares de descanso habituais até chegarem ao bar de seu Tadeu. O dono do bar disse não ter visto o cão há dias. Ele não sentiu sua ausência porque, no fim das contas, a presença de Rio o incomodava. Desde que Rio havia escolhido seu bar para repousar, pessoas despejavam resto de comida, frutas e ossos no chão próximo. Ele discutia irritado no início, depois cansou e passou a varrer em silêncio, com a raiva contida para não assustar os possíveis clientes. Algumas daquelas pessoas até pediam um suco de vez em quando, ou uma empada. Naquele dia lhe fizeram a mesma pergunta centenas de vezes: "Seu Tadeu, o senhor viu o rihum? O senhor viu o Rio?" E ele respondeu que até outro dia o cão estava lá, correndo feito louco. Não sabia de nada. As pessoas foram todas embora desapontadas. É preciso esclarecer que Tadeu na verdade gostava de animais, mais especificamente pássaros. Ele era viúvo há catorze anos na época e desde muito pequeno havia acompanhado o pai nos cuidados aos periquitos, canários, curiós e companhia. Levou o hábito para sua vida de casado e de viuvez. Mantinha gaiolas por toda sua pequena casa nos fundos do bar. Era sabido que o homem havia dado cabo de todos os gatos da vizinhança. Ele amava profundamente todas suas aves. Cortava jilós, escolhia sementes, punha gaiola para fora, depois para dentro, dia após dia, cada uma delas. Limpava-as toda noite, assobiando para os pequenos pássaros. Sabia assobiar todos os diferentes cantos e sentia imensa satisfação quando respondiam seu assobio. Uma semana antes do sumiço de Rio, o homem ouviu um estrondo vindo de sua casa. As pessoas do bar se assustaram. Ele correu para dentro. Voltou um longo tempo depois, os olhos vermelhos de raiva, a mão segurando na pele atrás do pescoço do cão. Jogou-o para fora do bar, xingando. "Que houve?", perguntaram. "Essa peste invadiu minha casa e derrubou duas gaiolas". Riram. "Mas é só um cachorro bobão", "Te garanto que não teve a intenção". O homem, ainda mais furioso, respondeu: "Ele podia ter esmagado meu curió galador se não tivesse chegado à tempo". "Ah, é só uma cachorro! Não fez por mal", "Estava brincando". Os risos foram mais contidos. Tadeu pediu licença asperamente e foi terminar a leitura do jornal. Por esse motivo, algumas pessoas tiveram certeza absoluta de que o dono do bar havia encomendado a morte de Rio. Outros, mais esperançosos, acreditaram que ele havia chamado a carrocinha para levar o cachorro ou mesmo que Rio fora adotado. O fato é que, nas semanas seguintes desde o sumiço, o bar passou a ter menos frequentadores. Chateado, o homem começou a se descuidar no atendimento, tornando-se cada vez mais grosseiro. E depois, o dinheiro curto o obrigou a comprar produtos de menor qualidade. As pessoas que eventualmente retornaram e as que de nada sabiam não voltaram depois por conta sabor amargo do café. Tadeu demitiu suas ajudantes Ana e Clara, passou a comprar saldados gordurosos com outra pessoa e não vendeu mais as famosas empadinhas de frango. Seu público foi minguando e migrando para outros bares. A cidade cresceu, mudou. Hoje, Tadeu é morto. Rio também, provavelmente. Obviamente. Deve ter vivido pouco. Disso não sei - imagino. Todo cão de rua tem vida breve, não? 

segunda-feira, 24 de março de 2014

O crocodilo de plástico

Chove muito, não quero levantar. Minha filha pra lá e pra cá pela casa. Bate uma porta, acende o fogão, mexe em panelas... Passos pesados pra lá e pra cá. Mas ontem mesmo reclamava de mim: que falava alto, que a música estava alta – era pura dor de cabeça. Cheiro de camomila com chuva. Ô paraíso: essa cama macia e todo o resto lá fora. Mais uma batida. Minha filha vai pra rua. Volto a dormir.

