terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Ephémeros Mature


Eliseu e Gâmbia se casaram, mas antes bailaram ao cântico do amor.
Eliseu morava no pé de um morro e Gâmbia no topo. Todos os sete dias da semana, o rapaz caminhava 1.185 passadas até a casa lilás que lhe guardava a amada. Ele sempre trazia em mãos uma oferenda e no peito um desejo: a oferenda variava, o desejo se fortalecia e lhe tomava o coração de modo a prensar os pulmões; Eliseu arfava.
Esse amor não era tolo, tolos eram os participantes que se permitiam o envolvimento num jogo de embaraços pretendidos e risadas dissimuladas. Apenas o coração era sincero em ambos e os dois eram um, batiam sincronizados, entoando aquela música a qual os amantes dedicam horas a fio com ouvidos apurados a cada nota e receptivos a cada agudo. A memória se empregava em guardá-la e a língua em exercitá-la em eternos lálálás.
Num retorno ao passado, encontramos Gâmbia na primavera, tendo ingressado na vida adulta há poucos instantes. Seu olhar como mulher trazia uma sublime ternura que lhe aguçava o mel dos olhos, atentos na leitura de um livro de poesias. Estava amparada pela sombra de uma grande amendoeira em frente a sua humilde casa de paredes cinzentas. Eliseu, por sua vez, aproveitava sua infância prolongada em arremessos de peão. Foi então que levantou sua cabeça ao sol e encontrou os fios dourados dos cabelos de uma deusa em toda sua magnitude a contemplar os meros mortais.
O moleque, em sua condição de mortal se tornou homem digno de admirar a deusa, esta que se tornou efetivamente mulher ao ser tocada pela alma do outro deslumbrado.
Gâmbia deixara o livro sobre as raízes da árvore para sentir os raios de um sol que se despedia e exigia reverência. De olhos fechados, ela reconheceu o olhar de um homem a abraçá-la; e o abraçou de volta. Fora um momento único, onde se tornou capaz de sobrevoar a amendoeira e sombreá-la.

Eliseu planejou seu futuro assim que chegou a casa e olhou nos olhos de sua mãe:
- Meu filho...
- Minha mãe...
- Ah, que belo - respondeu a mãe ao ver sua ideia escorrendo dos olhos.
- É amor - pausa e um majestoso abraço - pela deusa da amendoeira.
A mãe do moço sorriu e se afastou de seus braços. Seu filho era um homem, ela era mãe de um homem - que truque do tempo, como uma mulher franzina poderia carregar aquele Eliseu em seu ventre por nove meses? As lágrimas umedeceram o rosto.
- Não chora, mãe. - surpresa nas palavras do filho.
- São lágrimas felizes.
- Então, a senhora compartilha da minha felicidade?
- Por que não? - surpresa nas palavras da mãe.
- Porque meu coração agora pertence à outra mulher.
- Ora, vejo que a tolice não é virtude infantil.
E assim, em outro abraço, foi finalizada a conversa entre mãe e filho, e Eliseu atinou que aquela que fora a primeira mulher de sua vida jamais seria esquecida e tampouco substituída; com o passar dos anos perceberia que nenhuma podia.

Na noite do mesmo dia, Gâmbia se banhou cantarolando, jantou cantarolando, viu a novela cantarolando (na novela não havia cantarolares), reparou seu pai cantarolando (?!) e foi dormir cantarolando. A cama da moça dava para um pequeno sótão e para um pequeno porão, naquela noite ela subiu para o sótão e ao sair por uma pequena janela se posicionou no telhado, olhando as estrelas, que a olharam de volta e brilharam mais.
“Quem é o rapaz do pé do morro, o que carrega meu coração e tem um abraço cativante?”
As estrelas piscaram uma, duas vezes - Gâmbia adormeceu, as estrelas se apagaram e o sol nasceu: um dia previsto feliz.
- Gâââââmbia! - o pai berrou.
A mulher caiu do telhado. O pai correu em socorro.
- O que a senhorita fazia no telhado? - nervosismo se expressava em seu olhar e o susto ia se esvaindo. - Anda, responda! - a menina se movia lentamente. Fora acordada no susto, embora o tombo tivesse sido insignificante devido à pequena altura da casa.
As ásperas palavras do pai logo foram substituídas por seu gesto seguinte. O homem ajudou a moça a se erguer.
- Ah, minha filha... - o tom era baixo e movido à doçura – Está de volta? O tombo a acordou do disparate dessas suas idéias, como a de subir no telhado?
A mulher logo despertou seu corpo num chacoalhar e, pela pergunta de seu pai, começou a procurar seu coração.
- Não, papai. - havia um fio saindo de seu peito - Continuo longe. O senhor vê minha metade.
- Esses livros finalmente fizeram efeito...
- Os poemas prepararam a terra, a irrigaram e plantaram a semente...
- Quem a germinou? – o pai parecia aflito quanto à reposta, mesmo esta sendo irrelevante ao seu tormento.
- Ainda não sei o nome - Gâmbia notou que o pai demonstrava certa insegurança – pouco importa saber o nome.
O senhor na frente da mulher esboçou um sorriso, e viu sua falecida esposa nos olhos da filha.
- Não sabe o quanto isso me alegra!
Os dois se abraçaram.
- Corra, minha filha! - a alegria transbordava - Vá confirmar teu amor!
Gâmbia correu pra dentro de casa, tirou o camisola, colocou um vestido azul, molhou o rosto, calçou um chinelo, e apressou-se em direção à porta. Voltou, pois havia esquecido o chapéu de sua mãe em cima do armário (um chapéu Suzana com uma longa fita lilás), colocou-o na cabeça e saiu.
- Tchau pai. - beijou-o no rosto e mirou seu destino final: a base do morro.
- Vá com Deus, querida! - desejou o pai que vira de relance um fio lhe escapar do peito.

