segunda-feira, 21 de junho de 2010

Tarde de ódio, política, amor, pesadelo e fé no orkut

Eram duas da tarde num domingo quando um perfil chamado @Fábi°* resolveu postar numa comunidade chamada "Ódio Aleatório", que zelava pela mútua compreensão desse sentimento talvez incompreensível. O perfil clicou em "nova postagem" e começou a digitar: "Olá, nem sei se permitem isso na comunidade, mas pensei em criar um tópico-caixa, onde toda vez que alguém ficasse muito puto com alguma coisa aleatória, pudesse despejar suas merdas."

Para começar: Hoje eu odeio esquemas!

Tudo tá tão esquematizado pra se pensar, agir, falar de determinada maneira que parece que já decorei as falas dos outros e as minhas. Sem contar que esquema é uma palavra complicada porque lembra tático que lembra futebol que lembra vencer que lembra prepotência que lembra capitalismo selvagem que lembra desigualdade que lembra injustiça que lembra revolta que, por sua vez, lembra ódio enfim."

O tópico foi postado e a página permaneceu estática por cinco ou seis minutos. Foi então que o perfil @Fábi°* voltou para sua página principal, visualizou suas fotos recentemente postadas e verificou a contagem de comentários (igual a zero). Ficou preso nessa reverificação até decidir (e digitar) ele mesmo um comentário na foto 017 do álbum "cada vez mais longe...".

O comentário foi feito e desfeito sete vezes. Um amigo perfil Ana§Vote15§ deixou um recado na página de recados de @Fábi°*
"Oi, pasando pra lembrar de votar 15 semana q vem!!! Vlw. conto c/ vc! Bjs.te/amo.."

Ele clicou em responder a mensagem e ctrl+c no "te/amo" acrescentando "tb!". Hesitou em enviar, mas enviou mesmo assim, indo em seguida visitar o perfil Ana§Vote15§. Visualizou todos recados. Leu e releu o seu, recomeçando toda a checagem uma segunda vez. Sentiu ciúmes de alguns perfis que também amavam Ana. Ficou com raiva de si mesmo. Fugiu pros álbuns da menina. Todas as fotos com sorrisos mostrando os dentes e uma dedicada a um homem: um cartaz com a seguinte inscrição "Robierto Alvez: Vote no centroavante! Vote pelo avanço! Vote 15!". Ctrl+c novamente - copiou a legenda da foto e a salvou na área de trabalho. Uma revoltinha crescia dentro. Clicou em comunidades, mas recebeu um recado de um outro perfil. Em sua página de recados, os dizeres:

"Oi, pasando pra lembrar de votar 15 semana q vem!!! Vlw conto c/ vc! Bjs.te/amo.."


Era do perfil Lei²linha.


Subitamente a tela se apagou e as palvras sumiram. O computador reiniciou sozinho. O que ele escrevia em resposta foi sugado pelo espaço obscuro do não-existir. A tomada do computador trabalhava hesitante, com mal contato, e o estabilizador piscara centenas de vezes, mas Fábio não tinha percebido. @Fábi°* desapareceu, sobrou Fábio. Perdeu o ctrl + c e as ideias que tinha. Esqueceu a raiva anterior e chutou CPU. Restou apenas o número quinze na configuração mental repetitiva do provedor humano Fábio. E esse número ficou tão grande que o engoliu num pesadelo enquanto cochilava sono inquieto de meio da tarde. Acordou assutado e carente. 

Apertou os botões orando para que o computador ligasse em paz.

domingo, 30 de maio de 2010

Galaxy


- Puta merda! O que você fez, seu imbecil?

Já era dia e José Antônio mal sabia. O ar da manhã gelada batia sem dó no rosto de Helena enquanto ela lutava para arrancar fora a calcinha suja de terra. Ao seu redor, um campo de mato orvalhado e resquícios da noite abandonada.

