quarta-feira, 10 de maio de 2017

Barriga


Passo o pé na barriga
Da cachorra virada para cima.
Ela fecha os olhos quase
como quem encara luz forte.

Os espaços onde existem dobras,
Como debaixo das patas
Junto ao peito,
São quentes
E aquecem meu pé.

É um exercício de esquecimento
E pertencimento:
Enquanto esqueço o tempo que passa,
Pertenço ao tempo que para.

Melhor mesmo é ser cachorro,
Que não tem tempo pra contar.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Camiseta que parece gaveta


Foi comprada branca e barata
E foram pintadas fogueira e espada
Para que parecesse minha cara.
Quinze anos passaram e ela
Continua aquela mesma que era
Embora com buracos e rasgos
No tecido semi esquálido.
Se muito se esfrega e lava
Desfaz tanto que logo acaba.
Por isso não uso muito
Senão para lembrar
Do jeito e cheiro peculiar
Da minha infância.
Essa camiseta tem semelhança
Qualquer com a gaveta que a guarda
Já que quando ponho em mim
Vejo que me guarda criança.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Cor esvanecida


Sonhei que buscava uma cor que se perdia na multidão. Queria lhe entregar um bilhete que trazia na mão. Hoje, saí na rua vestindo a tal cor e nada encontrei antes e depois do sol se pôr. Levei comigo aquele bilhete bem dobrado no bolso, mas não o entreguei a quem não encontrei por pouco. Fiquei de repente na frente de uma linda fogueira. Era a expurgação dos males da vida inteira. Fumaça inebriante. Perdi a chance. Fogo tem um tanto da cor sonhada. E outro tanto de estafa.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Foz



Penso aqui enquanto leio poesia. Tô sentindo aqui uma tal agonia. Revejo coisas, memórias daquele dia repleto de rostos, passos e algazarraria. Repetidamente, você passa por mim. Um passa e some sem fim. Você me dá um esbarrão e subitamente te acho na multidão. E te perco então. É esse o movimento da gente. Te comento com alguém, você existe. Te lembro comigo, você persiste. Quero é abandonar isso de te achar. De ficar achando e perdendo até cansar. Se te sussurro, você caminha forte e presente. Se pisco, já some, ainda presente. Quero te pedir em ultimato que fique. Ou vá, sem hesitar. Vá! Pois gosto de tu, meu xará. Fico imaginando se me reconhece tão bem também, ou passa por aí sem me notar? É provável que não me veja, só me esbarre. Porque faço barulho não, sou remendo e eco da multidão.

Esse último ato imita o primeiro: vem meu olhar te buscar faceiro e você me aceita num talvez, então te despisto com voz, tatuagem e timidez. O ensejo pra beijo já se fez. A boca esquece as palavras e se alonga, tomando o idioma da língua já tonta para dizer sobre eu e você enquanto ocasião. Passo a descobrir teu corpo com as mãos. A inspirar teus cheiros, pelos e apelos pelos meus pelos, cabelos e cheiros.

A brisa salgada desvenda nossas semelhanças e oculta as dessemelhanças. Sua mente finalmente desabrocha, tal dama da noite que escolhe a hora. Percebo que fui vítima de apaixonamento precoce. Nem o horizonte mais me acolhe, já que me estendi para além do sol posto, pensando ser suficiente esse teu gosto. Mas não é. E nem se quer ser.

Fico quieto em casa até esbarrar de novo contigo, pensando em como te inverter para amigo, mas o mar que aqui está aumenta a gritaria do coração. E é cada encontrão… Quanta distração! As ondas quebram, batem com força. Sou pedra desfazendo à toa. Viro um monte de pedrinha miúda que uma hora chega na areia difusa. Pode alguém recolher e guardar ou de volta na água me arremessar. Costumo voltar, trazido pelo teu silêncio, temendo ir quebrando até me tornar algum contrassenso.

Agora, nesse mesmo hoje mareado, quando te vejo passar de longe, despreocupado, não mais anseio roçar meu ombro no teu, desejo apenas que teu olhar encontre o meu, por um tempo assim ligeiro, e que depois nos percamos no cenário inteiro.

É a despedida então que se avizinha. Caminho refazendo outra rota, onde deixo tua imagem lembrada ir embora para que o sem você possa vir a ser. Carece paz na cabeça e no peito porque essa agitação do mar bate é de jeito… Despedaça, desintegra, quebra toda vida… vai pedrinha e volta partícula indefinida. Mas ó que areiar até que faz bem. Já posso me espalhar até desencontrar. Faço que rio, sorrio pro sol e agradeço ser rio. É foz de domingo nessa sexta dezessete. Agradeço às palavras pela fluidez desordeira. Penso aqui no quanto esvazio a poesia.