
De manhã, levantei zonzo, passei pela
sala e notei as três sombras dos meus pais e irmão tomando café e suas vozes
fantasmagóricas me arrepiaram. Entrei no banheiro com o sonho ainda latejando
na cabeça. Escovando os dentes recebia mensagens ocultas da assassina
assustadora, e o som dos gritos ainda me assustava por mais que o sol bonito
das onze horas me esquentasse dizendo “está seguro aqui comigo!”. Sentei na
mesa e peguei minha caneca, enchendo até a borda só de café - mentira, uma
pequena força de expressão pra dizer o quanto o café era imprescindível pra
todo o processo de afastamento do mundo dos sonhos. “mãe, sonhei com você essa
noite...”, disse, mas depois me perdi porque meu pai não trouxe o pão que
queria – o suíço – e aí, era dia dos namorados, e minha mãe tava reclamando do
quanto tava velha e meu irmão tava calado às vezes, e outras dizia rindo
qualquer coisa como cópia do que eu falava; ironizávamos nossa mãe juntos.
“Já foram três casos de dizerem que eu tô velha”, ela recomeçava, “primeiro, a
professora de biologia lá da escola, que já tem mais de cinquenta anos, disse
que eu parecia uma senhora...” – “Nada a ver, isso é porque você tava com a
roupa toda fechada e certinha e o cabelo armado...”, dizia entre seu discurso,
sem ser ouvido. Meu pai balançava a cabeça, e ela continuava: “...depois, Alan
disse naquele dia que eu tô igual mamãe...” ela se esqueceu da terceira vez e
partimos pra uma conversa estranha, sobre o filme de ontem e sobre a
possibilidade de mudar de casa. Aproveitei pra reforçar: “Mãe, sonhei com você
essa noite...” – “Como foi?” – “Sabe como nos sonhos os espaços são familiares
e até lembram lugares daqui da Terra, mas são completamente diferentes e, às
vezes, assustadoramente vazios... (não foi bem assim que disse, mas era isso que
queria dizer) Eu sempre sonho com os mesmos cenários, só que eles vão se
ampliando e nos mostrando novos caminhos... Enfim, ontem sonhei que a gente
tava na casa da minha avó e que você era uma assassina, e tava todo mundo com
medo de você, inclusive eu. Você tinha uma faca, ficava lá nos fundos e
torturava umas mulheres, depois de ter discutido violentamente com elas; elas
urravam de dor e você aparecia com o vestido cheio de sangue (é incrível como
também nos sonhos eu nunca vejo os olhos das pessoas, mas sei quem são). Aí,
eu, minha avó e o pessoal começamos a rezar lá do portão e os gritos pararam.
Minha avó disse pra gente ir lá perto, mas Thiago, e os outros ficaram com medo
e fui só eu e minha avó. Você tava com uma menininha no colo e a tinha
esfaqueado no ombro; não lembro da expressão da menina. Eu e minha avó, de mãos
dadas, começamos a rezar; tava morto de medo. De repente, Margarete apareceu do
nada, bem na sua frente, e colocou a mão na sua cabeça e tal qual feiticeira,
gritou umas coisas e depois eu me perdi... ela sumiu, não sei se foi esfaqueada
ou se o sonho foi editado. Só sei que daí, eu peguei a faca da sua mão. Você
tava estranha, parecia de volta a si, com os olhos em branco, tremendo... A
menina também tinha sumido, e aí o sonho cortou pra outro dentro de um navio,
onde acontecia um show.”
Olhei pra ela, minha mãe. Apesar de tudo, continuávamos a tomar nosso café como se nada
tivesse acontecido. E nada de fato aconteceu. Mesmo tendo sido intenso, estava na
minha cabeça, só afetava a mim. “E aí?”, perguntei. “E aí que você leu minha
mente. Ontem, quando vocês tinham saído, eu fiquei aqui na sala, e me veio o
pensamento se eu já tinha matado alguém em outra vida. Você tava lá fora, deve
ter pescado meu pensamento e sonhado com a resposta.” Eu fiquei estranho, me
arrepiei de novo, e engoli café pra ficar okay. “Mas só quem tava lá era eu,
minha avó, Fátima, Thiago e Margarete.”, ela comia e falava normalmente, mas
era torturantemente má no meu sonho. “Então, só vocês estavam comigo lá!” –
isso eu não sei se ela falou mesmo ou eu pensei. Terminado o café e o assunto,
minha mãe lembrou do terceiro caso onde foi reconhecida como velha: “Ah,
lembrei: a garota da farmácia perguntou se eu queria desconto de
aposentado...hahaha! Eu tô muito acabada, acho que vou precisar fazer alguma
coisa no rosto... Vocês não vão me julgar se eu fizer não, né?” Meu irmão
ironizou um pouco, rimos e fomos ler o jornal, lavar a louça, recolher a mesa,
ligar o computador, meio que por aí, sem ordem ou distribuição justa. Fiquei
procurando casas nos classificados e me perdi do sonho: esqueci legal mesmo.