Helena primeiro umedeceu os lábios com a língua para depois abrir os olhos. Sabia que o que eles podiam ver a envergonharia. De fato a razão serviu dedutivamente bem: vários seres humanos não-recicláveis jaziam em posições sexuais variadas, congelados no cansaço do orgasmo inalcançável. Eles haviam feito jus às várias latas de energéticos. E ela se lembrava claramente que o que via era o resto de uma manifestação política.

A calcinha cheirava a álcool. Helena se desfez dela enquanto José Antônio procurava desesperadamente seu cachimbo escavando o mato alto. A calcinha lhe trouxe o cachimbo caindo bem em cima dele. O rapaz teve nojo e se desfez da desfeita, levando o cachimbo à boca com um saquinho de fumo já na mão.

- Eu não fiz porra nenhuma, foi o puto do Henrique que chamou os caras pra tocar a parada.

Helena se aproximou de José Antônio com um saião hippie de uma mulher desacordada chamada Carmem, cujos cabelos foram raspados pela metade. Helena guardava a dúvida sobre se aquilo ocorrera antes por moda ou depois por protesto. José, que havia terminado o primeiro fumo entre chacoalhadas no corpo todo pra acordar e lembranças cômicas do que foi o dia anterior. Olhou a moça se aproximar com desconfiança fingida, para sustentar um suposto charme. Helena puxou um galão de lata e se sentou ao seu lado.

Os dois rapazes que dialogavam alto demais para a sensibilidade auditiva matinal de Helena se distanciaram um pouco na busca das chaves da picape:

- Liga pra ele, cara! Você não vai querer que o Madruga acorde sem uma explicação do que...


E as vozes se foram.

Helena olhou para José Antônio e parou os olhos com fixidez incomum no seu pescoço encardido com riscas de sangue. Esse dado a iniciou numa série de questionamentos sobre o passado do rapaz e sua ligação com o dela. Aparentemente, os dois estiveram no mesmo círculo sonoro de batidas eletrônicas acordadas com a ação em prol da unificação dos CUTB. Existiam grandes chances de que haviam tido um encontro numa mesa de poker qualquer ou compartilhando um baseado. Do nada, a mente da garota desnudou o rapaz e ela só desejava adivinhar suas proporções genitais. Imaginou se elas seriam capazes de lhe dar prazer e se o corpo dele saberia como se comunicar com o dela. As mãos que eram delicadas com o cachimbo suportariam a fragilidade dos ombros gemendo? O quadril saberia se mover ao som da melodia de seus dedos?

- Me dá uma tragada?

- Você fuma cachimbo?

- Não, nunca fumei.

José Antônio passou o cachimbo para Helena e sua mão, sem querer tocou nos dedos da outra. Ele sentiu de repente a frieza toda da manhã. Ao seu redor a desgraceira do que fora um protesto sem fundamento, ele lembrava. Sua capacidade de acordar um dia depois do outro mantendo os olhos abertos para ver o que mais de patético existia na sua vida ainda o deixava atordoado e surpreso. “Quando você vai parar de respirar um minuto em homenagem ao minuto que perdeu percebendo a desgraça do mundo?”, pensou. A Helena ao seu lado era a mais comum das Helenas, mas ele, mesmo sem saber o nome, nem queria saber sobre suas origens e motivações. José perdera o paladar para o fumo e começou a choramingar silenciosamente em seus pensamentos, lembrando de suas pretensões artísticas.

- Ontem à noite nem deu pra completar a apresentação da proposta cultural. Ia ter uma performance bem bacana sobre a persona universitária atual. Digo, a brasileira.

Ele tomou o cachimbo de volta e notou que Helena lhe sorria no apelo de uma conquista.

- Pois é. Mas se quer saber nem existia a possibilidade de se levar isso a sério. Você fazia parte de algum conselho? - ela o olhou se esquecendo que sorrira antes buscando sexo - Pra falar a verdade, eu nem sabia que isso existia. Vocês foram bem estúpidos de fazerem o evento logo aqui. A primeira sexta do mês é o dia da Galaxy.