Acordo no susto, mas não lembro do sonho que sei que tive. “Pai, pai...” minha filha me sacode com as mãos geladas. Vejo seu rosto pálido e noto a água escorrendo dos cabelos – está encharcada. Começa a me contar que não pregou os olhos a noite toda, que estava angustiada. “Liguei pra todo mundo... pra mamãe, pra vovó, pro titio, pros primos... Até pra você, mas ninguém atendeu e você não acordou. Liguei pra todas minhas amigas e pra alguns conhecidos distantes. Falei com uma pessoa chamada Flávia por engano.” A água escorre e pinga no lençol. Ela me mantém preso à cama, acorrentado a sua narrativa. “Flávia é veterinária, olha só? Passou a noite toda cuidando de um cãozinho agonizante. Na verdade, só vigiando sua morte lenta. Pai, ela me contou isso com tanta emoção que senti doer. Acho que chorou um pouco do outro lado da linha. Chorou pra mim, uma estranha!” Nesse momento, ela começa a chorar, mas não como quem soluça e muda a voz; são apenas lágrimas escorrendo em silêncio, fazendo companhia a água da chuva. “Pai, aí que está. Não éramos mais estranhas... Eu senti como se ela fosse tudo na minha vida. Eram seis da manhã e falávamos de como as coisas são bonitas, mesmo os últimos suspiros. O cachorro era novo, filhote ainda, coitado. Morreu de frio, algo assim; a mudança de clima. Não conseguiu se adaptar. Ela mal o conhecia e notou com uma doçura estranha, diga-se de passagem, aquele fim. Ela falou assim ó: ’é estranho porque quando morreu parecia que estava só dormindo e pronto, mas quando minha bisavó dorme – e ela tem 98 anos – é como se estivesse morta’ e é verdade, pai. Gente velha parece nem mexer mais o peito quando dorme. Parecem impregnados de morte já. Agora pouco, você sonhava e seu peito mexia rápido. Olha, até agora seu coração bate acelerado!” Ela faz cara de espanto com a mão no meu peito. Sorri em seguida. “Teve uma hora que Flávia dormiu no telefone. Era minha vez de falar e, do nada, comecei a contar do dia em que chovia como hoje, quando eu tinha nove anos e eu e você estávamos no centro da cidade. Naquela época você me levava pro trabalho com você porque mamãe tinha voltado pra Recife, lembra? Eu adorava aquilo. Entrava no elevador, sentia aquele cheiro de elevador e você me deixava apertar os botões. Todo mundo sorria pra mim, como se eu fosse aguardada há muito tempo. E lá de cima dava pra ver tudo! Aquele monte de gente pra lá e pra cá, correndo da chuva; as nuvens num tom de ferrugem e de repente o estrondo. Não era trovão, mas ninguém me disse o que era. Todos ficaram apavorados, lembro de ouvir um grito. Você me pegou pelo braço e me tirou da janela. Fiquei sentada enquanto todo mundo falava e olhava pra baixo. Passou por mim uma senhorinha banhada em lágrimas; nunca vou me esquecer. Eu ri pra ela – ela era importante pra mim como você e mamãe; não sei porquê. A gente foi embora mais cedo naquele dia. Você apertava minha mão com força e andava rápido. A chuva era tão fina que nem abrimos o chapéu. Lembro disso porque só assim pude ver aquele objeto mágico sobre a cabeça de um homem de olhos puxados. Isso é importante, pai, presta atenção!” Acompanho de perto suas recordações. Lembro daquele dia como se fosse hoje. “Eu ficava olhando os guarda-chuvas, me perguntando porquê as pessoas precisavam deles se a chuva estava tão fraquinha. De repente apareceu um monstro verde, com dentões e garras. Ele olhou pra mim e disse ‘menina bonita, você sabe onde fica a rua Júpiter?’ Soltei da sua mão, sorri e apontei pro céu. Ele sorriu de volta e disse alguma coisa que não ouvi, porque você me puxou violentamente para dentro daquele mar de gente parada ouvindo as sirenes de ambulância.”