Eliseu percorria aqueles espaços repletos de flores, Gâmbia percorria o mesmo lugar de flores e os dois se olharam quando alcançaram o meio do caminho.
Gâmbia olhou os olhos e cabelos negros e o porte garboso do homem que a esperava desde sempre. Ela, certa quanto à escolha de seu coração e eufórica pelas circunstâncias, riu demoradamente e, em seu sorriso, tornou franco o amor que já sentia. Ele riu de volta. Eliseu viu o melaço dos olhos dela, embriagou-se.

O beijo.

O beijo foi inevitável. Eliseu se adiantou em cortejo e Gâmbia se entregou a fantasia. Os corpos se tocaram: os lábios da mulher se retraíram e os do homem os atingiram, não houve contato maior, o amor foi somente selado. Uma borboleta voou. As mãos do casal caminharam pelas costas um do outro, buscando a temperatura ideal para a compreensão, apitando para um abraço íntimo. Quando terminaram a jornada, abriram o casulo e esticaram os braços pela liberdade, fazendo como asas a bater em harmonia, como as da borboleta que voava.
Os corpos se afastaram, trazendo de volta a necessidade de descoberta. A borboleta pairou entre os dois e por não se sustentar diante tamanha troca de energia, morreu. Foi ao chão sob os olhares intrigados dos dois amantes. Qual não foi a surpresa de Gâmbia ao notar-se madura quanto ao falecimento de um ser tão afável:
- Positivamente morta, necessariamente bela!
Eliseu retornou de lá onde estava, o reino dos amores dobrados e guardados no bolso, e chorou por amar. O que era de um instante, um pouco mais que nunca, ele viu como eterno. E amar seria tão impossível quanto complicado e Gâmbia se desmancharia como as nuvens no céu e, curvada, seria outra. Mesmo não sabendo quem seriam no banho de sentimentos desperdiçados no tempo, ele apenas chorou a emoção de amar pela primeira vez. A borboleta foi levada por formigas em procissão, para em seguida ser arrebatada pelo bico de um pardal faminto.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Dizer ao não querer dizer


“Eu só quis dizer...”, o pensamento vem mais uma vez na minha cabeça e tudo gira. A pessoa na minha frente quis confrontar minha afirmação. Uma afirmação bem simples, daquelas feitas por fazer, mas que nem por serem esse singelo pedaço de pensamento, deixam de ser o seu pensamento; deixam de ser eu. Aí, veio essa pivete e me refez o que eu disse bem na minha frente. Ela deslocou todo o sentido das minhas palavras e, sem educação alguma, resolveu imprimir suas verdades em mim. Eu havia dito simplesmente: “O dia tá rosa hoje!” e ela, sentada de costas pra mim, se virou com o sorriso mais forçado do planeta e comentou: “Ia ficar um desenho foda, hein...” No exato momento em que a ouvi, fiquei bem chateada, mas de uma maneira que não me afeta completamente, aparente apenas. Esperei que assim ela sentisse minha raiva pelos meus olhos e me poupasse as palavras a mais. Porém seu sorriso era estático e sua alegria acerca de sua genialidade comentada continuava a me puxar pra si, pra seu próprio núcleo.