- Sabíamos disso. Na verdade, esperávamos que isso ajudasse nossa causa.

José soltou o cachimbo, segurando-o com os dentes pelo canto da boca, fazendo com que Helena dissecasse a cena, adicionando um novo aspecto masculino ao rapaz - uma mais charmoso e tolo. Ele  estendeu a mão direita na sua direção.

- Faço parte do Conselho da URSERJ. José A, prazer!

- José A?

- A e ponto. Significando Antônio.

- Ah... - ela riu notando os primeiros raios de sol tocarem os cabelos grudentos do rapaz - Você queria passar mistério sobre sua identidade.

Ele deu uma longa tragada descobrindo uma nova conexão com a moça.

- Toda identidade é um mistério. Mas não, não pretendia fazer suspense ou coisa parecida ou causar alguma impressão especial. Tipo, você nem faz meu tipo físico de garota e acordei meio mal do estômago pelo bagulho que tomei ontem.

- Você é só José Antônio?

- Isso!

Helena sorriu discretamente para baixo e entrou novamente no jogo de coletar informações interessantes sobre José Antônio. Fora o fato dele ter um nome, seus pressupostos só tinham intenções ajustadas a devaneios sexuais. Ela gostaria de perguntar se tinham transado na noite anterior e, com a negativa, se gostaria de transar naquele momento. Ela sabia que as palavras em sua mente circulariam estúpidas sempre num mesmo eixo até que realizasse seu desejo. Não havia espaço para algo diferente daquilo que eram: ele era um conselheiro e Helena achava tudo aquilo extremamente chato. Incompatíveis.

- O meu nome é Helena.

Eles se olharam uma vez mais e ele finalmente entendeu que ela talvez gostasse de sexo pelas frescas horas do dia. Helena cruzou as pernas, esticando-as na grama e ele pôde perceber que a moça estava sem calcinha. Seu sorriso foi propositalmente safado. No minuto seguinte, José A. já estava sentido uma excitação crescente no pênis. Helena começou a cantar uma música pop qualquer, de costas para ele.

José deu um tapinha no ombro de Helena, chamando sua atenção. Ele balançou a cabeça num convite que a moça não precisou decifrar duas vezes. O botão do jeans voou para quilômetros de distância indo parar na testa de Erick, um calouro de matemática que xingou alto, bocejando. Helena puxou o saião pra cima dos seios e se posicionou em cima de José A. Durante longos quinze minutos ele tiveram relações sexuais.

- Foi legalzinho.

- Desculpe, pensei que era isso que você queria.

O casal estava deitado na grama sentindo o orvalho derreter nas costas suadas. Os outros iam começando a caminhar cambaleantes, carimbando suas sombras nos rostos de Helena e José. Provocavam ruídos de cochicho realmente irritantes àquela hora pós-sexo.

- E era. – respondeu Helena após algum tempo perdida em pensamentos.

- É. Acho que realmente foi legalzinho...

José concordou com Helena apenas por conveniência, mas depois raciocinou honestamente relembrando as cenas da trepada e reconheceu ali nada menos que uma performance meia-boca.

- A gente se vê. – disse Helena, sentindo necessidade de dar algum conforto a José com sua cara de menino triste. Nunca vira um homem tão infeliz após o sexo.

- É. Ainda vamos trabalhar naquela performance que te falei pra usar em outra ocasião... – ele olhou para cara dela forçando um sorriso – que não seja o dia da Galaxy.

- Ah é! Galaxy agora só daqui a um mês. Tá tudo limpo pra vocês e seus grupos de conselheiros discutirem seus assuntos sérios, que visam... – ela não sabia o que dizer e sua voz foi perdendo o ritmo por constrangimento – o bem da comunidade universitária brasileira. Super apoio!