Ela se levanta subitamente e corre pro banheiro. Deixa a porta entreaberta e posso ouvir a urina batendo na água. A chuva volta forte. Aperta a descarga e abre a porta com o pé só pra não me perder de vista. Me olha, gira a torneira e deixa a água cair sobre as mãos. “Minha filha, foi naquele dia que o Seu Henrique, zelador do prédio, recém viúvo, pai de duas meninas, cometeu suicídio. Você se lembra?” Apaga a luz e vem se deitar do meu lado. “Ele estava conversando com você, fazendo aquela brincadeira que você adorava de adivinhar o que tinha na mão. Era só uma moedinha. Você pegou e ficou olhando pela janela. Então, ele abriu a janela ao lado, subiu na cadeira – era um sujeito de menos de um metro e meio, tinha uma cara muito engraçada, deixava aquele bigodinho sujo, lembra?” Ela acomoda o rosto preguiçosamente no meu travesseiro. “Aí, ele mergulhou no ar, né? E paft.” Sobe em mim uma emoção em forma de arrepio. “Essas coisas são muito tristes, minha filha. Não vale a pena ficar relembrando...” Ela levanta o rosto amassado do travesseiro e me olha com ternura: “Tá pai, mas você não se lembra do crocodilo de plástico?”

terça-feira, 4 de junho de 2013

Sujeitos abreviados


Ma e Ed estavam sentados na cama fumando. Na TV, a programação estava fora do ar. O silêncio da noite de domingo, o vazio dos corredores da casa e o chiado da tv causavam um mal estar tão profundo que Ed começou a chorar. Ma nem ligou, bufou de tédio e jogou a cabeça na cama. Ed, esticado no chão, já começava um soluço quando seu irmão entrou no quarto. “Vou sair!” O choro cessou, Ed saltou do chão assustado: “Vai aonde?” O irmão deu as costas e seguiu escadas abaixo, sem acender as luzes. “VAI AONDE?”, Ed gritou pro escuro lá de baixo. A chave fez barulho na fechadura. Bam! A porta fechou. “Esse merdinha!” Ma amassou o cigarro no chão e se sentou: “Vamos sair?” Ed sorriu e depois chorou uma manha.

“Ed seu besta, esquece esse seu irmão que nem te dá bola!” Ma era manca e por isso lenta; descia as escadas de degrau em degrau. Ed não ligava, já tinha se acostumado com o ritmo dela. E, quando a esquecia para trás, retrocedia os passos e colocava a mão em sua cintura. “Vamos dançar? Deu vontade!”, ela acendeu a luz da cozinha, onde Ed bebia água numa longa e chateada golada. “Domingo à noite? Querida, em que mundo você vive?”, Ed se jogou no chão, sentando. Ma engatinhou até ele e beijou seu pescoço. “Deixa de ser ranzinza vai...” e lambeu. Ele riu e empurrou seu rosto: “Faz cócegas, não gosto!” Ela ficou de pé e esticou o braço na sua direção: “Vem?”

Ed não conseguia parar de visualizar os cômodos escuros de sua casa. Solitários, vazios, tristes. E pensava em seus pais chegando e acendendo todas as luzes, falando alto, sem calma ou cuidado. Essas vozes altas o incomodavam tanto que ele chacoalhava todo o corpo para voltar a si. “Você trancou a porta?”, Ma perguntou, longe, lá atrás na calçada. Ed correu e abraçou. Beijou sua bochecha e sussurrou: “Claro que tranquei”. Ele morava com seus pais e irmão numa casa de vila alugada. Mudaram recentemente para essa casa de dois andares, bem localizada no centro, perto do metrô, da faculdade e de Ton, antigo namorado de Ma e melhor amigo do irmão de Ed.