“Eu só disse que o dia tava bonito rosa...”, nesse instante minha tática foi outra e retribuí um sorriso. Foi a vez dela fechar o rosto por estranhamento. Felizmente ela dirigiu os olhos através da janela e pôde constatar o que havia dito. Acho que percebeu que o dia só estava rosa e que isso bastava. Ledo engano. Ela voltou a sorrir e puxou o caderno da mochila, prontificando-se a desenhar.

À princípio não acreditei no que acontecia diante de mim. Que mulherzinha estúpida! Eu tenho um ódio tremendo de gente que vive de imagens, fotos, roupas, vestimentas, personagens... Eu sei lá como descrever, mas é isso de visualizar seus gestos fora do corpo, apostando numa mensagem falsa ao espectador. O jeito como ela alisava o lápis na folha e lambia os lábios, tudo artificialmente orquestrado pra me causar algum tipo de reação. Ela realmente acha que eu vou colocá-la num pedestal por simplesmente fazer de tudo um projeto artístico? Só porque fazemos a porra do curso de desenho industrial não quer dizer que tudo em nossas vidas tenha que estar relacionado à droga da faculdade. Me recuso a enxergar meu mundo pelos mesmos olhos durante esses quatro anos aqui dentro; na próxima o que vai ser: ter os olhos “época” de quem vê ou “superinteressante” de quem admira? Deve-se realmente viver do que se faz ou fazer do que se vive? Puta merda, ela conseguiu. Me tirou do sério e embaralhou meus pensamentos.

“Eu só quis dizer...”

“Shhhh... Tô quase terminando.”

Ela não fez isso! Eu me levantei, peguei a porcaria do cigarro no meu bolso e fui até a janela me acalmar. Acendi e joguei pra fora. Ufa, essa pivete pensa que faz um bem danado pro mundo quando se sente bem, mas quem sou eu pra recriminá-la, eu nunca de fato me senti bem. Talvez por isso nunca fiz nada de bom pro mundo. O fato é que não há esse bem lá fora só porque existe um sentimento bom aqui dentro. Sei que não. Pensando assim, me vi retida em uma lembrança vaga e chata. Não era bem uma lembrança boa, porque nunca me senti assim tão bem na minha vida: era tipo um dia assim como esse, em que uma cor prevalece no céu. Um azul bem forte, talvez fosse só o quesito passado afetando minha memória, mas era anormal aquele azul que me envolvia por inteira. Não sei, acho que queria chorar aquele dia (ou é agora? Deve ser a influência do tempo essa lágrima que caí). Tive uma bomba em uma disciplina, uma dessas professoras mal-amadas bem vadias que só querem te ferrar porque o que sabem de bom da vida está restrito àquela sala e àquelas palavras cheias de loucura sexual. Enfim, essa figura me ferrou e fui pro banheiro feminino chorar, algo não muito comum, mas naquele dia era como se aquele fato fosse a válvula chefe para o meu colapso total. Eu tinha umas questões mal-resolvidas em casa por que fiz uma merda daquelas bem grandes nesse meio tempo de ano. Até fiquei uma semana na minha avó; mas naquele exato dia eu tinha saído de casa com palavras bem bravas ressoando na minha mente (“Quero mais é que você e toda esse seu teatrinho de moralista vão se foder!”) e não eram palavras que devessem ser ditas a sua mãe, muito menos quando é ela a única capaz de te livrar da dor. Tá, eu fodi legal quando fui me meter com a piranhazinha da Verônica e com aqueles seus amiguinhos patéticos. Sabia que ia dar merda, mas mesmo assim fui entrando fundo no joguinho do eu-quero-testar-meus-limites, e eles me levaram à fossa diversas vezes. Tinha dias em que eu dormia junto de gente que sabia que não prestava e que, possivelmente, tinha mortes acumuladas no currículo, mas isso me motivava a continuar de uma maneira absurda e paradoxal. Perdi inúmeras virgindades sem me dar conta. Perdi as primeiras fases do desperdício e quando acordei ouvi em alto e bom som minha mãe me chamar de nada, meu pai me olhar como uma prostituta barata e meu irmão me tratar com nojo. Teve esse dia - meramente forjado de “dia” - em que me olhei e vi isso tudo e senti raiva mesmo. Parei; quer dizer é difícil parar...