Helena sorriu orgulhosa de sua capacidade de falsear sorrisos.

- Você é uma artista, Helena?

- Eu? Não! Quem dera... Não – ela cuspiu um riso de descrédito – nada a ver.

- Você faz que curso.

Helena pensou em responder, depois pensou em porquê dava tão pouco crédito às artes. Ela lembrou de sua amiga Carla, do tempo em que jogavam pingue-pongue no recreio na época do ginásio. Carla ria bem alto num tom suave e lento, e inspirava Helena a escrever e reescrever a descrição do sorriso em seu bloco de ideias. Nunca havia conseguido decifrar em palavras aquela vivência. De repente questionou a existência desse tal bloco. A galaxy era um destino seguro, porto de felicidades instantâneas. Lembrou de que estivera triste no dia anterior, revirando coisas do passado, chorando com tudo. O bloco reapareceu no meu da confusão. E, por acaso, amou de novo aqueles escritos e chorou nas páginas e guardou consigo. Levara consigo: dançou com aquelas lembranças coladas ao corpo, dentro da bolsa, batendo nos quadris. Seria o bloco um protesto artístico?

- Olha, acho que pouco importa que curso eu faço. Deixa isso pra lá que essa é uma conversa muito tola. Hoje é sábado, mais um dia pra aloprar e depois é domingo e aí volta tudo ao normal. E é assim que eu escolhi viver: sendo normal e aloprando, normal e aloprando até sei lá, sabe?

- Sei. Foi bom te conhecer, Helena! Esse é um nome mítico, não é? Digo, referente à Helena de Troia e tudo mais. Não é assim que contam?

Ela riu presa na conversa mais ridícula de sua vida.

José Antônio tinha sua mente funcionando num esquema de não-compreensão racional e objetiva do que falava, procurando alguma justificativa que validasse uma conexão mais profunda entre ele e Helena. Queria poder interpretar a relação sexual como tendo sido boa e produtiva e não comum e inconsequente, com a ressalva de que ela não engravidasse.

- Não. Ninguém nunca me contou nada.

Helena, sem graça, se virou de costas e andou, interrompendo o jogo das palavras vazias. José bateu com as mãos nos quadris sem pistas de como pescá-la de volta pra si. - "De onde você é, Helena?", ela não ouviu. A derrota forçou o rapaz a planejar uma forma de liquidar o encontro de sua cabeça – a primeira oportunidade veio numa lata de cerveja que o fez recordar da reunião do CUTB naquela tarde, que logo puxou a associação dos estudantes de teatro amador e a compra de comida pra gato. Daí os pensamentos jorraram e ele se esqueceu que estava no meio de um campus fedendo a sexo e álcool. Só existia agora o gosto triste de uma garota que sumiu.

Helena dirigiu até uma padaria, onde pediu um copo de café puro sem açúcar seguido de outro num pré-pedido. Ela deixou que a quentura lavasse sua boca, apagando o sabor de cerveja. Permitiu que a ação de levar o copo à boca, engolir e pousar de novo sobre o balcão equivalesse a uma pausa  nos pensamentos muitos.

- O senhor pode ler essa página, por favor?

O dono da padaria olhou com olhos de aborrecimento, mas tomou das mãos da moça o bloco do ginásio e começou a inspecioná-lo com os olhos. Helena o observou ainda no ritual de beber o café devagar e lavando.

O senhor pigarreou como num palco:

- “Dia sete de abril. Hoje a escola mais uma vez anunciou o início das olimpíadas de gramática e matemática e joguei vôlei. Já foi a terceira vez nessa semana. Carla e eu decidimos sair da fila durante o pronunciamento e agora escrevo do banheiro feminino no terceiro andar. A gente está fumando, mas tudo bem porque já sei que vou parar aos dezoito e porque ela está cantando. Sua voz é tão alta e suave, quase numa incoerência sem saída. Às vezes, sinto que Carla é algo pra me mostrar que eu não consigo ver...” Aqui não dá pra entender – ele resmungou – Ah... “Fiquei pensando um bom tempo no que faria da vida quando estivesse fora do colégio. Queria ser do meio do caminho, como num filme americano – um road movie – queria ser um daqueles bares de beira de estrada por onde todo mundo passa mas não fica. Sei lá, são algumas das bobagens que penso toda vez que ela canta.”