Havia um bar a três quarteirões da casa. A rua vazia, com um ou dois taxis passando de tempo em tempo, bem devagar, quase seguindo o casal de amigos. Eles se viravam e mostravam o dedo do meio, como dois adolescentes insolentes. E os motoristas metiam o pé, xingando. Eles não riam, continuavam a caminhada lenta e tediosa. Chovia fininho e parava, de novo e de novo. Noite incerta, nem fria, nem abafada. O asfalto molhado, escorregadio, os becos cheios de sussurros ecoando e postes de luz falhando. Passaram por uma cabine da polícia e uma criança veio vindo com a avó. Não respondia os chamamentos da senhora e andava na frente, com os braços cruzados. Vendo os dois jovens de preto, se assustou e esperou a avó, que também se assustou e pegou forte na mão da pequena e apressou o andar, já de cabeça baixa. O policial olhou pela janelinha da cabine e sorriu pensando serem duas almas penadas as que via deslizar vagarosamente pela rua.

“Ele tá lá dentro, acredita?”, Ma voltou pra mesa e se sentou na frente de Ed. Era um barzinho bacana e grande. Algumas mesinhas na calçada, onde jovens se aglomeravam para fumar e rir. Na parte de dentro, rock alto, luz baixa e algumas poucas mesas junto à parede, onde havia apenas uma menina de cabelos cacheados e embaraçados, com fundas olheiras debaixo dos olhos e piercing de argola no nariz. Bebia itaipava e olhava o celular. Nos fundos, um largo balcão de madeira, com uma decoração cool  com discos de vinil na parede logo atrás e dois bartenders jovens e cansados servindo o pessoal. No meio da pista vazia, um rapaz dançava excentricamente. “Quem?”, Ed perguntou. “Ton!” Os dois pararam junto do balcão e observaram Ton fazendo seu show. A menina de cabelos cacheados os notou e se levantou imediatamente, indo falar com Ton no pé do ouvido. Ele parou e olhou Ed e depois Ma. Sorriu e foi se sentar com a menina. “Ele é tão sexy!”, disse Ed, sem desgrudar os olhos do rapaz. “Se você acha...” Ma revirou os olhos. Ton entornou um copo de cerveja goela abaixo. Pingava de suor. Usava calças jeans tradicionais e camisa de botão listrada aberta até o peito, onde se podia ver um cordão de ouro com uma medalhinha de santo. Tinha os cabelos tão cacheados e bagunçados quanto os da irmã. “O que será que eles tanto cochicham? Aposto que falam de nós!”, Ed roia a cutícula de nervoso. Ma se virou, encarando-o longamente: “você dá tanta pinta quando tá ansioso. Chega a ser patético.” Ed nem sequer ouviu as palavras dela, saiu andando assim que viu Ton tirar um cigarro do bolso e ir para fora do bar.

“Ei!” Ed riu sem graça e sem vontade. “Olá Ed!”, Ton colocou o cigarro na boca e acendeu. Soprou na cara do outro. Ed inspirou, não abanou. “Não sabia que você já tinha voltado. Meu irmão nem me falou nada.” Ton não olhava para o rapaz, encarava com doçura um nada qualquer na sua frente. “É”, ele disse: “Voltei ontem.” Soprou mais fumaça e notou um gato debaixo de um carro. “É estranho isso de você voltar e nem sequer me ligar. Sei lá, você sabe como esses dias têm sido arrastados. Tô sem inspiração pra nada. Não escrevi nem uma linha da mono. Sequer tive uma ideia de por onde ir. Estagnei legal. Nem sei se quero continuar, sabe?” O gato parecia procurar alguma coisa. Não ficava quieto no quentinho do lado da roda. Ton jogou o cigarro no chão e pisou: “Sei como é. Só um instante, Ed.” Foi andando cautelosamente ao encontro do gato. No grupo ali fora ninguém parou de falar, fumar ou rir. Apenas um olhar o seguiu. Era Ed, que estava hipnotizado com o jeito de Ton. Havia uma certa chateação também por não ser ouvido, mas era tão irrelevante que sumiu rápido. Ed não queria ser ouvido, queria ser tocado.