Minha mãe ficou na cozinha ouvindo Legião, e eu volta e meia ia lá só andar.
Vi o lembrete do projeto social de música na geladeira, tentei gravar pra
pesquisar mais tarde, mas esqueci de qualquer maneira. Meu pai resolveu colocar
um dvd de pagode, e meu irmão o incentivou só pra me provocar e, em meio a
suas risadas, eu esbravejei, xinguei e me enfiei no quarto com o resto do
jornal.
No quarto comecei minha adorável rotina de domingo: não fazer nada e deixar que
o sentimento de culpa cresça exponencialmente até que me possua por completo e
me assole numa terrível depressão de segunda. Lá deitado, com o notebook quente
na barriga, procurando casas e mais casas, pensando em possibilidades e
planejando o resto do dia, me veio a vontade de habitar aquele mundo de casas
reconhecíveis apesar de nunca vistas e ruas que só se ampliavam, em um caminhar
que só fazia crescer um mundo, como se finalmente pudesse degustar cada
centímetro do novo. Tudo ao redor pode ser surpreendente, há sempre uma nova perspectiva, mas
quase nada tem sabor de novo, quase nada inspira curiosidade. Isso não acontece no mundo de quando
a gente dorme. Os sentimentos são reais e são as fichas sempre apostadas, a
intuição comanda e é livre. Queria estar lá sempre. Pensando nas horas que
vinham, decidi assistir finalmente “A bela Junie”, que já está no meu pc há
séculos. Só que quando decidi, meu pai foi comprar o almoço e eu escolhi
assistir depois do almoço então. Mais uma volta minúscula e vazia de novo pela
casa: geladeira, copo d’água, memorizando o aviso, olhando minha mãe, ouvindo
minha mãe, estranhando. Que estranha estreia de dia. Almoçamos, saí do almoço
como um foguete, engolindo a comida, reclamei das toneladas de açúcar no suco e
cuspi na pia sob os olhos de ninguém, eu acho (agora que escrevo, percebo que
talvez ela estivesse me observando já) . Assisti o filme, ainda na cama. Gostei
do filme, tive aquela sensação de habitar o lugar com a alma, de sentir o frio
das imagens, de ser o clima que é avisado pela meteorologia. Eu finalmente ia
fazer o que sempre desejo fazer nesses dias, arrumar uma hora pra escapar da
armadilha virtual e dormir, afogando minhas mágoas por não viver de verdade. O
mundo dos sonhos é infinitamente mais maravilhoso que o da internet. Eu ia
conseguir, mas minha mãe entrou no quarto quando ainda estava com o pc ligado,
quebrando a possibilidade de passar a imagem de alguém que não desperdiça o
tempo, mas que está cansado demais pra ele. Fiquei com raiva, e quando ela me
pediu pra digitar as provas dela, eu fiquei de cara feia no escuro e disse: “Eu
ia dormir agora, só depois [...] Tá, mas eu só faço quando quero! Gosto de
fazer assim![...] Que saco! Já disse! [...] Eu faço quando acordar! [...] Se
acordar! [...] A gente nunca sabe se vai acordar de novo!”. Ela ficou chateada,
porque mãe sempre fica chateada quando filho brinca que vai morrer ou não
acordar nunca mais. Disse que ia na casa da minha avó porque minha priminha
tava lá, e eu pedi que mandasse um beijo pra ela, mas ela gritou que não ia
mandar droga alguma; do lado de fora do quarto ela ainda gritava com meu pai
sobre o que eu tinha falado. Só então percebi que já estava entrando... Estava
sendo absorvido lentamente. Ia dormir, com frio, com minhas cobertas
aconchegantes. Ia dormir no meio da tarde, às 17h36. O travesseiro macio, o
celular gelado na mão, o óculos caindo. Fui dormir. Dormi.
O sonho.
Estava num trem, o trem de sempre, mas era Paris, mas era o de sempre mesmo.