Ele virou a página para verificar que ali terminara o dia sete de abril e que o próximo escrito datava dia oito de agosto. Enfim olhou pra Helena, que bebia o café em outro mundo que não correspondia exatamente ao passado e muito menos ao futuro. Talvez fosse um mini-mundo, desses que ficam em blocos anacrônicos ou camisetas de rock.

O senhor deu uma risada honesta enquanto relia uma frase.

- Engraçado como aqui você escreve: “Carla é algo pra me mostrar...” como se ela fosse uma coisa. – ele ri novamente e olha para Helena, que ri de volta, deixando o dinheiro no balcão.

- Obrigada.

Helena deixa a padaria e dá partida com o carro de volta para aquele lugar planejado tempos atrás, deixando espaços para desvios de percurso. Atrás do espectro vazio do carro, o dono da padaria aparece afoito com o bloco em suas mãos. Ele balança a cabeça e volta para dentro, guardando o bloco dentro do avental. Ele pensou de súbito no dia em que seria uma coisa para onde todos caminhos se voltam. Tinha certeza de que o caminho daquela moça a faria retornar e, para seu espanto sua certeza era a de um profeta. Ele podia ser a ênfase da previsão por enquanto – "não existem limites que não descansassem num regresso.", pensou. E o dia era vinte e nove de maio.

sábado, 1 de maio de 2010

Batidas


Dia 29 de abril, eu não tinha para onde ir. A faculdade me esperava pacientemente e o relógio me marcava os passos com olhos indagadores: "Por que aí? O que quer encontrar nesse buraco? Pra quê se inclinar à esquerda? Não se estique tanto! Venha correndo, mas não pra trás! Onde anda sua razão?", mas ainda estava na estação de metrô comendo um folheado de quatro queijos ao lado de um bloco com uma mulher desenhada. Quem me marcava: a hora, os queijos ou a caneta?

Pequei, peguei o metrô rodeado de dúvidas. Embaraçoso era ouvi-las cantando, impedindo minha concentração nas conversas dos outros. Ainda me prendiam no centro. Centrado no centro do cantarolar, ainda me perdi do lado de fora dos assobios. Chorei com as músicas do Legião. Não, não! Na verdade ontem não existiam músicas, só memórias... Lembranças de músicas que só lembro agora. Nem sei se ao menos... nem sei... ao.

Cheguei na Urca. Chovia, entrei, vi o vazio, saí.

Saí andando da faculdade de quase ninguém por causa horário cedo. Simplesmente andando, fazendo o que os passos pediam. Fui um boneco entre a chuva e a imprecisão quente encubada nas minhas coxas. Insisti ainda no guarda-chuva por um tempo que foi sumindo conforme o vento aumentava. Vi uma praça de bancos molhados, estátuas molhadas, folhas molhadas. Estava numa área do exercito. Uma área do exército molhada. Tudo era agradava minha falta de destino! Tirei meus óculos e fechei o guarda-chuva. Permaneci seguro para as novidades. O mar já ia chegar.

Finalmente a praia vermelha. Era final de tarde escura, por volta de cinco e dez, quando descobri que tinha uma praia na minha frente. Eram certas essas algumas horas, mas o tempo já havia me perdido no meio das botas encharcadas, fazendo cambalear a mente pelo chão. A praia era curta e a segui com os olhos daqui pra lá, até o lá ser perfeito para parar.

Chuva fina,
vento forte e frio,
ondas bravas,
dança do véu no costão
coberto de agulhas em prece.
Uma praça deserta atrás,
um pescador vulto-negro guardando suas coisas
e o som constante de algo batendo.