Com o bagulho em si foi até fácil, porque nisso nunca fui fundo. A droga era parar com a vontade de ser o tal nada. Aquele dia azul tinha me feito refém do banheiro feminino, daquele espelho e daquele choramingo alto que não tinha provas de existir de fato. Não sei bem quanto tempo fiquei trancada ali, mas fui lembrando da droga toda com uma nitidez boa, fácil... Sabia porque tinha brigado com minha mãe depois de ter me transformado num robô por dois meses. Sabia que era impossível reter toda a raiva dentro de mim por mais tempo e que era lógica a vontade de destruir quem ainda restava de herói. Aquelas horas azuis foram me amortecendo. Olhava pro nada e era como se visse fora dos muros, como se estivesse aberta nesse dia de longas horas; eu estava era no tempo mesmo. É estranho porque só agora percebo isso. Não tem nada a ver com a cor, ela só te ajuda a lembrar. Dali pros dias imediatos eu fui melhorando em algum sentido, não digo no sentido exatamente pleno de cura e coisa e tal, mas fui me estruturando pra crescer em mim.

O cigarro acabou. A garota não tá mais ali, graças aos céus. Não sei porque a odiei tanto, só sei que o ódio me é aleatório. Faz parte desse meu processo. “Cara, quero ser autêntica!” falei na aula seguinte. A pivete estava lá e me olhou estranho. “Eu sei, é...” (ele continua sem saber o meu nome, nem me importo em dizer) “Eu sei, só queria que você explicasse porque tem tanta aversão a essa estética!”, o professor desviou os olhos de mim e pensei que seria bom se ele jogasse aquele papo todo pela janela e se fixasse nos meus peitos. Porque nem todo homem é maníaco sexual? “E isso vai de lição pra todos vocês, não vale sair por aí teorizando e criticando indiscriminadamente. É preciso parar, olhar...” Ele se virou e colocou as mãos nos bolsos - uma bunda espetacular, deve-se dizer. Apontou pela janela: o dia estava quase no fim. “Por exemplo, já notaram o tom do dia hoje?”

Eu ri. “O dia tá bonito rosa, não?” Ela me olhou sonsa, revelando sua verdadeira face não trabalhada no personagem perfeição-profissional. “Com certeza, está... está sim, muito bonito rosa” ele riu na minha direção. O desenho de minha cara colega pivete estava uma bela droga, eu finalmente pude ver. Sorri feliz e me dirigi ao meu querido professor. De repente minhas palavras tinham adjetivos carinhosos e eram boas de pensar. O professor sorriu pra mim mais uma vez com o dia em seus olhos. Fiquei feliz. Seus olhos caíram bem nos meus peitos. Fiquei feliz.

sábado, 2 de outubro de 2010

Texto errado persistente


A areia foi entrando pela boca, me sufocando de grão em grão. Preencheu meu pulmão e o tornou duro feito pedra; o ar doeu. Respirei forte pelo nariz, numa tentativa de recuperar a facilidade de viver, mas acabei por misturar catarro à volumosa massa de areia. Entupi e cuspi. Foi então que o desespero deu o primeiro passo: comecei a me debater, ansiando por fugir dali e sentir a emoção de escapar, estar a salvo de um perigo que não foi perigoso o bastante para me aniquilar. E observá-lo de longe achando tudo engraçado. O alívio. Todavia, esse instante agonizante nunca cessava, e a questão da eternidade causou-me um temor triste. Entreguei-me às lágrimas. A areia foi descendo e encontrando todos os espaços deixados vazios até chegar ao coração. Então, disparou pelo corpo um calor incomum de felicidade; um que pelo inverso subia. Voltei minha mente à uma conexão celestial. Rezei, rezei e chorei. No fim, misturei tudo: lembranças perdidas e resgatadas, sofrimentos arrependidos, carinhos infantes, uma loucura adolescente de fuga eterna, a virgindade dos encontros verdadeiros, braços abertos como feridas fraternas, caminhada frustrada de homem, a imagem de indescritível realeza, que entendi como amor - vomitei! Arrebentei minha garganta com as unhas, chamando a visão infernal do ódio vermelho enlamado na areia. Meus olhos piraram, virando pra dentro e encontrando meu coração quase em cima. Ele pulou para fora pelo buraco aberto na garganta. Fugia pra longe. Não permiti, mas meus braços já não se mexiam. Pensei em explodir. As vitórias derrotadas com êxito sublime pela desistência da vida foram premiadas com a morte dum corpo cuja alma também pereceu, tenra e ilusória, fechada em si. Fiquei errado.

Ideias


Olhar vazio parado na sombra sem cor. E como sombra se fez, se nem luz há? Xita, monkey! Samba sonífero! Dolorido numa dor sem corpo. Alma vã e vaga: o secreto inexiste.

Quebrando, partindo e vendo o que mente: as cores, a luz e o sol divertido. E o escuro.