Ma conversava bobagens com a irmã de Ton até esta resolver ir ao banheiro. Sozinha, Ma puxou papo com o bartender para saber quais músicas ele tinha no notebook. Animou-se brevemente ao ver uma pasta de blues. “Isso aqui é pras noites de quarta [...] Cara, hoje é domingo e não vejo a hora de bater na cama [...] às suas ordens sempre, meu amor!” Ma beijou o sujeito e ele colocou Nina Simone pra tocar. And now we are one, let my soul rest in peace…”, Nina começou a cantar. Ma puxou o bartender e jogou os braços no seu pescoço. “In search for you, so that someday I could give birth…” Para lá e para cá, mexendo apenas os quadris, parados no mesmo lugar. O rapaz primeiro achou graça, mas depois acompanhou o ritmo triste da garota, fechando os olhos. “And now we give thanks... “ Ma começou a chorar. “Give thanks for each other…” Sem entender o que acontecia, o rapaz tentou puxar o rosto da garota para olhá-la nos olhos e, quem sabe, acalmá-la. Mas ela resistiu. Murmurou uma raiva, as lágrimas descendo nas bochechas, olhos cerrados. “At peace forever...” Forçou o rosto contra o peito do bartender e lá ficou até cansar o choro e o we de Simone, eterno em “For we are one”, permitir que terminasse aquela tristeza que chegou sem avisar.

“Ton, larga esse bicho, ele deve estar atrás de um rato nessa roda aí.” Ed riu. Tão sincero que se surpreendeu. Ton se virou e levantou do chão, com o gato no colo. “Fala pra ele que ele fica uma graça quando ri, fala!”, disse, segurando a patinha do gato, como se imitasse sua voz. Eles se olharam por um tempo, meio constrangidos. “Bom te ver, Ed! De verdade.” E sorriu. Ed não conseguiu sorrir e apanhou o gato das mãos de Ton, enxotando-o. “Poxa vida Ton, nem uma mensagenzinha de texto? Só pra avisar que tava tudo bem... Sabe que meu irmão não fala direito comigo, né? Eu nem sei se vocês ainda estão se falando... Vocês têm conversado?” O outro fez que sim com a cabeça. “Mesmo assim, né? Como eu ia saber? Me deixou no escuro aqui. Isso não se faz, pô.” Ton tentou puxá-lo pelas mãos, mas ele se desvencilhou. Ma surgiu ao lado de Ed, apoiando a cabeça no seu ombro. “Vamo?” O gato voltou, roçando nas pernas de Ton. Ele se distraiu e ficou em dúvida se olhava o olhar empedernido de Ed ou o carente do gato. Abaixou-se num instante para apanhar o bicho manhoso e perdeu a partida do casal de amigos.

Ed encontrou Ton encostado num muro, próximo à estação de metrô. O gato ainda por perto, miando arrastado. Ma logo atrás, mancando silenciosamente. A chuva fina, os carros velozes. Já era meia-noite, segunda-feira. Ton sorriu e depois se emburrou: “Me deixou sozinho lá, cheio de vontade de você. Não foi legal!” Balançou a cabeça. Ed arregalou os olhos àquela revelação. E pronto, estava feliz! Nesse milésimo de segundo, quando dois homens passavam falando sobre o jogo de futebol e um ônibus deixava alguns passageiros no ponto, estava feliz. E uma mulher de saias batendo nos joelhos desceu as escadas com seu salto fazendo barulho e a bolsa apertada junto ao corpo. Tinha acabado de fugir de um trombadinha e estava com os lábios tensos, rachados de frio. Eles ficaram entreabertos no susto de ver aqueles dois sujeitos juntos ao muro, pertos demais um do outro. Fingiu que não viu e atravessou a rua. Tinha ainda voz de criança por ali – Ed se lembrou das vezes em que, quando criança, voltava de festas de domingo no carro dos seus pais, olhando pelo vidro traseiro o movimento inverso das coisas. Encostou seu corpo no de Ton e o beijou devagar, sem língua, saboreando seus lábios. Ma tirou um cigarro da bolsa. A mulher de saias virou para olhar e sorriu como quem acaba de descobrir um delicioso segredo até então inconfessável. Ouviram-se “viadinhos” e “bichas sem-vergonha”, mas estes logo sumiram na chuva. Ton afastou sua boca da de Ed e disse: “Tanto lugar pra me beijar e vem me beijar logo aqui?”