Batia no fundo do meu ouvido e parecia mais alto que o mar (infinito na névoa). No fundo, parecia o coração de uma árvore... Era o Brasil! Com a praia ainda impressa no corpo, pude ver a bandeira do Brasil bater forte contra o vento. Chorei tristezas estranhas.

sábado, 3 de abril de 2010

O que devemos fazer com o ódio?


Hoje descobri que odeio também. E com a mesma intensidade com que posso amar. O que mais me assusta nisso é a capacidade de borrar minhas palavras quando elas viram corvos de tiro à distância. Queria poder identificar minha astúcia em evitar, mas o que foge das mãos cata ruídos de um passado infeliz; e as questões da dor atordoam toda e qualquer vivência humana. Nossa dor é firme, e ela vem como um sopro a cada ventania que expõe a ferida. Aí eu odeio. E a força desse ódio me incluí no time dos desavisados.

Sei que amo.

Sempre que me sobra tempo para me ver de fora, me percebo olhando para alguém com um carinho especial. O amor é a coisa mais fácil, mais simples. Eu quero dizer que amo. Dizer o amor é a coisa mais difícil, mais complexa e as palavras não são coisas, embora todas as palavras sejam simples. Meus sentimentos de veia boa se revelam naqueles instantes em que percebo alguém além de mim, e numa primeira etapa isso já me é de imensa magnitude, não porque sou tão egoísta a ponto de ignorar meus semelhantes, mas porque alguém além de mim me permite encontrar minha face carimbada mais a frente. Quando a pessoa se aproxima e diz que existe, insisto em dizer que também há de existir em mim o amor. Aquele velho homem que carrega nas costas o peso do saber trabalha numa biblioteca e isso não necessariamente impõe que ele me deve ser simpático. Mas esse mesmo trabalhador é um mundo inteiro fechado em si, e mesmo não concordando no fechamento de um planeta inteiro num ser apenas, o que ele traz no peito é brilhante demais para ganhar minha indiferença. Ele, logo de cara, percebe minhas circunstâncias - sabe que entro na biblioteca com minha amiga, que busca um livro, e que planejo esperá-la do lado de fora - não existe nele a necessidade de inquirir além, ele me entende nas minhas motivações. Logo outro alguém me pergunta sobre o que faço ali, e depois mais outro, e enfim o primeiro torna a questionar, e todos voltam a conversar e me esquecer, já sabendo da minha posição segura em suas mentes. Não aquele senhor. Minha amiga demora a encontrar seu livro, ela vai e volta, digita o nome do procurado, anota as referências, olha as prateleiras de cima abaixo e recomeça tudo outra vez. Nem percebi o que o senhor fazia que não olhar continuamente para o jornal a sua frente, e subitamente ele me pesca com uma pergunta: "que livro sua amiga tá procurando?" - ele me via ali o tempo todo, via minha amiga, via nossa amizade e via minha preocupação. Também me ocorreu que ele notasse seus amigos em suas conversas e as notícias que permeavam o Rio de Janeiro.

Eu lhe disse o nome do livro e ele me respondeu com atenção sobre os problemas da biblioteca. Digitou o nome, anotou umas coisas com a caneta e partiu pra busca que era sua. Somente nesse momento da pergunta-isca eu parei de fato para notá-lo e o que me veio foi uma enxurrada de fotos de um mesmo homem, com suas ideias, suas palavras serenas e firmes, seus olhos por baixo dos óculos que olhavam pensando futuramente, e todos seus objetos materiais e imateriais os quais ele tocava, aproximava da alma e recolocava no lugar. Descobria pouco a pouco o princípio de uma paixão; estava embasbacado. Fiquei grudado nos seus passos: ele foi até o corredor onde estava minha amiga e ao invés de dirigir-lhe a palavra avisando que procurava o mesmo que ela, ele permaneceu em silêncio. Isso me surpreendeu mais que tudo. Quais eram suas razões? Será que queria surpreendê-la com o livro num momento irradiante? Ou podia mesmo estar lá em meu nome e não em nome da minha amiga... Podia sim fazer aquilo por mim; muita vaidade de minha parte, admito. Mas, por que procurá-lo pra mim que nem o queria?