Tudo com o gosto excitante do novo. Era o mesmo horário da vida real, fim de
tarde, nublado, meio cinza esverdeado, meio noite. Estava sendo perseguido e
estava junto de duas amigas da faculdade, e ainda estava na faculdade, com
livros e bibliotecas que só cresciam e cresciam. Seus longos corredores de
luzes apagadas tinham aquela sensação familiar de constante surpresa. Ela
estava marcando meus passos. No trem, articulava um plano pra não morrer,
enquanto ouvia minhas amigas conversarem sobre coisas banais e rirem. As risadas soavam longe,
como se estivéssemos em lugares diferentes; teorizo que estávamos, suas imagens
nem estavam lá, não estariam dormindo também – Vanessa tinha que estar
estudando no fim de semana. Não estariam dormindo, não estariam lá, mas partes
secretas de seus cérebros participavam comigo desse esquema sonhado. Não me
auxiliavam, serviam só de suporte imagético para aumentar minha confiança na
salvação ou na realidade do sonho. Enquanto tagarelavam, e as outras pessoas do
trem inexistiam apesar de estarem lá, eu senti a sua aproximação mortal. De vez
em quando tinha lapsos de suas feições demoníacas, com rajadas de risos
tenebrosos e raios literalmente saindo dos olhos; não era tão ridículo quanto
aparece escrito. Eu fui preso quando cheguei no sonho, mas vivia me esquecendo
disso desde o seu início. Fui preso quando cheguei na minha estação, mas na verdade
ainda não estava lá, só sabia o que ia acontecer e que sairia correndo pela rua
que levava à minha casa, e estaria sozinho, como sempre. Então, eu tive uma
brilhante ideia para despistá-la: chamei um assassino rival, e ele estava no
trem, ao lado do maquinista. Ela percebeu e, diabólica, voou sobre o trem
demonstrando força e chamando o outro pra briga. O assassino rival caminhava de
vagão em vagão, queria matar alguém também. Trazia um facão e queria enfiá-lo
no meu peito, e ia doer pra caramba. Que burrice a minha! Que droga de plano.
Nos sonhos sempre estamos sozinhos, e aquelas imagens de amigas já não me
transmitiam esperança alguma. Elas eram nada, não me compreendiam, não podiam
me ajudar. É estranho como o estar sozinho junto dos que se ama pode soar tão
mágico e assustador ao mesmo tempo. Acho que é assim que os sonhos são pra mim:
mágicos e assustadores. Mas os vilões são bem reais! Claro que isso é porque
sempre dou mais atenção ao que está errado e crio vida nisso. Ele vinha,
ela sumiu no ar e o trem parou na minha estação. Sabia que os guardas vinham
me prender e que lutaria muito para me soltar. Eles não vieram. Já tinham vindo
uma vez e o sonho não queria se repetir. Cortou para minha corrida - de repente, estava correndo - por essa rua
escura aqui atrás da minha casa. Minha respiração dava sinais de ir ficando mais última
progressivamente. Cheguei em casa e nunca me senti tão amedrontado. Lá, tudo
que conhecia parecia tocado de fim. Cada coisa não me dava segurança, sumia em
importância. Me vi dentro de um armário (que nem existe de verdade) dentro do
quarto em que dormia na realidade. Sentia que estava ali junto de mim mesmo. Um dormia sem respiração, e o outro dentro de um armário que nunca vi, perto da
janela. Ela apareceu! Voava, e arrancou as cortinas com tempestade de raios e trovões que
provocava com a mente. Não era mais minha mãe, mas sempre seria. Eu não gritei
porque já ouvia com os ouvidos reais e eles não ouviam nada que vinha da parte
secreta do cérebro. Ela pegou meu pescoço com as unhas. Não senti nada, porque
meu corpo já recobrava a consciência dos 82 quilos em extremidades bem acomodadas.
Ela não tinha mais poder de morte porque estava bem na minha frente, abaixada
na penumbra, olhando dentro do meu sonho, me censurando, rindo sussurrado pra
não me acordar. Ela fazia Shhhhhhhhhhhhhhhhh! com o dedo sujo sobre os lábios.
Seus cabelos estavam despenteados, duros pro alto, sujos. Tudo estava sujo,
mas eu não sentia o cheiro porque não era real. Quando abri os olhos dei de
cara com ela, que riu com dentes estragados e me matou com seus olhos arregalados.
19h48. Só ouvi meu irmão rir na sala – tinha voltado – minha mãe tava na
cozinha e eles se falavam de cômodos distantes, alto demais, e estavam felizes.
Meu pai devia estar dormindo (eu não sei), não tínhamos habitado o mesmo mundo
de qualquer maneira. Podia estar no computador também. Mas estávamos todos
dentro de casa e, quando abri os olhos, apesar do escuro, consegui ver tudo que
conhecia e isso me fez calmo: senti confiança na realidade. Toda vez que a
gente acorda precisa confiar no que existe, não é? E eles estavam andando no cenário.
Abri a porta do quarto: luzes acesas, estavam andando nessa maravilha de palco
familiar. Olhei pra trás. Sabia que lá na cama, sobre meu travesseiro, restava a
poeira da fuga, disposta a me ajudar no retorno. Minha mãe tava no quarto com
meu pai, sentada na cama, procurando algum papel, organizando provas e ele no
computador. Olhei meu irmão na sala, jogando video game. “Sabia que não
era você?”, eu disse, me sentando ao lado da minha mãe, “Era tudo eu! Queria
que houvessem outros, mas era tudo eu. Sempre foi.” Ela não entendeu, e
continuou fazendo o que estava fazendo. “Não vai dizer nada?” Parou e me olhou:
“O que você quer que eu diga?” Ainda estava zonzo da morte.