Os três seguiram até a casa de Ed. Ton de mão dada com Ed, que tinha o braço na cintura de Ma, que, por sua vez, trazia um cigarro entre os dedos. De qualquer distância pareciam um casal de três. Passaram pela cabine de polícia, onde o policial roncava alto com a TV ligada fora do ar. Ed se desvencilhou dos outros dois para abrir o portão de ferro da vila. Haviam duas vozes no longo corredor de casas, uma de homem e outra de mulher. Eles conversavam deitados na cama, no tom mais baixo possível, sem saber que àquela hora todo baixo era alto demais. Falavam da vida, de como se conheceram e de como a noite tinha sido gostosa. Fazia tempo que ele não cozinhava e ela gostou de vê-lo brincando com o filho. Ele disse que adorava seu cheiro e confessou um pensamento sobre a primeira vez em que a viu. Descreveu a cena, lembrou a sogra e a cunhada que a acompanhavam no dia em questão e disse ter se sentido pequeno pra ela. “Até hoje sou menor perto de você, mas isso não é ruim não, me faz rico em espírito.” De repente, um choro. Ela começou a chorar. Ton a imaginou emocionada e visualizou o marido a envolvendo gentilmente com os braços, o peito preenchido por uma sensação maravilhosa de completude. Ma viu finitude, como se as coisas dentro da casa os limitassem. O casal acuado na cama – os dois chorando desconsoladamente por haverem percebido que tudo o que têm e são os cerca e prende no presente. Ed, pensando como Ma, vê um porta-retratos já dentro de casa, onde há uma foto sua com o irmão almoçando, estranhamente sérios e concentrados, e imagina a angústia que essa memória deve carregar por se enxergar porcamente restrita a esse objeto. “Esse casal fica tentando tocar esse sentimento que já passou. Descrevem o que vestiam, guardam o que escreviam, mas não adianta... Não vai adiantar nunca... Já foi.” Ma liga a tv – chia fora do ar. ”Infelizmente já foi.” Ed acende um cigarro e começa a chorar iluminado pela claridade da televisão. Ton o envolve pela cintura e olha seus olhos: “Baby, não chora não! Você foi me buscar e me conseguiu de volta. Então de onde vem esse lamento?”

Logo o irmão de Ed voltou com a namorada e batatas fritas e milkshake do bob’s. E o telefone tocou e seu pai perguntou se queria pizza. “Ma, quer pizza? [...] Ton, de quê você gosta? [...] Pai, a gente não quer nada não, tá? Só vem logo pra casa de uma vez! Acho que já deu por hoje, não? Amanhã você e mamãe trabalham cedo, esqueceu? Que ideia essa de ficar até tarde na rua, eu hein?! Fica bem, Beijo!” Ton colocou a cabeça no colo de Ed, enquanto Ma girava na cadeira junto à escrivaninha. Assim que Ed desligou o telefone, Ma contou nos dedos: “Ed ama seus pais! Ed ama papai! Ed ama mamãe! Ed ama maninho! Ed ama amiguinhos! Ed ama pintinhos! Ed ama todo mundo! Ed só sabe amar e nada mais!” Os três riram sem querer, depois disseram que se amavam e foram dormir sem escovar os dentes. 



(Na foto, link da música "Consummation" cantada pela belíssima Nina Simone)