Minha amiga desistira; ele não. Ela voltou com um sorriso amarelo, de mãos vazias, e sem sequer ter notado que o senhor estivera ao seu lado com o mesmo objetivo. De repente me surgiu que talvez o que ele buscava podia ser exatamente pra mim como pensara. Talvez quisesse me trazer a solidariedade que tanto procuro ao meu redor, a educação que meus olhos sugam pelos rostos que me passam diariamente, o carinho puramente natural, que em sua definição primeira me permite visualizar por todo o sempre a vida nas folhas das árvores, nos latidos da minha labradora, nos braços dos meus pais, e enfim, em todas as memórias que um dia foram e são boas mas que trazem consigo a certeza da eventual desaparição. O senhor achou o livro, sorriu com vitória. Ele achou e entregou com prazer, eu aceitei e o amei; amarei para sempre.

Mas hoje não é sobre amor. Sei que quando fugi agora pouco pelas lembranças dos meus amores me senti renovado e mais disposto a enganar meus ódios, porém quero gritá-los. Preciso cometer esse delito porque, por mais criminoso que seja, sua força de ferir será sempre infinitamente menor - agirá como fator de exorcismo. Vi "The Laramie Project", um filme que fala do ódio como fomentador do assassinato e me senti parte da briga. Questionei meus dogmas escondidos e sua força sobre meu julgamento dos outros. Sou alguém que odeia tanto quanto é possível odiar. Odeio como uma criança tola sempre que o orgulho é atingido. Somos todos crianças tolas, atinei, essa é sempre a raiz de todo ódio: o orgulho ferido. Dois garotos mataram porque existia um garoto gay que feriu seu orgulho em ser hétero. Um pai, por mais que clame pela proteção de um filho, é capaz de odiar sempre mais quando seu orgulho enquanto homem provedor de amor incondicional é deturpado. Tudo que nos aparentemente ataca com agressividade, desnuda nossas fraquezas, nos remete às nossas dores passadas, trazendo à tona tudo aquilo que ficou mal resolvido, que é evitado e não discutido. Primeiro passo meu: Dizer que odeio!

Segundo passo: entender porque odeio. Discutir, cair em lágrimas, tocar nas paredes sujas de sangue, orar pela fé necessária, clamar por compreensão e dormir. Acalmar tudo para que o fôlego retomado traga a clareza. Respirar fundo. Rir. Lembrar de todo o amor que me rodeia e me sentir novamente protegido, mas não enganado.

Terceiro passo nosso: ater-nos a toda riqueza de amor que somos capazes de cultivar.

No dia em que descobri o ódio dentro de mim no centro de um ônibus lotado, o vento revo
lvia meus pensamentos quentes. Ele os levava de lá pra cá na manutenção da serenidade. Desci do ônibus e meu pai me esperava. Num sopro final, o ódio foi dissipado. Durou menos que uma hora.

O ódio é a coisa mais fácil, mais simples... e esquecê-lo também é.
Só não se pode esquecer porque se odeia, já que se o fizer nunca irá lembrar de deixá-lo ir.

Cabe aqui, no fim de toda essa divagação, ressaltar que todas essas palavras são ideias cruas de um garoto de 19 anos. Palavras nem tão serenas e firmes como as de um velho bibliotecário, mas que tentam reavivar toda a integridade de um ser humano que faz questão do bem maior inerente a todos nós: o de querer e poder (espero sempre) exercer todas as formas do meu pensamento. E, se me permitirem dizer às suas mentes: devemos todos fazer questão disso!